Bibliofobia #36 – Mestre das Chamas

Alguns homens só querem ver o circo pegar fogo


Na literatura, cinema, quadrinhos, séries de TV, jogos de videogame, praticamente todo e qualquer tipo de mídia, um mundo pós-apocalíptico (em um futuro distante ou muito próximo), já foi explorado de várias formas possíveis e imagináveis. Por isso temos que tirar o chapéu para o Joe Hill, filho de Stephen King, – certeza que ele deve odiar esse aposto – ao inventar um plot extremamente novo e criativo em seu mais novo best-seller, Mestre das Chamas, lançado no Brasil pela Editora Arqueiro.

Acontece que, em sua visão distópica, nossa lindeza de sociedade foi para o vinagre com a pandemia de um esporo capaz de causar combustão espontânea. Um catálogo de histórias onde vírus deixam as pessoas com raiva descontrolada ou as transformam em zumbis devoradores de carne, a gente já viu aos borbotões. Mas algo como o Draco incendia trycophyton, o nome científico da doença conhecida como “Escama do Dragão”, que carrega a peculiaridade de fazer nascer rabiscos dourados na pele dos infectados, que se elevam a temperaturas extremas em situação de estresse e provocam a imolação, é inédito.

Ao bem da verdade, Mestre das Chamas é introduzido aos leitores em um primeiro ato memorável, contando o espalhar da doença e suas consequências terríveis, uma vez que a combustão espontânea, muitas das vezes em massa, começa a provocar reações em cadeia de terrível destruição e queimadas sem controle, enquanto a sociedade começa a virar CINZAS, as autoridades tornarem-se ineficazes e a comunidade médica e científica se mostra incapaz de entender a praga, sua propagação, e muito menos, encontrar uma cura.

Logo, como toda boa história de um mundo pós-apocalíptico que se preze, os infectados começa a se tornar maioria, e passam a ser segregados e caçados pelos “humanos normais”, em verdadeiras patrulhas apelidadas de “Bondes da Cremação”, e temos lá mais uma vez a humanidade mostrando seu pior em situações limítrofe, pagando como os verdadeiros vilões, tudo com aquela dose de metáfora social embutida.

Somos apresentados a personagem principal, a grávida enfermeira Harper Grayson, que no altruísmo inerente a sua profissão, acaba sendo infectada e tenta ser assassinada pelo marido, já num estágio avançado de medo misturado com loucura, e é resgatada por um sujeito apelidado O Bombeiro, o tal Fireman do título original – empréstimo de Hill de Fahrenheit 451 de Ray Bradbury. Ele a leva para uma colônia de sobreviventes, onde todos aprenderam a entrar numa espécie de nirvana que as fazem brilhar como vagalumes e a controlar a escama e evitar a combustão, cantando…

Pois é, aí que a história se QUEIMA!

Um drama de sobrevivência que poderia ser retratado de forma crua, visceral e niilista, aos moldes de A Estrada de Cormac McCarthy, transforma-se numa quantidade absurda de besteirol um atrás do outro, repleto de situações das mais bobas, em um escrita arrastadíssima, sustentadas por personagens nada interessantes e forçadamente carismáticos, principalmente a enfermeira Harper, de comportamento infantilóide, fã confessa de Mary Poppins e Harry Potter, fazendo com que se tornasse uma tarefa hercúlea manter a leitura do livro pelas próximas 250 páginas, pelo menos.

A segunda metade do livro, ou seja, depois de 300 páginas viradas, melhora um pouco se você já não tiver desistido, quando surge um dedo de conspiração, toques de suspense, luta pela sobrevivência, e o degringolar da comunidade, mesmo podendo se prever desde a primeira página em que eles são apresentados na trama, uma óbvia inclinação a se tornar uma seita ao melhor estilo Jim Jones.

Problema é que Hill simplesmente preferiu desviar do caminho de um thriller perturbador, para apostar no fantástico, que resulta num sentimento de vergonha alheia exacerbada quando passa a explorar superpoderes pirocinéticos, ao melhor estilo X-Men, que vai pouco a pouco, tirando a credibilidade da leitura junto de situações canhestras, até chegar a um terceiro ato tosco e seu final piegas até dizer chega, com resoluções e saídas tão clichês e óbvias de forma tão explícita, que ao terminar, a sensação é de que você leu uma longa e cansativa redação escolar. Aliás, ferrar completamente com uma conclusão de história por conta de uma resolução simplória e maniqueísta parece estar no sangue.

Claro, o autor tem crédito, e bem, um sobrenome de peso (mesmo que não o use), o que no mercado editorial lhe dá todo o direito do mundo de escrever um romance tão ruim (aliás, o segundo, porque seu debute, A Estrada da Noite, também é duro de engolir), uma vez que até o pai anda errando feio ultimamente. O problema é que Mestre das Chamas TORRA a nossa paciência pelas suas escolhas narrativas completamente erradas e um desenvolvimento muito mal aproveitado, que cairá facilmente no ostracismo literário.

Uma pena, que Joe Hill tenha QUEIMADO uma ideia tão boa…

Ficha técnica: 

Joe Hill – Mestre das Chamas (The Fireman) – 2017

Tradução: Fernanda Abreu

Lançamento no Brasil – 2017

Editora Arqueiro


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *