Bibliofobia: #14 – Achados e Perdidos

O novo suspense policial de Stephen King nos entrega uma história daquelas de prender a atenção até a última página


Cá estou em um tanto atrasada com a leitura de Achados e Perdidos, afinal, o próximo livro da trilogia Bill Hodges, O Último Turno, chega nas livrarias brasileiras já no mês que vem. De qualquer forma, foi uma leitura rápida e fácil, muito diferente de algumas outras tantas obras de Stephen King.

O eterno vencedor dos troféus Golden no Hall da Fama continuou investindo na fórmula que tanto fez sucesso no primeiro livro da trilogia,  Mr. Mercedes. O combo de escrita objetiva, personagens carismáticos, um crime e uma boa dose de investigação pareceu ter surtido efeito, então King continuou no mesmo ritmo do anterior, sem deixar a peteca cair, com dois pontos divergentes no tempo que, ao longo de Achados e Perdidos, irão se cruzar em algum ponto da narrativa.

Em 1978, o escritor best-seller John Rothstein é retirado de sua pacata reclusão por um trio de assaltantes mascarados que invadem sua propriedade e tocam o terror. As coisas começam a ficar um tanto mais preocupantes quando notamos que o cabeça do trio, um sujeito chamado Morris Bellamy, declara-se fã número um do personagem Jimmy Gold, a menina dos olhos de Rothstein, o personagem principal de sua mais famosa franquia literária.

Bom, se você já é um Leitor Fiel escolado e graduado em Stephen King como eu, com certeza se lembra de outra personagem muito famosa que declarava ser a maior fã de outro escritor: Annie Wilkes, de Louca Obsessão (ou do livro Angústia, se preferir). E tal como Annie, Bellamy é um leitor que coloca a obra favorita acima de qualquer outra coisa, até mesmo de seu próprio autor.

bookDepois de matar Rothstein, Bellamy rouba o dinheiro do cofre e, além disso, também leva dezenas de cadernos recheados de anotações e textos do escritor. Notamos que esses cadernos eram a verdadeira motivação do crime do meliante, que sempre quis saber o desfecho de vida de Jimmy Gold, já que os três livros da série “O Corredor”, “O Corredor Procura Ação” e “O Corredor Reduz a Marcha” sempre foram sua maior obsessão.

Pula pra 2010. A família Saubers está passando por verdadeiros apuros financeiros. Desde que o patriarca, Tom, ficou gravemente ferido na feira de empregos cuja qual um psicopata investiu uma pesada Mercedes Benz contra a multidão que ali aguardava uma oportunidade de se recolocar no mercado de trabalho. Com o pai sem poder andar e necessitando de remédios, e a mãe ganhando bem menos que antigamente, os filhos Peter e Tina tem que aguentar o clima pesado que ronda o ambiente familiar.

Tudo muda quando, por um golpe do destino, Peter encontra um baú enterrado num bosque nos arredores de sua casa, contendo uma boa grana e os cadernos de anotações de John Rothstein. Morris Bellamy havia enterrado o baú com o seu tesouro um pouco antes de ir preso e ser condenado á prisão perpétua.

Tudo parece ir á favor da família Saubers, já que Peter fornece o dinheiro encontrado para os pais (de forma anônima), o que se torna o pontapé inicial para uma reestruturação familiar e progressão financeira. Por mais alguns anos, Peter e família seguem numa boa até que Bellamy, que conseguiu uma condicional e saiu da cadeia após quase 40 anos de prisão, decide ir atrás dos frutos do latrocínio. Aí que as histórias se fundem.

Assim como em Mr. Mercedes, a trinca de improváveis detetives formada por Bill Hodges, Jerome e Holly estão de volta. Hodges e Holly abriram uma empresa, Achados e Perdidos, uma agência especializada em encontrar foragidos da polícia e solucionar casos. Quando a irmã de Peter Saubers, Tina, conta sobre o dinheiro misterioso que o irmão fornecia anonimamente para sua melhor amiga Barbara (irmã de Jerome, lembra dela no primeiro livro?), elas decidem procurar a agência para investigar o caso e proteger Peter de Morris Bellamy.

Apesar dos ganchos com o livro anterior, pouco fala-se sobre o caso do assassino Mr. Mercedes, Brady Hartsfield. Após os acontecimentos finais do último livro – ALERTA DE SPOILER – pule para o próximo parágrafo caso não tenha lido Mr. Mercedes – Brady está internado em hospital com severas sequelas cerebrais, e vive em permanente estado catatônico. Bill Hodges ainda o visita esporadicamente, na esperança de descobrir se Brady está realmente vegetativo ou se tudo não passa de uma enganação para fugir da condenação pelos seus crimes. E é aí que entra o gancho sobrenatural da trilogia que tanto estávamos esperando, num epílogo incrível que encerra o livro e nos deixa extremamente curiosos com o próximo da série.

Num geral, Achados e Perdidos segue constante e mantém nossa atenção até o final da leitura, algo típico dos livros de Stephen King. Se esse ritmo for mantido em O Último Turno, com certeza a trilogia Bill Hodges tem tudo para ser uma das melhores sagas literárias da atualidade, e tão importante para os fãs de King quanto a trilogia Jimmy Gold era para Morris Bellamy.

Espero que isso não soe como uma ameaça, claro.


Ficha técnica:

Stephen King – Finders Keepers – 2015

Tradução: Regiane Winarski

Lançamento no Brasil – 2016

Editora Objetiva – Suma de Letras

Ok, talvez realmente tenha soado como ameaça

 


Niia Silveira
Niia Silveira
Francesco Dellamorte em versão feminina, mas que já leu outros livros além da lista telefônica. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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