Bibliofobia #32 – O Bazar dos Sonhos Ruins

Stephen King compara seus contos a pequenas obras de arte


Após o sucesso do lançamento da trilogia Bill Hodges no Brasil, a Suma de Letras lançou, em março deste ano, o mais recente livro de contos do mestre do horror Stephen King: O Bazar dos Sonhos Ruins. Ao todo, são vinte histórias, algumas inéditas, outras já publicadas anteriormente, mas previamente revisadas, ou melhor, “lapidadas”, como diria o autor.

Na introdução, King alega se assemelhar a um vendedor ambulante, daqueles que estende um lençol numa esquina qualquer e debulha sobre ele suas mercadorias que estão à venda. Tal equal o título entrega, o autor nos apresenta o seu bazar, e compara seus contos a pequenas obras de arte, objetos menores do que obras-primas, mas que ainda assim tem um valor inestimável.

downloadE realmente, muitas das histórias presentes no compilado são pequenas jóias, que vão desde o drama presente em Mister Delícia até o horror puro em Garotinho Malvado. Uma das histórias, Ur, inclusive, demonstra ligação, mesmo que vagamente, com a saga A Torre Negra. Em Batman e Robin tem uma discussão, King nos revela aquela preocupação com o próprio envelhecimento, e em A Duna, ele prova que ainda consegue ser genialmente irônico em seus contos. Na história que encerra o livro, Trovão de Verão, descreve uma história apocalíptica com final muito semelhante às cenas finais de Sons Of Anarchy, na qual chegou a fazer uma participação especial, e dedica a história especialmente para Kurt Sutter, criador da série.

Aparentemente, o autor se deu ao luxo de sair de sua zona de conforto, arriscando-se em escrever sobre temas nunca trabalhados antes por ele. Em Mr. Mercedes, por exemplo, ele ousou se aventurar em outro gênero: o da investigação policial. Os outros dois livros seguintes, Achados e Perdidos e O Último Turno, mantém a mesma pitada noir. Em O Bazar dos Sonhos Ruins no entanto, a ousadia é escrever sobre assuntos considerados por ele mesmo como tabu.

Antes de cada conto, ele escreve um pouco sobre o mesmo, contando como e porquê a história surgiu. Dessa forma, podemos vê-lo falando sobre suas inspirações, sejam elas pessoais (como seu relacionamento com sua mãe depressiva, ou mesmo sobre o acidente que quase o matou) ou mesmo sociais (como HIV ou homossexualidade). O estilo de narrativa, no entanto, parece manter-se o mesmo: concisa e direta, daquela maneira que nos agarra à leitura e nos deixa grudados e entretidos até as páginas finais.

Num apanhado geral, O Bazar dos Sonhos Ruins é uma experiência gratificante para mim, que venho tendo uma série de pequenas decepções com o autor e seus livros mais recentes. Aqui, ele nos mostra que está em ótima forma, e continua fazendo com maestria aquilo que sabe de melhor: entreter, emocionar e obviamente, assustar. Com essa coletânea, Stephen King nos faz perceber que, assim como a velha piada do Troféu Golden do Hall da Fama, ele nunca perde a graça.

Ficha técnica:

Stephen King – The Bazaar of Bad Dreams– 2015
Tradução: Regiane Winarski
Lançamento no Brasil – 2017
Editora Objetiva / Companhia das Letras  – Suma de Letras

 


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *