Bibliofobia #30 – Lobas

Mulheres no comando!


Criaturas zoomórficas sempre estiveram presentes na história humana. Ora retratados como divindades poderosas e boas, ora mostradas como seres abomináveis e nefastos. A união entre o humano e o animal cria algo maior do que apenas a soma de partes sortidas de cada um deles. Esses seres são avatares, símbolos recorrentes em várias culturas. Serpentes, crocodilos e pássaros diversos sempre surgem nas mais diversas mitologias. Mas de todas as bestas místicas, uma sempre se sobressai como companheira do ser humano: o lobo. Sempre respeitado por seu conhecido espírito de equipe, mas também por sua voracidade, esse animal parece ser um reflexo nosso.

Talvez por isso os casos de licantropia sejam tão relatados. Durante a Idade Média, período onde houve a maior quantidade de casos registrados, a França teve o número absoluto de ocorrências documentadas. Existe uma razão específica para o lobo ser o animal escolhido? Talvez sim, talvez não. O que importa é que ele ainda instiga nossa imaginação e possibilita que obras artísticas surjam através de sua imagem. Um desses trabalhos é o que falaremos aqui. Trataremos do livro Lobas, lançado ano passado pela editora parceira Veneta.

Na trama, ouvimos uma história que é contada em uma roda de acampamento. Roma, uma jovem acompanhada de suas amigas em seus últimos dias de férias, nos relata com a propriedade de uma testemunha a insana aventura de Lupina e Hermínia, duas licantropas. Ambas estão inseridas na Matilha, uma organização de mulheres-lobos que gerencia a interação dos lobisomens com o mundo dos humanos. A primeira faz parte de uma casta de reprodutoras, que perpetua a espécie, e a última é um soldado que mantém os desígnios das líderes em funcionamento. Dividida em quatro grandes capítulos, a história tem seu início quando Hermínia é deslocada para verificar o porquê de Lupina não estar cumprindo sua função enquanto reprodutora. As razões por detrás disso terão desdobramentos políticos imensos, causando um abalo à própria Matilha.

LobasA narrativa é uma mistura de terror, aventura e fantasia. Sendo uma história bem simplificada e voltada para um público young adult, Lobas tem uma linguagem extremamente palatável, que dá muita fluidez à leitura. As personagens são extremamente detalhadas em seus gostos e personalidades. Miudezas a respeito do modo como elas andam ou olham umas para as outras geram uma agradável aproximação do leitor à história. Esse mesmo cuidado é dado ao se descrever a estrutura social da Matilha. Constituída unicamente por mulheres, a cúpula que rege a sociedade dos licantropos precisa lidar com os conflitos que surgem com o contato entre elas e os sempre ambiciosos líderes humanos. Tendo que administrar a dicotomía humano/animal, as poderosas lobas matriarcas são uma mistura de mestres tribais e políticas engravatadas.

Outro ponto alto do livro é o modo como ele espelha a realidade. Conflitos da classe dominante com as minorias é uma constante na história. Racismo, xenofobia, machismo e preconceito de classe são temas recorrentes na leitura. Isso, inclusive, é representado de modo muito interessante pela capacidade que as lobas possuem de alterar suas formas. Sendo aptas a terem a constituição física que bem lhes apetece, as licantropas sempre escolhem formas muito sexualizadas para se apresentarem ao mundo – sinal claro de que elas entendem a forma como nossa sociedade é constituída. Essa sexualização das personagens pode também ser vista como algo negativo; como uma tentativa de fazer com que o leitor/leitora se interesse pelo desenvolvimento da trama devido a esse aspecto, mas não acho que esse seja o caso, uma vez que nos é dito no livro que as lobas escolhem ter os corpos que têm.

Ao final, Lobas se mostrou ser uma obra divertida, extremamente fácil de ser lida,escrita para um público mais jovem. Sendo o primeiro volume de uma trilogia, esse livro tem potencial para ser uma ótima introdução aos novos leitores no gênero do terror.

 

Ficha Técnica:

C. Rocha

Lobas

2016

Editora Veneta


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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