A queda em The Strain

Segunda temporada da série dos vampiros virais de Guillermo Del Toro deixou muito a desejar em todos os sentidos e não chegou nem próximo do que poderia entregar. 🙁


A segunda temporada da série The Strain, baseada na trilogia de livros sobre vampiros virais escrita por Guillermo Del Toro e Chuck Hogan, terminou no último domingo, inclusive aqui no Brasil onde teve transmissão simultânea com a gringa, e a grande sensação ao assistir o season finale foi de 12 episódios meia-boca, e um último sensacional, deixando o conjunto da obra muito a desejar e não chegando nem perto do que poderia entregar.

“Night Train”, o último episódio foi tudo aquilo que a série poderia ter sido desde o começo, lá quando Del Toro dirigiu o sensacional prelúdio do S02E01, ao nos mostrar como o gigante romeno Jusef Sardu se transformou no hospedeiro do Mestre, uma história folclórica de terror contada para assustar as crianças incautas, inclusive pela babushka de um infante Abraham Setrakian (David Bradley).

O que poderia ter sido uma temporada memorável, resultou em algo medíocre, sem frisson, sem empolgar, com uma ou outra sequência grandiosa e sublime. Talvez o grande erro tenha sido entupir a série de um monte de personagens sem qualquer verdadeira profundidade e as relações interpessoais fraquíssimas com romances aos borbotões que quase descambaram para a cafonalha e o piegas.

Eu falo mais precisamente do erro no tom ao “tentar falar de amor”, um tema que deveria ser de extrema importância, uma vez que uma das regras malditas dos Strigoi é que eles sempre voltam para seus “loved ones”. Em troca disso, tivemos grande parte do tempo gasto em um esdrúxulo relacionamento de um recém-curado e todo pimpão Eldritch Palmer com a novinha secretária, Coco Marchand. Do ucraniano durão Vasily Fet com a hacker Dutch Velders e por sua vez sua relação mimizenta com a namorada Nikki. Até Gus Elizalde se engraça com a filha sem graça do dono de um restaurante tailandês.

Casal 20

Gosto das 9nha!

Em contrapartida não houve nenhum esmero nas cenas de terror ou de ação, sempre repetitivas, com as investidas dos vampiros seguindo incansavelmente o mesmo modus operandi e todos os ataques ao grupo parecendo um grande CTRL C + CTRL V (ou ⌘ C + ⌘ V se você usa o Mac) das mesmas sequências.

Aliás, a expectativa principal era que, tal qual nos livros, a situação da epidemia vampírica estivesse bem fora de controle, como uma verdadeira situação de calamidade pública e uma crônica de tragédia anunciada. Mas não foi beeeeem o que se viu. Na verdade, nem parecia taaaaaaanto assim que a humanidade estava indo para o buraco, e que os Strigoi representavam um perigo até de fácil controle: era só você chegar com sua espada, um vergalhão de prata e uma lanterna UV que eles eram abatidos como moscas, tamanha sua inépcia.

Nosso herói falho, Eph Goodweather deveria ter crescido quanto personagem, mas a interpretação de Corey Stoll estava sempre no automático (pelo menos ele conseguiu se livrar daquela peruquinha ridícula). Sua relação com o álcool, seu “demônio da garrafa” (Tony Stark feelings) pessoal, não foi explorada da forma que deveria. Assim como o relacionamento com seu sacal filho Zach, muito por conta da troca de ator mirim, de Ben Hyland para o absolutamente péssimo Max Charles, tornou-se frio, não gerava a menor empatia pai-filho para o espectador e juro que torcia para a Kelly, sua mãe transformada, pegar esse moleque mala logo de vez em vários momentos.

O affair de Eph com Nora Martinez (Mia Maestro), foi cada vez mais se deteriorando, algo que quem já leu os livros esperava num futuro próximo, com a moça cansada das mentiras e das atitudes do parceiro, sua obsessão e seus meios escusos e egoístas que vinha encontrando em tentar resolver seus problemas (somado ao vício pela birita). Porém, o esperado florescer de um novo amor com outro personagem, como nas páginas, não vai acontecer, por conta do, hã, CHOCANTE destino de Nora no último capítulo, que surpreendeu tanto quanto revoltou na mesma medida.

Adeus peruca! Oi aeroporto de mosquito!

Adeus peruca! Oi aeroporto de mosquito!

Já Setrakian acabou se tornando um personagem caricato de si mesmo, assim como o próprio Fet (Kevin Durand), o que mostrou-se uma gritante involução de personagens. A incessante busca do velho caçador de vampiros pelo Occido Lumem, uma espécie de grimório de capa de prata que conta a origem dos Strigoi, incluindo aí o Mestre e os demais Anciões, e a possível forma de destruí-los, foi arrastada até seu limite, numa série de acontecimentos e coincidências bem tacanhas do roteiro, que envolveu até uma conspiração da própria Igreja Católica que foi reduzida a um pastiche, quase tão inócua quanto a trama política, centrada numa disputa birrenta de poder de um tosco prefeito de Nova York com uma determinada vereadora, Justine Faraldo, outra cara nova com relação ao livro (mas essa pelo menos uma adição forte e interessante).

Falando nisso, o ponto crucial para os leitores da “Trilogia da Escuridão”, foi como a série se descolou do livro em relação “A Queda”. o segundo exemplar. Enquanto a primeira temporada se manteve fiel, com algumas mudanças pontuais e liberdade de roteiro interessante, praticamente 80% do material dessa temporada era novo. Isso é ruim? De forma alguma. Seria como se víssemos o desenrolar de outra história e os leitores tivessem a oportunidade de acompanhar uma nova linha narrativa. O problema é que não ornou, como diriam os mais velhos.

Ninguém aqui quer ser xiita e discursar sobre adaptações ipsis literis de livros. O problema em si não foram as mudanças, mas sim o quanto elas se mostraram desinteressantes com relação ao plot original e deu a sensação de enchimento de linguiça mais do que qualquer outra coisa. E o caminho, literalmente fica obscuro, uma vez que o grande calcanhar de Aquiles da “Trilogia da Escuridão” é exatamente o terceiro livro, “Noite Eterna”, e toda a repercussão que surgiu por conta do pessimista fechamento de “A Queda”, que foi ignorado, ou pelo menos, adiado pelos realizadores, como deu a entender na construção dos complexos que servirão como abatedouro de humanos, supervisionada de perto pelo crudelíssimo vampiro nazista e capanga do Mestre, Thomas Eichrost.

Aliás, apesar de tudo de ruim, houve Thomas Eichrost! Com o perdão da palavra, PUTA QUE PARIU que o cara simplesmente resolveu colocar a série toda embaixo do braço, no meio de um bando de atores medíocres ou se fazendo de. Richard Sammel simplesmente matou a pau com seu personagem, com aquela sua maldade, arrogância e sarcasmo que transbordavam pelos poros, e dois momentos precisam ser destacados: quando ele sequestrou Dutch, prendeu-a na masmorra e abusou nos requintes de crueldade e perversão, e a fantástica sequência em flashback de seu passado como vendedor fracassado de rádios na Alemanha pré-ascensão do Terceiro Reich, antes de sua entrada na SS.

Temperando a vítima!

Temperando a vítima!

Alguns breves momentos de respiro de genialidade fizeram com que a segunda temporada de The Strain só desse ainda mais uma sensação de frustração pelo seu potencial desperdiçado. Entre elas, a pérfida falange de crianças cegas farejadoras controladas por Kelly na busca por Zach, o segmento P&B de introdução do personagem Angel de La Plata, aflorando toda a cultura mexicana de Del Toro, inspirada numa sequência de filmes de um personagem lutador de lucha-libre chamado Santo, que enfrentava vampiros, lobisomens e bruxas; e a chegada de Quinlan, o Nascido, um dos personagens mais fodões do livro e da série, um híbrido entre humano e Strigoi nascido durante o Império Romano, que possui uma ligação de sangue com o Mestre.

Com o término da sua segunda temporada, fica um incógnita do que realmente se esperar em The Strain no futuro. Muitos dos elementos do terceiro livro já não serão utilizado pelo atual curso das situações e as decisões tomadas durante esse novo caminho de distanciamento. Isso não é um demérito, mas espero que as novidades e seu ineditismo sejam muito mais excitantes e concisas do que se mostrou até aqui, e nos entregue muito, mas muito mais. Que o roteiro, personagens, atores e situações saiam um pouco do limite do mediano em que se meteram e de uma fórmula prosaica e tediosa que impregnou durante boa parte dos 13 episódios, uma vez que há capacidade para se fazer melhor e muita gente boa envolvida para isso.

E principalmente, que tenha sido uma espécie de temporada ½, um daqueles ínterim sem graça, apenas uma queda (viu o que eu fiz aqui?), e que a terceira se aproxime muito mais do que foi a primeira, ao invés desta segunda. Para não correr o risco de jogar os fãs em uma noite eterna.

Por favor, Mestre, melhore essa terceira temporada!

Por favor, Mestre, melhore essa terceira temporada!


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. alucardcorner disse:

    Começei a ver o primeiro episódio cheio de vontade, porque achei a primeira série excelente, mas ao 3º episódio arrumei para o lado para um futuro próximo, mas com esta resenha.. nem sei quando lá volto.

  2. Crítica perfeita. Eu nem tinha me logado que tinham trocado o ator mirim, mas concordo: esse novo é péssimo.

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