A melhor série sobre Van Helsing sem Van Helsing que você respeita

Não se deixe enganar, o novo seriado do SyFy é melhor do que parece


Van Helsing é uma dos novos produtos do canal de TV à cabo Syfy, aquele famoso por podreiras de horror e ficção científica da pior estirpe. A série foi lançada no Brasil via Netflix em dezembro de 2016 e passou completamente despercebida por tudo e todos. A produção canadense-americana comandada por Neil LaBute é remotamente baseada na história em quadrinhos Helsing, da Zenescope Entertainment e apresenta uma terra pós-apocalíptico governada por vampiros.

Confesso que é um complicado falar em “inspirado” ou “baseado em” nessa situação em específico. Abraham Van Helsing, o caçador de vampiros, nasceu no livro Drácula de Bram Stoker e já foi encarnado, entre outros, por Peter Cushing, Anthony Hopkins e Hugh Jackman, sendo este último o mais atual e provavelmente o mais lembrado. No decorrer dessa primeira temporada, pelo menos até antes do capítulo final, é quase impossível entender o motivo pelo qual leva esse nome: temos os sugadores de sangue e uma mulher chamada VANessa (hein, hein?), interpretada por Kelly Overton, que é uma espécie de vampira ao inverso – ela morde vampiros e os transforma em humanos. Por essa razão, resolvi conferir a tal HQ, esperando encontrar algum grau de similaridade

Os quadrinhos são parte de uma linha da Zenescope chamada Grimm Fairy Tales, uma extensa coleção de contos de fadas transformados em uma versão hipersexualizada e violenta de si mesmos. A capa já entrega uma Helsing com um figurino grotescamente ridículo e um desserviço ao feminismo: micro-shorts, meia arrastão, um corset realçando os seios e deixando a barriga de fora e, para completar o look, um sobretudo e uma cartola. Essa versão feminina da personagem é a filha do notório caçador que, após décadas aprisionada em outra dimensão, aparece nos dias de hoje para retomar a caçada iniciada por seu pai, enquanto tenta se adequar as mensagens instantâneas e selfies, e mantém um romance com Hades, o deus grego do submundo (?).

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Depois reclama…

Sinceramente, ao terminar a leitura dessa primeira edição, desisti de tentar compreender as coisas da vida. Nada faz sentido. A HQ e a série não tem nada a ver com o original, mas são ainda mais diferentes entre si. É como se Blade, Crepúsculo ou Academia dos Vampiros se chamassem Van Helsing… because of reasons, como dizem na internet.

Voltando para a produção do Syfy, admito que o seriado está longe de ser tão ruim quanto parece. Neste microcosmo fictício, os sanguessugas sempre existiram nas sombras, à mercê do sol, seu inimigo mortal. No entanto, a erupção de um super vulcão lança uma nuvem de cinzas sobre o planeta, permitindo que os draculinos saiam de suas tocas para caçar livremente. Essa insurreição vampírica rapidamente toma conta e a humanidade se vê à beira da extinção. Melhor dizendo, é provável que só a América do Norte tenha sofrido com as consequências desse vulcão que é bem real, diga-se de passagem. Existe um super vulcão em Yellowstone (EUA) que, caso entrasse em erupção, lançaria o país inteiro em um inverno nuclear, similar ao que acontece na ficção. Premissa bastante interessante, não?

Se existe uma influência clara e direta aqui, esta só pode ser The Walking Dead. Não apenas o plot é similar, mas as escolhas estéticas, as intrigas e o tom também são muito parecidos. Entre os sobreviventes desse caos apocalíptico, trancafiado em um hospital, está o soldado Axel, que fora incumbido de proteger VANessa, uma mulher que, apesar de morta, continua viva (Schrödinger mandou lembranças). O detalhe original definido para defender o cadáver em coma, contava com vários outros militares e uma médica, equipe que fortificou o hospital, transformando-o em uma fortaleza impenetrável e auto-suficiente por alguns bons anos. Durante uma missão fora da base, os soldados se dispersaram e desapareceram, já a doutora tornou-se vampira e ficou presa, sob os cuidados de Axel, que tinha na morta-viva bestial e uma mulher em coma suas únicas companhias.

Após meses nessa situação, um dos soldados retorna com outros sobreviventes, dando início à sua parte thewalkindeadística®. Acompanhando a chegada dessa turminha do barulho, um trio de vampiros consegue ter acesso ao corpo de VANessa, só que a moça acorda do coma de três anos com sangue nos olhos e chutando bundas. Então basicamente temos uma personagem que entrou em coma logo no início do apocalipse, que acordou um tempo depois e que imediatamente quis partir para procurar sua filha. Rick Grimes está de olho…

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Da esquerda para a direita: Andrea, Lori, Dale, Daryl, Shane, Michonne e Rick. Opa, série errada.

Ah, não posso esquecer, a moça tem super-poderes! Ela é capaz de transformar vampiros em humanos se for mordida por eles ou se mordê-los, além de ser imune a doenças, virtualmente imortal e lutadora MMA (esse não necessariamente é um poder, a não ser que você viva no universo de Arrow e queira ser um super herói). A ameaçadora existência dessa mulher rapidamente chama a atenção dos anciões que dominam a região e a sobrevivência do grupo se torna incerta. Daí em diante eles precisam lidar com o inimigo de sempre, com pessoas que foram humanificadas via mordida, grupos de humanos, além de assassinatos, traições e outras confusões pra quem curte jogar detetive. 

Assim como esperado de um produto do Syfy Channel, o elenco é composto por varios desconhecidos, acompanhados de uma ou outra figura significativa, ou seja, alguém que já apareceu em uma produção maior. Independente dessa ausência de astros, por mais incrível que possa parecer, o desenvolvimento da história permite a eles interpretar personagens memoráveis, com um arco dramático próprio, fugindo de personalidades maniqueístas. O soldado Axel (Jonathan Scarfe), por exemplo, é um que não cansa de surpreender e que rouba a cena para si mesmo, ofuscando o brilho de VANessa.

Os vilões fogem a essa regra, porque esses são realmente mauzões. Muito mauzões mesmo, do tipo que usam roupa de couro num mundo pós-apocalíptico, Mad Max style. Os vampiros são separados em três categorias principais, que vão dos anciões, que já existiam há séculos, os vampiros mais novos, transformados no pós-erupção e os ferais, a escória da escória, completamente ignorantes e selvagens, ao ponto de serem praticamente zumbis. Um outro tipo ainda é brevemente exposto: sem pêlos no corpo e completamente bestiais, vivem no esgoto e não fazem distinção entre espécies, atacando a todos igualmente. A maquiagem e os efeitos especiais em geral são decentes, salvo aquele ocasional sangue digital.

O valor de produção não é lá muito notável, especialmente se comparado com TWD, mas em termos de personagens e roteiro em geral, Van Helsing é surpreendente e até melhor que algumas temporadas do seriado de zumbis de Robert Kirkman (está lançada a polêmica). Mesmo que o primeiro episódio pareça um pouco lento, a sequência tem um ritmo intenso, com acontecimentos importantes em todos os episódios. Enquanto divertimento, não decepciona e certamente merece mais entusiasmo do que vem recebendo.

O season finale guarda duas revelações, uma delas sobre o passado de VANessa, que não tem qualquer peso naquele contexto e a outra sobre a extensão dos poderes da recém-batizada caçadora, essa sim com uma relevância grande para os acontecimentos vindouros. Esse primeiro arco de treze episódios chega ao fim com um cliffhanger daqueles de dar pulga atrás da orelha, cujo destino nos será revelado na segunda temporada, que já foi confirmada.

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Se me atacar, eu vou atacar!

 


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

1 Comentário

  1. Hierofante1970 disse:

    Ótimo texto muito bem explicado sem dar spoiler e por isso darei uma chance ao seriado, pois como você mesmo escreveu O SyFy não é um canal com séries de qualidades. Abs.

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