A realidade obscura por trás de O Bebê de Rosemary

Todo filme de terror que se preze carrega suas histórias e maldições…


Uma das películas mais impressionantes e aclamadas do cinema de horror e, quiçá, da sétima arte, recentemente completou cinquenta anos. O Bebê de Rosemary, obra-prima do diretor polonês Roman Polanski, conta a história de uma jovem mulher que é manipulada por uma sociedade ocultista (assim como por seu marido), a fim de conceber o filho do Mochila de Criança e iniciar o reinado de Satã na Terra.

Apesar de não conter sangue ou violência gráfica, o filme chocou a sociedade judaico-cristã da década de 60 por abordar um tema tão delicado quanto o satanismo. Porém, convenhamos, tantos outros filmes com o mesmo tema foram lançados na mesma época, mas sem causar o mesmo impacto.

Então, o que torna O Bebê de Rosemary um filme assustador?

Adaptação do best seller homônimo de Ira Levin, acompanhamos a ingênua Rosemary Woodhouse (Mia Farrow) e seu marido, o ator Guy (John Cassavetes) na busca de um novo lar. Tão logo encontram e se mudam para o novo apartamento, conhecem os Castevets, um casal de vizinhos simpáticos, mas um tanto intrometidos. Logo vamos descobrir que os Castevets fazem parte de uma seita satânica interessada em trazer ao mundo o filho do Diabo, e que Guy enxerga nisso uma oportunidade de obter sucesso em seu trabalho. Todo o resto da trama eu suponho que você, fã do horror, já deve estar careca de saber.

Ainda nos dias de hoje, ele é considerado um dos filmes mais arrepiantes de todos os tempos e, como todo filme que se preze, também carrega algumas histórias tão assustadoras quanto a ficção. A começar pela presença de Anton LaVey, fundador da Igreja de Satã que, a pedido de Polanski, trabalhou como consultor nas gravações do filme, ajudando a criar um maior realismo nas cenas dos ritos. Isso sem contar nas inúmeras ameaças de morte que o produtor William Castle recebeu, por conta do caráter anticristão do mesmo. Até John Lennon, anos mais tarde, foi morto em frente ao Edifício Dakota, onde foram realizadas as gravações do longa.

Muitas lendas e suposições envolvem a produção desse filme mas, de fato, nenhuma delas é tão assustadora quanto a realidade.

Pouco mais de um ano após o lançamento, a esposa do diretor, Sharon Tate, que estava grávida, foi brutalmente assassinada. Muitos fãs mais supersticiosos creditam esse crime bárbaro a uma suposta maldição que o filme carrega, no entanto, essa história é um pouco mais complexa. Para falar sobre esse crime, que ficou conhecido como Caso Tate-LaBianca, precisamos conhecer a principal mente por trás da barbárie: Charles Manson.

Charles Manson, na época de seu julgamento.

Nascido em Cincinnati, nos Estados Unidos, no dia 12 de novembro de 1934, filho de uma jovem que engravidou aos quinze anos de um homem mais velho, Charles Manson sempre teve uma infância difícil. Criado por sua avó, era constantemente espancado e abusado por um tio, e mesmo na tenra idade já apresentava traços de sua psicopatia. Passou a adolescência entre idas e vindas de reformatórios, sempre ocasionados por pequenos delitos, como furtos e roubos.

Aos vinte, casou-se com uma moça chamada Rosalie Willis e teve um filho, mas o fato de agora ser um pai de família não abrandou os instintos de Manson; como era de sua natureza, logo foi preso novamente, dessa vez por um crime de maior gravidade: estupro. Nessa temporada na cadeia, Charles começou a dedicar seu tempo livre para estudar budismo e cientologia e, aos 32 anos, foi libertado da prisão.

Com um QI acima da média e obcecado por artes, em especial por música, se juntou a um grupo de hippies em uma propriedade chamada Spahn Ranch, nos arredores de Los Angeles. Enchendo a cara de LSD e muitas outras drogas, acabou se tornando um tipo de guru espiritual, propagando um estilo de vida baseada em ideias como satanismo e xamanismo. Fundou, com um bando de viciados em drogas e mulheres mentalmente vulneráveis, uma seita batizada de A Família Manson, onde era endeusado graças a sua capacidade absurda de manipulação. Para se ter uma ideia, seus seguidores realmente acreditavam que Charles Manson era uma reencarnação de Jesus Cristo. E foi, em partes, graças a essa lábia astuta que Manson entrou pra história ao executar o hediondo crime.

Todo esse caos começou graças a já citada paixão dele pela música. A fim de ingressar na carreira musical, devido sua amizade com Dennis Wilson (baterista da banda Beach Boys), Manson tentou com afinco emplacar suas canções, tendo uma delas inclusive regravada pela banda do amigo. Reconhecendo o real dom de Manson como músico, o produtor Terry Melcher, que trabalhava na época com bandas como The Byrds, chegou a cogitar a possibilidade de gravar um disco, porém, mais uma vez, o comportamento errático e doentio do cara afastou as boas oportunidades de sua vida.

Entretanto, o sentimento de rejeição começou a fomentar ideias cada vez mais perigosas. E a música teve um papel fundamental nessa treta: Manson passou a ficar obcecado com White Album, aquele disco dos Beatles. Acreditava que esse álbum na verdade era uma mensagem codificada que ele havia traduzido, e que profetizava o fim dos tempos. Segundo ele, uma guerra apocalíptica batizada de Helter Skelter (nome de uma das músicas do disco) seria travada entre brancos e negros, onde os negros levariam a melhor porém não conseguiriam se organizar, voltando-se a ele como um messias salvador, que levaria seus seguidores até o Vale da Morte (o deserto californiano) e de lá dominariam o mundo.

Com o intuito de apressar essa guerra racial, Manson ordenou que seus seguidores cometessem uma série de assassinatos contra alvos brancos e ricos, numa tentativa de jogar a polícia contra o grupo revolucionário Panteras Negras. Ainda ressentido de seu fracasso na carreira musical, a primeira pessoa escolhida como vítima foi Terry Melcher. Manson deu o endereço do produtor aos seus seguidores, porém ele não sabia que Melcher havia se mudado e vendido a casa para o diretor Roman Polanski e sua esposa, Sharon Tate.

O diretor Roman Polanski, em seu casamento com a atriz Sharon Tate.

Em 08 de agosto de 1969, quatro integrantes da Família Manson (Tex Watson, Susan Atkins, Linda Kasabian e Patricia Krenwinkel) adentraram a antiga casa de Melcher em Cielo Drive. Lá dentro estava Sharon, grávida de oito meses de seu primeiro filho, que estava hospedando três amigos naquela fatídica noite: a herdeira milionária Abigail Folger, seu namorado, o polonês Wojciech Frykowski, e o cabeleireiro Jay Sebring. Os quatro foram brutalmente assassinados.

No dia seguinte, Manson e seus asseclas mais uma vez decidiram continuar a onda de assassinatos e, dessa vez, o lugar escolhido foi um subúrbio de classe média de Los Angeles, onde Manson estivera certa vez, em uma festa. Na residência, o casal Leno LaBianca e Rosemary LaBianca (que nome familiar, não?) também foram assassinados com requintes de crueldade. Em ambas os locais do crime, os assassinos deixaram nas paredes palavras como “Morte aos porcos” e “Ascensão”, escritas em sangue.

Roman Polanski estava viajando, promovendo seu mais novo filme, O Bebê de Rosemary, porém o  massacre provocou uma onda de pânico em Los Angeles, que repercutiu em todo o país. A ideia de Manson, no entanto, era continuar a barbárie. A Família tinha uma lista de próximas vítimas, que incluía os cantores Frank Sinatra (ex-marido de Mia Farrow, veja mais uma coincidência) e Tom Jones, assim como Elizabeth Taylor e Richard Burton. Felizmente, não foram muito longe. Presos por roubo logo após os crimes supracitados, Susan Atkins, uma das seguidoras de Manson, contou os crimes para suas colegas de cela, numa tentativa de se gabar do feito, e fez com que o caso Tate-LaBianca fosse, por fim, solucionado.

Mesmo na cadeia, Charles Manson não parou com suas maluquices. Tentando se safar, dispensou advogados e tentou fazer sua própria defesa no tribunal, alegando insanidade. Dizendo nunca ter matado ninguém – o que de fato é verdade – também disse que tudo não passou de ideia de seus próprios seguidores. Não colou!

Em 25 de janeiro de 1971, Manson foi condenado por assassinato em primeiro grau, pela sua ligação direta com as mortes, sendo sentenciado à pena de morte que, posteriormente, foi comutada à prisão perpétua. Cumpriu sua pena até 19 de novembro de 2017, quando morreu, de causas naturais. Seus seguidores também cumpriram a mesma pena, menos Kasabian, que recebeu imunidade por cooperar nas investigações.

Este evento horrível trouxe um fim brutal para aquela geração “paz e amor” dos anos 60, sendo considerado por historiadores um momento crucial dentro da história americana. Muitos creditam os acontecimentos reais à temática satânica de O Bebê de Rosemary: teria Roman Polanski, assim como Guy Woodhouse, sacrificado sua família ao Pata Rachada, em troca de fama e sucesso? Acho que pensar nessa hipótese é forçar um pouco a barra mas, de todo modo, o filme é um retrato fiel do lado obscuro de Hollywood, que envolve não só o caminho da mão esquerda em si, mas também assassinatos, crimes sexuais (já que o próprio Polanski foi preso e acusado de estupro e ato obsceno com menores de idade), loucuras e ambição.

Apesar da bela obra que nos é apresentada nas telas do cinema, é sempre interessante observar, por outro viés, o que há por detrás das cortinas e ver tudo o que acontece lá na coxia. Há sempre muito mais coisas ocultas do que pensamos.

A atriz Mia Farrow, Roman Polanski e Sharon Tate, em Cannes, França, no lançamento de O Bebê de Rosemary.


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

2 Comentários

  1. Henrique disse:

    Ótimo texto! Acho muito interessantes essas histórias sinistras que envolvem os bastidores dos clássicos Bebê de Rosemary, O Exorcista e a Profecia.

    • Niia Silveira disse:

      Obrigada, Henrique! Fico feliz que tenha gostado.
      A ideia é trazer esse tipo de artigo, com essas informações macabras, mais vezes aqui para o 101HM…
      Abraços!

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