Bibliofobia #35 – Boneco de Pano

Corpos, câmeras e ação!


Em uma sociedade cada vez mais violenta, nos soa rotineiro casos de assassinato sendo noticiados através das diversas mídias que temos a disposição. Estamos tão anestesiados com a ultraexposição da violência que quase não nos atentamos para eventos do tipo. Entretanto, eventualmente são divulgados crimes tão hediondos que é impossível passar incólume. Nossa incansável morbidez nos obriga a mirar nossa atenção para dentro da desgraça e aplaudir o lúgubre espetáculo. Ciente desse intrigante comportamento humano, Daniel Cole escreveu seu romance policial, salpicando elementos das nossas tão amadas tramas de serial killers, Boneco de Pano.

Nessa história, o detetive William Fawkes, ou Wolf – como ficou conhecido depois de uma polêmica investigação da qual ele fez parte, volta as atividades enquanto policial depois de passar uma temporada fazendo um tratamento psicológico. Seu caso de retorno é um assassinato onde partes desmembradas de seis pessoas foram costuradas juntas para tentar se construir um boneco de pano.

Junto disso, a ex-mulher de Wolf, a repórter Andrea Hall, recebe fotos da cena do crime – que deveria ser confidencial – e uma lista com outros seis nomes que serão assassinados pela mesma pessoa que cometeu essa atrocidade. O pior de tudo é que o nome de Wolf também está na lista. Agora cabe a ele, sua amiga e também detetive Emily, junto de todo o departamento de polícia de Londres, evitar que mais mortes sejam causadas.

A trama, embora seja simples, é muito bem trabalhada. As apresentações das personagens são feitas de modo gradual, despertando no leitor uma satisfação quase infantil em se aproximar delas. Mas, nesse processo, o que mais me chamou a atenção foi a capacidade do autor em conseguir gerar empatia e, ao mesmo tempo, criar indivíduos críveis – com suas personalidades construídas sem os apelos mais óbvios dos clichês. Claro que uma coisa ou outra de determinados estereótipos foi utilizada, mas não é algo recorrente e, quando elas acontecem, não nos sentimos insultados.

O apelo visual da obra é grande. Inicialmente, Boneco de Pano havia sido escrito para se tornar uma série. Não comprada para tal, acabou se tornando um livro com um impacto imagético muito intenso. As apresentações dos locais, das pessoas e dos acontecimentos são feitas de modo sucinto, mas preciso. Nós, enquanto leitores, preenchemos pouquíssimas lacunas com a nossa imaginação, tornando a apreciação do livro uma experiência quase televisiva. A todo o momento da história temos referências da contemporaneidade sendo usadas como artifício descritivo. O autor sabe precisamente quem é seu público e como cativá-lo.

Temos também a ferrenha crítica contra o sensacionalismo midiático que tem corroído o jornalismo atual. Durante a trama, o autor não economiza palavras ao mostrar o desejo de sangue que da mídia. Os jornalistas não têm medo de expor as vítimas do assassino, mesmo que isso venha a prejudicar as investigações que virão. É um jogo onde tudo vale, desde que tenhamos uma boa manchete.

Mesmo com esses elementos, uma áurea maniqueísta orbita o livro. Ainda que as personagens sejam, na maior parte do tempo, extremamente realistas, temos momentos em que certas atitudes tomadas mostram uma tendência em fazer o bem ou o mal, dependendo de seu papel na trama. Os protagonistas são humanos, mas nem tanto, pois estão dispostos a qualquer coisa para fazer valer a Justiça com “J” maiúsculo.

O mesmo ocorre com o antagonista, só que para o “lado das trevas”. A maior evidência disso acontece em uma passagem onde uma das personagens observa o modo como as trepadeiras estão tomando conta da parte externa da igreja onde ela se encontra. Ao olhar para as plantas que consomem a arquitetura londrina, a mesma personagem se questiona se não há ali alguém que lute contra aquela invasão à casa de Deus. Ela precisa tomar uma atitude contra aquele “mal”. Esse mesmo sentimento reside de modo nem sempre tão evidente dentro de cada um dos tipos que temos no livro.

Existe também aquele desejo de se criar uma série literária que parece ter dominado todos os escritores atuais. Entendam, não acho ruim que um escritor, ao escrever seu livro, pense naquela obra como uma trilogia, quadrilogia ou pentalogia, mas é visível quando um texto poderia ter encontrado seu final em um determinado ponto e isso não acontece, pois é possível estendê-lo mais um pouco – buscando um pouco mais de lucro. Boneco de Pano sofre desse mal (embora seja um dos poucos exemplos que tive o prazer em ler que não faz isso de modo descarado).

Em síntese, Boneco de Pano é um livro de leitura fácil, com bons personagens, uma trama interessante e efeitos narrativos surpreendentes. A obra agradará todos os fãs (e também os não-fãs) do gênero do horror que estiverem buscando algo cativante, mas não tão distante daquilo que ele(a) já tenha lido.

 

Ficha técnica: 

Daniel Cole – Ragdoll – 2017

Tradução: Marcelo Mendes

Lançamento no Brasil – 2017

Editora Arqueiro


Tauami de Paula
Tauami de Paula
Estudante de Letras e de Filosofia, esse apreciador do absurdo e do inexplicável sempre encontrou mais sentido na arte do que na vida. Sendo raramente visto fora de casa, passa os dias lendo, escrevendo e criando teorias sobre tudo aquilo que não entende.

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