A estética oitentista de Os Garotos Perdidos

Um filme que conseguiu transportar para as telonas todo o feeling de uma geração


Quando F.W. Murnau dirigiu, lá na década de 20, Nosferatu – Uma Sinfonia de Horror, aquele que se conhece como o primeiro filme de vampiro da história da sétima arte, ele definitivamente não imaginava o posto que esses monstros alcançariam na cultura popular.

Afinal, o arquétipo desses sugadores de sangue, vilões repulsivos e maldosos, não deveria soar como algo inspirador: o sofrimento de viver na escuridão para toda a eternidade, a aflição de ser portador de uma maldição terrível, e toda a feiura da aparência pálida e faminta soariam exatamente como repelentes para qualquer pessoa normal.

Entretanto, desde a publicação do clássico livro de Bram Stoker, que ganhou inúmeras adaptações para a televisão, cinema e teatro, a popularização massiva desses seres noturnos foi aumentando ao passar dos anos. E a imagem negativa original que o público tinha foi transmutando nessa mesma proporção. O monstro, que antes poderia ser considerado como uma praga, sendo caçado e exterminado, acabou se tornando um ícone de sensualidade, jovialidade e modernidade.

Acredito que o responsável por começar a mudar essa concepção foi o Drácula do ator Bela Lugosi. Com seu charmoso sotaque húngaro e seu porte aristocrático, abriu as portas para que tantas outras interpretações moldassem a imagem do vampiro como o conhecemos hoje. Já o Drácula interpretado por Christopher Lee, com sua presença alta e majestosa, fez com que as mulheres passassem a se sentir atraídas por essa figura masculina.

Whose motorcycle is this?

Porém, a imagem dos vampiros continuou mudando ao longo das décadas, e se tem um filme que conseguiu transportar para as telonas todo o feeling de uma geração, definitivamente, foi Os Garotos Perdidos. Quando Joel Schumacher aceitou dirigi-lo, sua maior preocupação era com a imagem que os personagens do núcleo vampiresco passariam para o público, porque né, estamos falando de vampiros adolescentes, e não de senhores imponentes com séculos de idade (e de aparência).

Schumacher então decidiu chamar Michael Champman, veterano diretor de fotografia que já havia trabalhando numa caralhada de filmes respeitáveis, como Taxi Driver e Os Invasores de Corpos, para integrar a equipe. Foi ele o responsável por toda aquela paleta de cores quentes usada no filme, que destoa totalmente do clima soturno dos filmes vampirescos feitos até então.

Além disso, o diretor também decidiu investir pesado na caracterização desses personagens, chamando a figurinista Susan Becker, que já havia trabalhado anteriormente com ele no cult oitentista O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas. Susan queria que os personagens parecessem confortáveis em suas indumentárias, então designou um orçamento para cada um dos atores e os deixou que comprassem seus próprios figurinos, hoje peças vintage de brechó que parecem ter voltado à moda com toda força.

Na trama, os irmãos Michael (Jason Patric) e Sam (Corey Haim) mudam para uma cidadezinha, Santa Carla, no litoral da Califórnia, juntamente com sua mãe. Lá, Michael se apaixona pela cigana Star (Jami Gertz), que anda com um gangue de vampiros, e decide integrar o bando para ficar mais próximo de sua amada. Os dois personagens principais demonstram, em suas roupas, um tanto de suas personalidades: Michael, o jovem que se rebela, compra uma jaqueta de couro,coloca um brinco na orelha e passa a usar um Clubmaster após ser vampirizado para suportar a luz do sol; e Sam, o moleque que continua fiel à sua vida antiga e que usa as mesmas roupas espalhafatosas que usava na cidade grande coloridas, ombreiras, repletas de impressões da moda exagerada dos anos 80.

Também é interessante notar a caracterização dos caçadores mirins de vampiros, os irmãos Edgar e Alan Frog. Com ares de guerrilha e adereços militares, os atores Corey Feldman e Jamison Newlander criaram looks inspirados em Rambo e Che Guevara, sempre prontos para uma batalha contra os sanguessugas. O próprio Joel Schumacher pediu para que dupla visse alguns filmes do Sylvester Stallone e Chuck Norris, pois isso os ajudaria a entrarem nos personagens, o que também acabou influenciando bastante os atores.

Pretty in pink.

Os próprios vilões, no entanto, são tão esteticamente incríveis que mal conseguimos chamá-los disso. O líder do bando, David, interpretado magistralmente por Kiefer Sutherland, tem o visual que seu ‘cargo’ demanda. Intenso, arrogante mas ao mesmo tempo carismático, manteve a capa, um dos adereços dos vampiros góticos da Hammer, mas aqui na forma de um longo sobretudo preto. Além dos mullets loiros, afinal, estamos falando sobre um dos filmes mais relevantes dos anos 80, um outro detalhe chama a atenção em sua caracterização: as luvas de couro, usadas para acobertar o fato do ator ter quebrado sua mão num acidente de moto.

Toda a estética oitentista, bem como o cenário musical da época, está presente nos vampiros, sejam os cabelos longos, inspirados nas bandas de hard rock, os óculos de sol Wayfarer, as jaquetas de couro, patches e adereços utilizados por motociclistas, até as correntes e spikes oriundos do movimento punk. Diferente de tudo o que havíamos visto nos filmes desse segmento ao longo dos anos, esse lado moderno dos dentuços foi um marco para a época, inspirando várias outras obras e atualizando-os na cultura pop em geral. Era uma faceta que estava sendo abordada diretamente para os jovens, pela primeira vez em anos, afinal, ” dormir de dia e festejar à noite, nunca envelhecer e nunca morrer” soava altamente interessante para os adolescentes, que se identificaram na lata com a fita.

Esse conceito do vampirismo estar atrelado à moda é extremamente bacana de ser observada, pois desde então o vampiro deixou de ser aquele ser lúgubre que vivia escondido nos calabouços dos castelos e passou a ser encarado como algo fashionista, talvez por expressar a elegância noturna e mórbida. Quem não se lembra dos trajes vitorianos usados por Brad Pitt e Tom Cruise em Entrevista com o Vampiro? Ou do visual futurista usado em Blade – O Caçador de Vampiros ou Underworld – Anjos da Noite?

No entanto, não acho que seria correto afirmar que os vampiros criaram uma moda em si, até porque muito dessa estética é oriunda de uma soma de vários outros componentes que juntos se encaixam, como por exemplo, a cultura gótica, ou mesmo as tendências ditadas nas passarelas. O que podemos alegar com certeza é que, ele se apropriaram dessa moda, adaptando-a ao seu estilo de vida, e até hoje, são os monstros mais bem vestidos do cinema de terror.

Capa de disco de synthpop oitentista


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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