Bibliofobia: #09 – O Bairro Da Cripta – Tomos I e II

Coleção de contos de Marcos R. Terci traz a literatura fantástica e horror gótico com toques de folclore, crendices interioranas e brasilidade


É sempre treva no mal afamado Bairro da Cripta! E essa treva que vai envolver os leitores nos dois tomos do livro O Bairro da Cripta, de Marcos R. Terci, escritor e poeta, que como disseram outro dia desses, vem ascendendo como um “Meteoro de Pégaso” nas comunidades e fóruns de literatura fantástica brasileira.

A comparação com H.P. Lovecraft é inegável. A dedicatória do primeiro livro, O Bairro da Cripta – As Elegias não poderia ser in memorian a outra pessoa, que não o Rei do Indizível, segundo Terci, “o maior escritor de ficção e horror de todos os tempos”. A influência de Edgar Allan Poe, Lorde Byron e Álvares de Azevedo também se fazem bastante presentes na escrita.

Fica claro desde o primeiro conto que o escritor tenta emular seu ídolo, mas com duas características importantíssimas: a primeira é não cair – tanto – no proselitismo e no rebuscado da escrita lovecraftiana, e o segundo, é saber misturar elementos do terror, do gótico, da ficção científica e do fantástico, com a típica realidade tupiniquim, dando asas negras às nossas crendices interioranas, ao nosso assustador folclore, ao misticismo e religiosidade, além de retratar alguns momentos históricos de nosso país, que vai da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, passando pelo governo Vargas e a Ditadura Militar.

cripta3O tal Bairro da Cripta, onde é muito fácil se perder em suas ruas escuras e vielas estreitas, fica na cidade de Tebraria, no interior de São Paulo, atravessada pelo caudaloso Rio Mogi. A localidade é palco de toda sorte de conjuração, monstro, fantasma, demônio, lobisomem, vampiros, bruxaria e manifestação das forças sobrenaturais, que tem o grande cemitério, uma verdade necrópole cujo “prefeito” é o coveiro italiano Ari, como sua capital das trevas.
Dividido em vários contos, a antologia de terror de Terci tem uma pegada narrativa quase que cinematográfica. Impossível não imaginar algumas daquelas histórias atravessando a mídia física do papel e indo parar direto em uma série televisiva, com seus arcos fechados. Ah, se o terror fosse um gênero mais bem quisto e investido por essas bandas…

Claro que como toda sequência com muitos contos, já que estamos falando de dois volumes, além de As Elegias temos o O Bairro da Cripta – Os Epitáfios, há uma irregularidade entre as histórias, algumas absolutamente interessantes e assustadoras, e outras que você lê apenas para cumprir tabela, mas não dá para negar que a qualidade das primeiras, superam as derrapadas das últimas.

capa.bairro_da_cripta_v2-page-001O mais interessante é como o Bairro da Cripta se mostra um universo pulsante, e que muitas de suas sequências macabras, causos sinistros e per
sonagens assombrosos, se misturam, criando uma mitologia própria, se interligando – como tentáuculos – em diversos contos, criando um eixo narrativo e uma espécie de linha de tempo que vai se construindo no decorrer dos contos.
Também chama atenção como a qualidade do segundo volume é muito maior que do primeiro, mostrando a evolução de Terci e domínio de seu mundo e, principalmente, como se mostra mais a vontade com suas criações tenebrosas. Há uma sequência de contos em Os Epitáfios que vai de “Uma Voz na Escuridão” até “O Salão Comunal” – incluindo nesse ínterim “Um Prato Cheio de Agonia” e “O Coletor de Corações”, dois dos meus preferidos – que é impossível desgrudar os olhos das páginas.

A literatura fantástica e o horror gótico nacional nunca esteve tão bem representada como em O Bairro da Cripta e seu toque de brasilidade, naqueles causos que parecem contados pelos pais ou avós que moram ou vieram do interior. É para se esperar ansiosamente o terceiro volume que será lançado ainda esse mês de junho pela L.P. Books, e se certificar de pelo menos dessa vez acender um lampião e tentar ignorar os alaridos que vem do além-túmulo, ao se aventurar novamente por aquele cemitério arcaico num bairro onde casas se confundem com túmulos e mausoléus e os vivos e os mortos compartilham o mesmo pedaço de terra.

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. mrterci disse:

    Marcos Brolia é o responsável por minha cerveja ter esquentado! Fui obrigado a ler a resenha três vezes seguidas antes de voltar a bica-la. Estava quente, intragável. MAS, CARAMBA! Quando um lugar como o 101 HORROR MOVIES, um rincão que abrange todo o gênero fantástico, lar de 9.333 seguidores (número que não para de crescer), um dos mais versáteis blogs a falar de horror de maneira inteligente, bem humorada e plenamente embasada, minha parada obrigatória de todos os dias, diz que seus livros são bons… cara… é aí que você sente aquela sensação de DEVER CUMPRIDO. Marcos… obrigado! Você me deve uma cerveja!

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