99 – O Incrível Homem que Encolheu (1957)

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The Incredible Shrinking Man


 1957 / EUA / P&B / 81 min / Direção: Jack Arnold / Roteiro: Richard Matheson (baseado em sua obra) / Produção: Albert Zugsmith / Elenco: Grant Williams, Randy Stuart, April Kent, Paul Langton, Raymond Bailey, William Schallert


 

Richard Matheson é um dos mais importantes escritores e roteiristas de Hollywood do gênero fantástico. Muitas de suas obras, livros ou contos, foram adaptadas para o cinema em diversos filmes, que entre eles podemos citar Mortos que Matam, A Casa da Noite Eterna, Ecos do Além e A Caixa. Além disso, foi roteirista da série Além da Imaginação, desenvolvendo alguns dos episódios mais clássicos (incluindo o famoso episódio da criatura na asa do avião) e também roteirizou filmes como O Solar Maldito, A Mansão do Terror e O Corvo (adaptações de Edgar Allan Poe dirigidas por Roger Corman e estreladas por Vincent Price), As Bodas de Satã, da Hammer, e Encurralado, filme para TV nos primórdios da carreira de Steven Spielberg como diretor, entre outros.

Tudo isso para ilustrar que O Incrível Homem que Encolheu foi sua primeira novela homônima adaptada ao cinema, com o próprio Matheson assinando o roteiro do longa, o que por si só já dá um toque de qualidade indescritível na narrativa e principalmente nos solilóquios do personagem principal, que atingido por uma misteriosa nuvem radioativa, enquanto descansava em seu barco à deriva durantes suas férias, começa a encolher aos poucos.

Além disso tudo, O Incrível Homem que Encolheu foi um marco com relação aos seus efeitos especiais, trabalhando muito bem as sobreposições de imagem do diminuto Scott Carey (personagem de Grant Williams) com relação tanto às outras pessoas quanto ao ambiente gigantesco que o cerca. Esses efeitos ficaram por conta dos não creditados Cleo E. Baker e Fred Knoth (também responsável pelo louva-a-deus gigante em The Deadly Mantis), além dos efeitos óticos criados por Everett H. Broussard e Roswell A. Hoffmann.

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Mas é um homem, ou um rato?

Outro ponto que merece e muito ser mencionado é a direção precisa de Jack Arnold, fazendo aqui seu melhor filme. O diretor já tinha habilidades em dirigir histórias de ficção científica para a Universal, tendo já tinha em seu currículo nesta altura do campeonato, O Monstro da Lagoa Negra e Tarântula, que coincidentemente também traz à tona a questão da mudança de tamanho e os efeitos que isso proporciona, neste caso, uma aranha que fica gigante através de alimento sintético radioativo. Sua preocupação obsessiva com a cenografia, cuidando detalhadamente de cada objeto macro no universo do encolhido Scott é magnífica. Caixas de fósforo, agulhas de tricô, botões, gotas de água que parecem um dilúvio. Tudo esta ali meticulosamente colocado para, com perdão do trocadilho, termos real dimensão do tamanho da coisa.

Bom, sobre a trama, como escrevi lá em cima, seis meses após Scott ser atingido pela tal nuvem radioativa e ter continuado a viver sua vida normalmente com a esposa Louise (Randy Stuart), aos poucos o sinal de seu encolhimento começa a ser notado, através das roupas que começam a ficar largas em seu corpo. Ao visitar um médico, Scott constata que está cinco centímetros mais baixo do que é normalmente, algo clinicamente impossível que começa a despertar a pulga atrás da orelha dos médicos.

Após uma batelada de testes, nenhuma causa conclusiva é descoberta, e Scott continua a encolher. Isso começa a trazer desagradáveis problemas de relacionamento com sua esposa, confinamento em sua casa já que o caso foi parar na mídia, além do atormentado “doente” começar a sentir-se isolado e emocionalmente desconfortável, com seus 93 centímetros de altura. Sem nenhuma solução para o problema, o encolhimento irreversível chega a um estágio onde Scott começa a morar na casa de bonecas, e o adorado gato do casal passa a se tornar um monstro gigante e uma verdadeira ameaça peluda à vida do desafortunado.

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Soft kitty, warm kitty, little ball of fur…

Até que um dia, Louise sai de casa e sem querer deixa o gato livre na sala, que parte para caçar o pobre diabo, que precisa lutar por sua vida contra aquela fera gigantesca. A perseguição resulta numa queda acidental ao porão, onde Scott passa a viver em um território inóspito, sozinho, dado como morto pelos familiares, tendo que utilizar de todos os recursos possíveis para tentar se virar e conseguir alimento, nem que seja um queijo mofado em uma ratoeira, já que além de continuar encolhendo, está faminto e desesperado.

No porão, entre latas de tintas, caixotes e pregos enferrujados, tudo absurdamente grande para o tamanho de Scott (uma cena ele diz que pular um buraco de uma caixa é como proporcionalmente atravessar o Grand Cânion para ele) o herói encontra sua nêmese na história: uma aranha que habita o local, que assim como o pequenino, precisa encontrar alimento. A batalha entre os dois será feroz, com Scott usando agulhas e fósforos para travar uma luta de vida e morte contra o aracnídeo que tece sua teia e espreita na escuridão, esperando o momento certo para fazer sua nova vítima. Só que Scott recusa-se a se portar como um inseto indefeso, afinal ainda é um homem e dotado de inteligência e capacidade de raciocínio.

Ao final, Arnold imprime uma discurso filosófico existencialista e religioso que acaba tornando o encerramento do filme um tanto quanto piegas e desnecessário, questionando a importância de cada ínfima coisa para o universo como um todo e para a obra de Deus, dizendo que para O mesmo não há “o nada”, e até alguém com um tamanho infinitésimo como Scott, faz sim diferença para o Criador. Blá blá blá cristão, que não existe no livro e foi enxertado por Arnold no roteiro.

Muito diferente do que a maioria dos filmes de sci-fi na época, O Incrível Homem que Encolheu de forma alguma pode ser colocado no mesmo patamar das produções B da década de 50.  A complexidade do tema, o esmero na ambientação do minúsculo personagem, o roteiro narrado intimamente em primeira pessoa e todos os detalhes, fazem dele um grande clássico.

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Querida, me encolhi!


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] escrito por uma das mais geniais mentes de Hollywood, Richard Matheson, o mesmo de Eu Sou A Lenda, O Incrível Homem que Encolheu, Ecos do Além e As Bodas de Satã, entre […]

  2. […] Jack Arnold (que também dirigiria futuramente outros clássicos como O Monstro da Lagoa Negra e O Incrível Homem que Encolheu) conseguiu manter um clima de tensão durante o thriller, sugerindo sempre muito mais do que […]

  3. […] Crowley. O grande escritor e roteirista Richard Matheson, responsável por livros e filmes como O Incrível Homem que Encolheu, Mortos que Matam (e a refilmagem Eu Sou a Lenda), Encurralado e Ecos do Além, e alguns episódios […]

  4. […] pelo fantástico roteirista e escritor Richard Matheson (Mortos que Matam, As Bodas de Satã, O Incrível Homem que Encolheu, Encurralado, e por aí vai), baseado em seu próprio livro, muito do que se vê nesse filme é […]

  5. […] clima dos filmes de ficção científica das décadas de 50 e 60 (até o título lembra muito O Incrível Homem que Encolheu), O Incrível Homem que Derreteu não perde tempo enrolando o espectador e tentando inventar […]

  6. […] (não creditado), que também seria responsável pelos efeitos extraordinários (para a época) de O Incrível Homem que Encolheu, não deixa a desejar para aqueles que gostam de dar uma boa risada com o bonecão do inseto. Até […]

  7. […] onde Angela diminui de tamanho, e começa a ser perseguida pelo gato, em uma referência a O Incrível Homem que Encolheu de Jack […]

  8. Paulo disse:

    Não sei porquê falar de Deus incomoda algumas pessoas.

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