Bibliofobia #31 – Trilogia Alien

O universo do xenomorfo expandido em três livros que trazem entretenimento satisfatório e descompromissado para os fãs


Algo que se tornou muito comum na cultura pop é a expansão de seus universos de forma transmídia. Obras cinematográficas ganham continuações, prequels, spin offs e tie ins oficiais na literatura, quadrinhos ou games, trazendo elementos que fazem parte do cânone, mercadologicamente focado num público alvo formado por fãs que são ávidos por conhecer novas histórias e o background de seus personagens, e assim, poder complementar uma mitologia ou preencher buracos narrativos que uma série de filmes deixou pelo caminho.

O universo de Alien cresceu muito desde que Ridley Scott dirigiu Alien, o Oitavo Passageiro em 1979, e o xenomorfo passou a ser explorado em outros meios, mas sempre como uma ligação clandestina àquele mundo futurista. O lançamento da Trilogia Alien, iniciativa da Titan Publishing Group em parceria com a própria Twentieth Century Fox, lançados em 2014 nos EUA, e aqui no Brasil pela Editora Leya no final do ano passado e início deste ano, pegando carona na estreia de Alien: Covenant nos cinemas, tem o objetivo de expandir esse universo estendido oficialmente.

Os três livros de alguma forma tem ligação com Ellen Ripley e sua árdua batalha contra os xenomorfo e as inescrupulosas intenções da famigerada Weyland-Yutani em obter a qualquer custo um espécime – preferencialmente vivo – para estudo e poder transformar a criatura em uma arma biológica, enriquecendo ainda mais sua já trilhardária divisão de ciências.

Com histórias straight forward, fluídas, facílimas de serem lidas e obviamente escritas como num ritmo cinematográfico, os livros trazem um rápido e satisfatório entretenimento descompromissado para os fãs de Alien e até elucidam algumas questões nunca antes reveladas e que passam a se tornar oficiosas, como a descoberta de uma raça alienígena pela Companhia, responsável pelo conhecimento da tecnologia da terraformação que possibilitou a conquista da galáxia pelo homem – praticamente monopólio da Weyland-Yutani -, algumas características do xenomorfo como uma espécie de consciência coletiva compartilhada por toda a ninhada (e sua Rainha) e que eles são capazes de… guardar rancor (!?), e como se deu a construção e queda da colônia de Hadley’s Hope de Aliens, o Resgate.

Surgido das Sombras

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O primeiro livro da série, escrito por Tim Lebbon é o mais fraco dos três, apesar de trazer a nossa heroína preferida como protagonista. A Marion é uma nave mineradora em missão em LV-178, uma inóspita rocha espacial rica em trimonita, um minério extremamente valioso para a Weyland-Yutani. Durante as escavações em uma caverna, os mineiros se deparam com uma nave e a criatura alienígena, e as dropships que o levavam ao planetoide retornam com os xenomorfos, causando um mal funcionamento durante o atracamento, resultando na morte da capitã e colocando o engenheiro Chris Hooper no comando.

A Marion fica à deriva, perdendo gravidade, com uma iminente reentrada na atmosfera que mataria a todos. É apenas uma questão de tempo, esperando por um resgate, enquanto os monstros estão presos dentro da dropship impossibilitando que eles fujam. Paralelo a isso, é detectado o sinal de uma nave, que é exatamente a Narcissus, onde Ellen Ripley se encontra em estado de hipersono, 37 anos depois da explosão da Nostromo. Ela é resgatada e acorda de seu pesadelo apenas para ser obrigada, junto da nova tripulação, a enfrentar os xenomorfos novamente, sem saber que a captação do seu sinal nada mais é que um nefasto plano do sintético Ash, que hackeou sua AI para dentro dos computadores de bordo do módulo de escape, ainda disposto a cumprir sua missão e conseguir um espécime para a Companhia.

Bom, você me pergunta: mas como essa história é um expansão oficial, se sabemos que Ripley foi resgatada 57 anos depois e se envolveu nos acontecimentos retratados em Aliens, o Resgate de James Cameron, sem nunca mencionar outro contato com o xenomorfo e a experiência na Marion e no planeta LV-178? Pois é, Lebbon teve que dar um jeito nisso, e a forma – bastante óbvia – encontrada por ele, é a mais preguiçosa possível, o que acaba nos questionando na real necessidade dessa publicação ter de fato acontecido, senão, dar alguns trocados para os bolsos de todos os envolvidos, quase como uma daquelas sequência caça-níquel.

Mar de Angústia

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O livro dois da trilogia, escrito por James A. Moore é superior ao seu antecessor, por apresentar uma história original para o cânone, que tem relação direta com os acontecimentos de Surgido das Sombras, e com Ripley, apesar de alguns percalços narrativos que empobrecem o enredo. Alan Decker é funcionário da Comissão de Comércio e está em um trabalho burocrático fazendo vistoria em Nova Galveston, colônia humana interplanetária, onde a Weyland-Yutani tem interesse em construir uma nova cidade, porém em um terreno rigoroso de areia negra conhecido como Mar de Angústia.

Após um acidente de trabalho em que ele quase acaba perdendo a vida e sofre um ataque de pânico, Decker volta à Terra disposto a denunciar em seu relatório as negligências da Companhia, que acaba afastando-o e iniciando uma cruzada contra sua pessoa. Até que certo dia, Decker é sequestrado por um grupo de mercenários e levado de volta a Nova Galveston, onde uma corporativista maquiavélica chamada Andrea Rollins revela que o sujeito na verdade é um descendente de Ellen Ripley, e a responsabilidade econômica e criminal por todo o prejuízo que ela já dera para a Weyland-Yutani (explodindo um cargueiro e mais tarde, toda uma colônia) cairia sobre suas costas, se ele não cooperasse com um grupo de mercenários e cientistas – uma vez que ele possui uma espécie de poder empático – que encontraram uma nave espacial alienígena e os xenomorfos no subterrâneo do Mar de Angústia. Isso porque Nova Galveston foi construída no tal planeta LV-178, o mesmo do primeiro romance.

A narrativa de ação com infestação de xenomorfos e mercenários armados até os dentes lembra muito Aliens, o Resgate. Um detalhe interessante são trechos escritos pelo ponto de vista dos alienígenas, inclusive de seu nascimento, explodindo o tórax de seus hospedeiros, e passamos a enxergar o xenomorfo com um ser senciente e como funciona sua consciência coletiva. A grande derrapada é mostrar que os aliens também sentem rancor e tem instintos de vingança, ao descobrirem que Decker é descendente de Ripley, que eles apelidaram de “Destruidora”, e passam a nutrir um ódio desenfreado por ele, captado pelo humano exatamente por conta de seus poderes pós-cognitivos. O que é uma tremenda bobagem, diga-se de passagem.

Rio de Sofrimento

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Falando em Aliens, o Resgate, o terceiro livro, é sem dúvida o melhor da trilogia, mesmo que não tenha nada a acrescentar ao cânone. Christopher Golden resolveu contar em seu romance os acontecimentos que antecedem a chegada da equipe de Fuzileiros Coloniais em Hadley’s Hope, colônia do planeta Acheron, ou Aqueronte, como traduzido em PT-BR (rio egípcio que em tradução significa “Rio de Sofrimento”), ex LV-426, para investigar a súbita perda de sinal de contato, incluindo aí trechos fielmente reproduzidos do segundo filme da série.

A trama parte da família Jorden, aquela mesmo que na versão extendida de Cameron, que durante um garimpo encontram o derelict e Russ, o patriarca, é infectado e levado de volta à colônia. Somos testemunhas da procriação dos xenomorfos que dizimaram todos os colonos, mesmo com o esforço de alguns fuzileiros coloniais de serviços no local, e as tentativas escusas de uma equipe científica em conseguir coletar dados, e com sorte, uma das criaturas, para a Companhia, que já sabia da possibilidade de encontrá-los por lá desde a ideia inicial de ajudar a bancar um assentamento humano na lua de Calpamos, no sistema de Zeta II Reticuli.

A narrativa do livro se divide entre Damon Brackett, capitão dos fuzileiros recém destacado para o posto, e Anne Jorden com seus filhos Tim e Rebecca, mais conhecida pelo seu apelido Newt. Sim, ela mesma, a adorável garotinha de Aliens, o Resgate, contando como ela foi a única sobrevivente da colônia. Até por já sabermos o fatídico destino daqueles pobres coitados, você lê o livro numa tacada só, no sentido de urgência em descobrir como a catástrofe se desenrolou por conta da ganância tanto de humanos quanto da Weyland-Yutani, e como a infestação se espalhou, incluindo aí o nascimento da Rainha que o “Rei do Mundo” nos apresentou em seu filme de guerra espacial.

 

Ficha técnica:

Alien – Surgido das Sombras (2016)

Alien – Out of Shadows (2014)

Autor: Tim Lebbon

Tradução: Camila Fernandes

 

Alien – Mar de Angústia (2016)

Alien – Sea of Sorrows (2014)

Autor: James A. Moore

Tradução: Camila Fernandes

 

Alien – Rio de Sofrimento (2017)

Alien – River of Pain (2014)

Autor: Christopher Golden

Tradução: Camila Fernandes

Editora Leya


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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