Bibliofobia #27 – O Mundo Sombrio – Histórias dos Mitos de Cthulhu de Robert E. Howard

Não só de espada e magia viverá o homem



Em 1936 morreu aquele que foi um dos grandes escritores do gênero pulp e o pai do subgênero literário espada e feitiçaria: Robert E. Howard. Constantemente lembrado como o homem responsável pela criação do icônico Conan, O Bárbaro (imortalizado em 1982 nas telas do cinema pelo ator Arnold Schwarzenegger). O que poucos parecem saber é que esse autor nutria laços de amizades muito profundos com o Rei do Indizível, H.P. Lovecraft. Essa relação, constituída basicamente pelas trocas de cartas, teve seu início quando em 1930 Robert fez um pedido por escrito a revista Weirds Tales, uma notória revista pulp americana, para que houvesse a reimpressão do conto Os Ratos nas Paredes escrito por Lovecraft. Nessa carta enviada a revista ele também discutiu algumas referências gaélicas obscuras que o texto possuía. Desde então, ambos mantiveram a troca de correspondência onde discutiam sobre suas criações literárias.

Robert tomava cada vez mais contato com a mitologia cósmica lovecraftiana. O fascínio do autor por esse novo universo se fez tamanho que ele criou histórias que compartilham as criaturas, os eventos e as “divindades” tentaculares do escritor de Providence. Esses contos, escritos de modo espaçado na vida do autor, foram reunidos em 2016 pela Editora Clock Tower na obra O Mundo Sombrio – Histórias dos Mitos de Cthulhu de Robert E. Howard. Hoje, falaremos um pouco sobre os textos ali contidos.


Uma vez que estamos tratando de 14 contos, decidi por não trabalhar minha análise expondo cada um deles. Acredito que será mais válido trazer os fios condutores que parecem guiar a escrita de Howard durante o desenvolvimento de suas narrativas e apontar os possíveis paralelos que eles trazem às histórias de Lovecraft.


Pois bem, o primeiro ponto que gostaria de trazer é a constante distinção entre os povos do mundo feitas nos contos. Lovecraft, infelizmente, posicionava-se de modo racista e xenofóbico diante do diferente. Determinadas expressões parecem capturar uma certa raiva que o autor carregava daqueles que não se enquadravam no perfil Teutônico/Anglo Saxão. O que, inclusive, é contraditório ao próprio escritor, uma vez que o mesmo defendia a insignificância da humanidade perante a grandiosidade do Universo mas, aparentemente, não a insignificância de certas “raças” diante de outras.

De qualquer forma, os contos de Howard trazem um pouco disso, mas, acredito eu, com um teor quase oposto aquele que Lovecraft usava. Ao falar de outros povos, aqueles que possuem outras raízes étnicas, Robert parece trazer um tom de fascínio por eles. Não existe aquele ódio escancarado em expressões como “odiosos traços negroides”, muito utilizados por Lovecraft. Aqui o olhar oferecido ao estrangeiro é outro.   


mundosombrioEsse mesmo fascínio parece seguir nas descrições dos ambientes por onde as histórias acontecem. O movimento dentro da narrativa é refletido pelo rumo ao desconhecido geográfico feito pelas personagens. Em quase todos os contos, viagens homéricas são necessárias para que os protagonistas se lancem em direção aos misteriosos conflitos que os aguardam e encontrem aquilo que buscam, que, muitas vezes, não é exatamente o que esperavam (outra característica
lovecraftiana).

Mas talvez a maior contribuição do Rei do Indizível para as histórias da coletânea está no lento desenvolvimento da ambientação da narrativa. Aos poucos a escuridão das mentes das personagens vai ocupando cada fresta que a atmosfera dos contos possuí, preenchendo o pensar do leitor com um desespero repleto de insanidade. Essa ação, juntamente com a narrativa em primeira pessoa, faz confundir o dentro e o fora do livro. A rígida estrutura do Mundo ganha rachaduras diante da inevitável questão presente ao final de cada texto: E se isso for verdade?

Algumas outras distinções entre os dois escritores se fazem notórias. Nos trabalhos de ambos, homens e mulheres temem as criaturas oriundas de locais e tempos longínquo, mas aceitam as suas existências, dando-lhes títulos de senhores e deuses. A mente bárbara dos personagens de Howard lida com o indizível como algo divino, diferentemente de como lidaria a mente moderna que é retratada pelos pobres seres nos contos de Lovecraft. Os eruditos narradores lovecraftianos, dotados de sofisticada educação em áreas diversas, tem suas sanidades estraçalhadas frente ao desconhecido. Eles não podem aceitar a existência de algo inexplicável a razão. Já os filhos das eras hiboranas olham com pavor para tais aparições, mas ainda são capazes de manter suas faculdades.

Outro ponto que chama a atenção e distingue os autores é a escolha dos objetos que causaram o horror. Ao meu ver, Lovecraft costuma estruturar seus contos pautando-se na ideia de que o conhecimento de determinadas condições existências, como seres multidimensionais ou alienígenas de mais de 30 metros de altura romperiam com a plasticidade mental humana. Já nas histórias de Howard, esse horror é capturado em objetos que possuem determinados poderes: anéis que abrirão portais, símbolos de adoração ou livros de conhecimentos profundos. Percebam que em um dos casos, é o próprio conhecimento que se torna algo terrível, enquanto em outro, é o portador daquele conhecimento que é visto como perigoso.

Em conclusão, acredito piamente que O Mundo Sombrio – Histórias dos Mitos de Cthulhu de Robert E. Howard deva ser lido por qualquer fã do gênero. Não só por se tratar de um trabalho inédito ou por ele conter inúmeras e intrigantes informações adicionais, como uma introdução escrita especialmente para essa versão brasileira dos contos por J.T. Joshi, maior especialista em Lovecraft do mundo, e bibliógrafo do autor, que escreveu A Vida de H.P. Lovecraft. Mas também para que possamos compreender a capacidade que o horror tem de se desdobrar, partindo dos mesmos pressupostos e dos mesmo meios, tornando-se múltiplo e ainda mais rico.

Ficha Técnica:

Robert E. Howard

Tradução e notas: Diversos

2016

Editora Clock Tower


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

2 Comentários

  1. Leandro 2112 disse:

    Tenho todas as obras lançadas pela Clock Tower e essa é a que menos me agrada. Não que seja ruim, mas foi a que menos me chamou atenção, talvez em uma segunda leitura possa ser apreciada melhor.

  2. Rogério Mendes disse:

    O problema são os erros de tradução e gramaticais. O texto fica muito prejudicado por isso, às vezes algumas frases chegam a perder o sentido. Leia com os originais em inglês ao lado.

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