Bibliofobia: #07 – A Noite dos Mortos-Vivos e A Volta dos Mortos-Vivos

Novelização do seminal filme de George A Romero e roteiro inédito da continuação que nunca saiu marcam presença na dobradinha de John Russo


Eu tenho para mim a opinião que o mais importante filme de terror de todos os tempos, responsável por dar origem ao horror moderno, é A Noite dos Mortos-Vivos de George A. Romero. Influenciou toda uma geração de cineastas, tanto americanos quanto europeus, criou o conceito dos zumbis comedores de carne humana, as regras para abatê-los e os tornou parte da cultura pop, mudou radicalmente a linguagem dos filmes de terror (tomado pela estética gótica durante a década de 60) e deu um empurrãozinho na violência gráfica levada às telas.

Coescrito por John Russo e Romero, a ideia dos dois jovens era criar um filme de terror completamente diferente do que eles viam na adolescência deles nos anos 50, que eram sempre parecidos e geralmente traziam insetos gigantes como ameaças em um roteiro que seguia sempre a mesma fórmula prosaica. Isso são as próprias palavras de Russo, retiradas do prefácio de A Noite dos Mortos-Vivos e A Volta dos Mortos-Vivos, novelização do roteiro de sua própria autoria, lançado há um tempinho em edição simples e limitada de capa dura, pela DarkSide Books.

Quem já assistiu ao filme conhece toda a força política e social por trás daquela metáfora travestida de cadáveres canibais ambulantes. Russo coloca nas páginas esse mesmo contexto crítico subentendido, tratando o zumbi como um fenômeno de alienação social, ousando em trazer um protagonista negro, Ben, em um período inflamado de tensão racial logo após a morte do ativista Martin Luther King, e a luta de sobrevivência orquestrada por pessoas díspares encurraladas durante toda a noite em uma fazendo isolado no interior de Pittsburgh, cidade natal da dupla de idealizadores.

Um subtexto que é utilizado hoje até exaustão, em séries como The Walking Dead e todos os grandes (e pequenos) filmes do gênero, é o como a verdadeira face do ser humano se mostra em situações limites como essa, e que nós, somos sempre MUITO piores que nossas contrapartes zumbificadas. Toda a verdadeira tensão que envolve A Noite dos Mortos-Vivos é calcada exatamente nesse expediente, explorado de forma muito mais pungente e próxima nas páginas do livro, trazendo nuances que ficaram de fora do longa, até pela diferença de mídia e tamanho da metragem de um filme, torando a experiência mais completa.

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A Noite dos Mortos-Vivos é uma leitura bem fácil de ser digerida, com um ritmo bem cinematográfico, e impossível desassociar mentalmente as figuras dos atores que interpretaram os personagens principais, assim como o desenrolar dos eventos captados pelas lentes de Romero.

Até por conta disso, o bônus que a editora carioca publicou junto a novelização que é a verdadeira cereja do bolo dessa edição: A Volta dos Mortos-Vivos. O próprio encarte do livro diz para não confundirmos como o clássico trash dos anos 80, aquele do Tarman falando MIOOOOOLOS, um dos melhores e mais divertidos filmes de zumbi já feitos, que por sinal, tem também o roteiro de Russo.

A história por trás do imbróglio é que com o sucesso de A Noite dos Mortos-Vivos, e a perda de grana federal por um erro crasso e burocrático que tornou o longa de domínio público e Romero e Russo nunca terem conseguido colocar direito as mãos nas verdinhas da distribuição e exibição mundo a fora, o roteiro de uma sequência foi planejada pelo escritor, mas que nunca conseguiu sair de sua tumba. Romero desistiu da trama e se concentrou anos mais tarde em trazer à vida (tá, eu paro com essas metáforas) sua obra-prima, Despertar dos Mortos, com roteiro próprio, descartando completamente o texto de Russo.

Como essa continuação direta nunca aconteceu e rolou desavenças entre ele e Romero por conta disso, Russo resolveu criar seu próprio filme de zumbis e ofereceu ao produtor Tom Fox, que topou produzi-lo, repassando para Dan O’Bannon dirigi-lo, o cara que escrevera Dark Star de John Carpenter e Alien – O Oitavo Passageiro de Ridley Scott, que por fim, acabou reescrevendo-o, no intuito de transformá-lo em sua homenagem a Romero. Russo deve ter ficado feliz pacas.

Pois bem, esse roteiro inédito também fora novelizado e confesso ser muito mais interessante a leitura, por se tratar de uma trama inédita, que de A Noite dos Mortos-Vivos. Ele se passa muitos anos depois dos acontecidos da história anterior, quando o surto zumbi fora controlado e parecia ter se extinguido para sempre da face da Terra, até que um acidente envolvendo um ônibus serviu como gatilho para uma nova infecção zumbi e o começo de uma nova hecatombe nos EUA rural, trazendo de forma bem sombria a batalha pela sobrevivência, criando empatia por personagens principais – que muito antes de George R. R. Martin tornar moda – são mortos pelo escritor em reviravoltas de roteiro, e mais uma vez, joga luz ao pior do comportamento humano em detrimentos dos que deveria ser a principal ameaça.

Tanto A Noite quanto A Volta, ambos de leitura nada rebuscada e bem fluída, mantém alta dose de suspense e adrenalina constante, prendendo a atenção do leitor, e acerta por nunca partir para explicações do porque daqueles seres autômatos sem vida levantaram de seu sono eterno para devorar os vivos e procurar respostas ou um catalizador. O que importa aqui são as relações humanas, as veladas críticas sociais e políticas, o niilismo e a velocidade com que sucumbiríamos a uma ameaça desta natureza e à nossa própria natureza.

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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