A Garra Cinzenta: A primeira HQ brasileira de terror

Quem sabe o mal que se esconde por trás da primeira HQ brasileira de terror?


Hoje, 30 de janeiro, Dia do Quadrinho Nacional, o 101 Horror Movies resolveu resgatar uma das mais interessantes HQs brasileiras de todos os tempos: a nossa primeira história em quadrinhos de terror, A Garra Cinzenta.

Pulp Fiction

Durante a década de 30, pouco antes da explosão dos coloridos gibis de super-heróis, inaugurados em 1938 com a primeira aparição do Superman, o terreno do entretenimento de massa americano era dominado pelas novelas pulp. Livrinhos baratos impressos em material de baixa qualidade que traziam enigmáticos heróis sombrios às voltas com crimes mirabolantes, mulheres fatais e muito, mas muito mistério.

No auge de sua popularidade, estima-se que em 1934, circulavam nos EUA por volta de 150 títulos. Inicialmente uma mídia paralela, os quadrinhos começaram a buscar inspiração no universo noir dos pulps para criar novos personagens. Dentre os mais famosos, o detetive Dick Tracy, de Chester Gould, foi um dos primeiros a traduzir para as histórias em quadrinhos, as características que tornaram os romances pulp um fenômeno de massa.

Outros personagens seguiram o caminho direto e foram transportados das páginas dos pulps direto para os quadrinhos como o Tarzan de Edgar Rice Burrows, o Zorro de Johnston McCulley e Buck Rogers de Phillip Francis Nowlan. Estes aventureiros mascarados também inspiraram a criação de grandes nomes dos quadrinhos como Batman de Bob Kane e Bill Finger, Flash Gordon de Alex Raymond, o Fantasma de Lee Falk e Mandrake, outra criação de Falk.

Pulp Freaktion.

Mas um dos grandes personagens criados para os quadrinhos, cujas raízes estão cravadas profundamente na ficção pulp, está o Garra Cinzenta. Personagem relativamente desconhecido da maior parte do grande público, criado por uma dupla de autores tão envolta em mistério como seu próprio personagem e que é considerada por muitos, até hoje, como a primeira história em quadrinhos de terror produzida no Brasil.

A Gazeta

Com o mercado de quadrinhos crescendo em números e popularidade, os jornais americanos passaram a publicar em suas páginas os chamados suplementos: páginas coloridas compostas somente por histórias em quadrinhos que eram encartadas nos jornais aos finais de semana. Os heróis advindos dos pulp como os já citados Dick Tracy, Tarzan, Fantasma e Buck Rogers explodiram nas páginas destes suplementos.

Durante uma viagem aos EUA, o jornalista Rodolfo Aizen se deparou com o grande sucesso dos suplementos por aquelas terras e voltou ao Brasil determinado a explorar o potencial econômico das HQs. Junto de seu colega, João Alberto, Aizen criou o chamado Grande Consórcio de Suplementos Nacionais, com o qual editou e publicou diversos encartes nas edições do jornal A Nação – do qual João Alberto era diretor – e outros periódicos Brasil afora.

Dente os suplementos editados por Aizen e João Alberto, um dos mais populares, sem dúvida alguma era o Suplemento Juvenil, no qual eram publicadas HQs como Tarzan, Flash Gordon, Dick Tracy, Popeye, entre tantos outros. O sucesso foi tanto que em 1937, o jornalista Roberto Marinho criaria o seu próprio suplemento, O Globo Juvenil, que trazia as aventuras de Brucutu, Ferdinando, Brick Bradford e do Fantasma. Logo em seguida, o jornal paulistano A Gazeta, capitaneado pelo jornalista Casper Líbero, também criou seu próprio suplemento de quadrinhos, o lendário A Gazetinha, publicado entre 1929 e 1950.

Cumprimente a primeira HQ de terror brasileira.

Embora não tenha sido o primeiro suplemento, A Gazetinha se tornou lendário por ser o primeiro a publicar as histórias de Superman e Fantasma no Brasil. Com a crescente demanda por novidades e a grande concorrência, cada um buscando a exclusividade sobre suas principais atrações, deu-se início à produção nacional de histórias em quadrinhos para publicação direta nos encartes de jornais.

A Gazetinha já trazia histórias nacionais em sua quinta edição, mas foi a partir do número 234, publicada em 24 de julho de 1937, que o horror chegou às páginas do suplemento na forma da primeira HQ de terror brasileira, escrita por Francisco Armond e ilustrada por Renato Silva: A Garra Cinzenta.

Terror em Série

Com sua história passada em Nova Iorque, A Garra Cinzenta conta a história de um misterioso vilão que usa seu grande intelecto e profundos conhecimentos de ciência para assassinar e realizar experimentos em seus inimigos. O vilão, chamado Garra Cinzenta devido aos cartões de visita que deixa para suas futuras vítimas com o desenho da mão de um cadáver, usa capa, chapéu e sua identidade é desconhecida. Seu rosto é uma cavedrinhos, quadrinhos de terror, ira, mas ninguém sabe se é apenas uma máscara ou se um terrível acidente o deixou desfigurado.

Ao longo de 100 capítulos de uma página cada, publicados entre 1937 e 1939, acompanhamos os inspetores Higgins e Miller na caça ao terrível vilão. O texto de Francisco Armond potencializa o mistério e o suspense, usando a publicação seriada a seu favor, mostrando pouco a pouco, os crimes cada vez mais terríveis do Garra, que só aparece a partir do capítulo 14, oculto nas sombras, dando as caras oficialmente apenas no capítulo 19.

O facínora e seu laboratório.

Recheada de altos contrastes e hachuras, a arte de Renato Silva se mostra muito superior a boa parte de seus contemporâneos, criando a ambientação ideal para uma história de mistério e terror. Seus quadros são detalhados e dinâmicos, e suas figuras humanas muito menos estáticas que boa parte dos quadrinhos do gênero publicados na época. Não à toa, Silva publicou diversos cursos de desenho e ilustração ao longo de sua carreira.

Embora alguns relutem em catalogar A Garra Cinzenta como uma história de terror, diversos elementos que justificam esta classificação vão surgindo aos poucos ao longo dos seus 100 capítulos. Vale lembrar que estamos falando de uma história escrita no final da década de trinta, no auge do cinema de horror da Universal, cujo maior representante talvez seja Frankenstein, de James Whale, lançado em 1931.

Assim como Victor Frankenstein, o Garra Cinzenta também é um homem da ciência, cujas experiências questionáveis vão desde o simples assassinato, ao transplante de cérebros e necromancia. Além de ressuscitar sua amada com um composto alquímico criado por Nostradamus, o vilão ainda transfere a mente de um desafeto para o corpo de um macaco. Tudo acompanhado de perto pelo seu mortal e monstruoso capanga robô, Flag. Elementos mais do que comuns ao subgênero terrorífico de cientistas loucos.

Mistério nos Bastidores

Um dos fatores atribuídos ao sucesso cult de A Garra Cinzenta é o mistério que cerca a identidade do autor da série. As histórias eram assinadas por alguém chamado Francisco Armond, mas o fato é que esta pessoa, na verdade, nunca existiu. Especula-se que o pseudônimo foi adotado por Helena Ferraz de Abreu, jornalista que teria optado por ficar apenas nos bastidores devido ao machismo vigente da época em que a HQ foi publicada originalmente.

Segundo o jornalista e pesquisador de quadrinhos, Worney Almeida de Souza, que assina a introdução da edição do Garra Cinzenta publicada pela Conrad em 2011, a origem destes boatos remontam a um artigo escrito pelo quadrinista Gedeone Malagola para a revista Mundo dos Super-Heróis em 2008. Segundo Malagola, Álvaro Armando, autor que assinava os roteiros de A Garra Cinzenta e Nick Carter, era o pseudônimo criado pela jornalista Helena Ferraz a partir dos nomes de seus dois filhos.

 

Quem é Francisco Armond?

Malagola atribui ao pesquisador de HQs, Sérgio Augusto, a suposta solução desse mistério, mas ainda assim, algumas pontas permanecem soltas. A mais evidente é que o autor de Garra Cinzenta assinava como Francisco Armond, e não Álvaro Armando. Além disso, o próprio Sérgio Augusto diz nunca ter feito qualquer conexão entre Helena Ferraz de Abreu e A Garra Cinzenta. Segundo ele, a única relação da jornalista com os quadrinhos foi ter traduzido as primeiras aventuras do Fantasma publicadas no Brasil. Os próprios filhos da jornalista puderam garantir que ela nunca esteve envolvida com a série.

Nem mesmo o grande estudioso de quadrinhos, Álvaro de Moya conseguiu desvendar este mistério. Segundo ele, é possível que Francisco Armond tenha sido apenas um pseudônimo de algum repórter d’A Gazeta. Sendo assim, só restaria perguntar ao desenhista da série, Renato Silva, mas, infelizmente, o artista faleceu em 1981, levando consigo a solução para este mistério.

O terror ronda os gibis

A Garra Cinzenta se tornou bastante popular na época de sua publicação, sendo lançada também na Europa onde saiu na revista Le Moustique na Bélgica e França sob o título de La Griffe Grise entre 1944 e 1947. A série também chegou a ser publicada no México, fazendo com que os leitores europeus acreditassem que este fosse o país de origem da série.

Elenco de peso

Em 1977 a Rio Gráfica Editora publicou parte da série em seu Almanaque do Gibi, mas foi só em 1988 que o jornalista, editor e fanzineiro, Worney Almeida de Souza, publicou todos os 100 capítulos da série na terceira edição do seu fanzine, o Seleções do Quadrix. Em 2004, a série foi homenageada pelo HQMix em sua décima sexta edição, quando o Garra Cinzenta foi transformado em troféu pelo artista plástico Olintho Tahara.

Uma foto deste mesmo troféu foi utilizada para ilustrar a capa de uma edição de luxo publicada pela Conrad em 2011. Esta edição utilizou como fonte o material resgatado por Worney, trazendo todas as páginas restauradas da série, além de uma longa introdução que contextualiza o cenário em que A Garra Cinzenta foi publicado originalmente.

O mistério continua

Apesar de muito ter se falado de A Garra Cinzenta nos últimos anos, ninguém nunca conseguiu desvendar o mistério por trás de sua verdadeira autoria, mantida em segredo por mais de oitenta anos. Muitos alegam que inspirou, entre outros, o Caveira Flamejante, da Marvel, os italianos Kriminal e Satanik e tantos outros.

No Dia do Quadrinho Nacional, deixamos essa homenagem à nossa primeira história em quadrinhos de terror. Seja lá quem foi o responsável por seus roteiros, o misterioso autor conseguiu criar uma das mais cultuadas, interessantes e importantes gibis brasileiros de todos os tempos!

A volta do Garra Cinzenta.


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

3 Comentários

  1. Quiof disse:

    Um dado que muitos desconhecem, ainda em 1939, o Francisco Armound roteirizou O Engima do Espectro de James Hull, também pela Gazetinha, mas com desenhos do Messias de Mello.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: