Bibliofobia #34 – Tripulação de Esqueletos

Uma das melhores coletâneas de Stephen King, material para várias adaptações cinematográficas


Como já disse em minha análise sobre a série The Mist, com frequência sou aquela fã chata que sempre acha que os livros são melhores que os filmes. Tecnicamente, tenho um bom ponto para defender essa minha teoria: aparentemente, não há maior direção que nossa própria imaginação. Quando lemos determinada história, é como se a ouvíssemos diretamente de seu criador, e o maior combustível para transformar a leitura em algo crível, num primeiro momento, é imaginá-la real. Desse modo, conseguimos fazer com que aquele enredo nos apresentem nuances extremamente pessoais, dependendo de como elas se conjecturam em nossas mentes.

 

Dito isso, tenho que confessar que sou uma apaixonada por contos. Exatamente por serem histórias mais curtas, elas carregam um peso muito maior, afinal, o autor precisa convencê-lo de que ali, naquelas poucas páginas, há algo substancial. Stephen King, por sua vez, sempre alegou adorar escrever novelas e contos pela facilidade da escrita. Foi dessa maneira, inclusive, que começou a sua carreira como escritor, vendendo pequenas histórias para revistas e periódicos. Até estourar com as vendas de seu primeiro livro, Carrie, em 1974, foi dessa maneira que ele conseguiu externar seu dom literário e ainda por cima ganhar uns poucos trocados.

Em Tripulação de Esqueletos, lançado em 1985, King reúne várias dessas histórias escritas ao longo de sua carreira. O mais velho dos contos, “A Imagem do Ceifeiro”, foi escrito quando ele tinha apenas dezoito anos e nos conta sobre um espelho, deliberadamente escondido em um museu, que leva fama de amaldiçoado, por supostamente mostrar a uma pessoa que ela está próxima da morte, enredo onde bebe da fonte das inspirações dos quadrinhos da EC Comics ou de séries como Além da Imaginação. Nesse conto, vemos seu dom em conseguir assustar um leitor em apenas onze páginas.

 

Outro destaque do livro é o conto que abre a coletânea, “O Nevoeiro”,  cuja a já famosa história sobre uma densa névoa que traz o horror para uma pequena cidadezinha foi adaptada para uma versão cinematográfica e, atualmente, também está sendo exibida como uma série de TV. King mantém um clima claustrofóbico, ao manter os moradores dessa cidade presos involuntariamente num supermercado, lutando pela sobrevivência e, principalmente, pela convivência. ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. O autor do Maine prova que, quando confinada em pequenos espaços e sem leis vigentes, a humanidade pode ser mais ameaçadora do que qualquer outra coisa. A prova disso, por exemplo, é a personagem Sra Carmody, uma fanática religiosa que acredita piamente que as monstruosidades advindas do nevoeiro são uma punição divina para o comportamento errante da humanidade, chegando até mesmo a realizar um sacrifício humano para apaziguar a ira de Deus.

 

Os moradores, desesperados e sem respostas sobre o que está acontecendo, ficam suscetíveis à dominação mental da velha senhora, o que resulta num desfecho catastrófico. Final esse, aliás, muito diferente do criado pelo diretor Frank Darabont, já que King mantém incerto o futuro da humanidade, deixando livre para o leitor imaginar o trágico destino de todos. Já nas telonas, vemos que que o Exército está conseguindo, aos poucos, controlar a praga que eles mesmos criaram e que ainda há esperança para a população, mesmo que não haja para o personagem principal, David Drayton, que teve que sacrificar alguns sobreviventes, incluindo seu próprio filho de cinco anos, Billy em um dos finais mais desoladores da história do cinema.

 

Tripulação de Esqueletos, aliás, acabou sendo material para outras adaptações cinematográficas: “A Balsa” acabou virando “A Jangada”, um dos segmentos mais aclamados de Creepshow 2, antologia roteirizada por ninguém menos que George A. Romero e o próprio King. Mais recentemente um outro conto, “Vovó”, foi adaptado pela produtora queridinha do horror na atualidade, a Blumhouse. Infelizmente, mesmo com King nos roteiros novamente, Pacto Maligno ficou muito aquém do esperado.

 

Meu conto favorito, no entanto, é “O Macaco” que, felizmente, não acabou invadindo outras mídias. Nele, King nos mostra um daqueles pequenos macacos de brinquedo que seguram címbalos, batendo um ao outro quando dado corda. Nesse caso, o símio não tem nada de inocente, já que cada vez os címbalos tocam, alguém próximo a seu dono, Terry, morre. Não importa quantas vezes Terry o jogue fora e tente o destruir, o macaco sempre volta para assombrá-lo. Assustador pra cacete.

 

Num modo geral, Tripulação de Esqueletos é uma das melhores coletâneas de Stephen King. Republicado no Brasil em 2011 pela Editora Objetiva, já que estava praticamente extinto das prateleiras, o livro consegue reunir pequenas histórias que irão fazer sua imaginação navegar e, a bordo dessa tripulação, ir para cenários e situações assustadoras e jamais imaginadas.


Ficha técnica:
Stephen King – Skeleton Crew – 1985

Tradução: Louisa Ibañez
Lançamento no Brasil – 2011
Editora Objetiva


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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