Bibliofobia #37 – Amityville

O livro que deu origem ao quiprocó todo


Para mim, o que existiu nesta casa, foi com certeza de natureza negativa. Não teve nenhuma relação com alguém que em outras vidas caminhou na terra em forma humana. É algo que surgiu das entranhas da terra.

 

A hoje investigadora paranormal superstar Lorraine Warren foi quem deu essas aspas ao visitar a famigerada residência localizada no 112 da Ocean Avenue, também conhecida como a mais famosa casa mal-assombrada de todos os tempos, palco do brutal assassinato perpetrado pelo jovem Ronald DeFeo Jr., responsável por matar sua família com uma espingarda na noite de 13 de novembro de 1974.

Segundo o assassino, ele estava apenas seguindo a orientação de uma voz misteriosa que ordenou a mortes…

Treze meses depois, por uma bagatela de apenas 80 mil dólares, George e Kathleen Lutz se mudam para o endereço, e esse é o ponto de partida para Amityvlle de Jay Anson, sem dúvida um dos mais famosos clássicos da literatura de horror, responsável por inspirar uma extensa franquia cinematográfica, cujo última empreitada nas telas, é o recém-lançado Amityville: O Despertar, em cartaz nos cinemas brasileiros.

Anson retrata numa narrativa fácil e ágil, sem rebuscagem, que prende a atenção do leitor, os estranhos acontecidos com a família, as atividades paranormais da casa e a influência maligna nos Lutz, principalmente no comportamento de George, que vai se tornando mais violento e disfuncional para com sua esposa e enteados.

Interessante a escalada de suspense, com o autor mostrando o degringolar daquela família, seu desespero, o aumento da ousadia das aparições em diversos cômodos, e o sentimento de angústia, provação, impotência e descontrole, apesar de usar recursos de narrativa repetitivas vezes e muitas delas, bem superficiais. Digamos que é uma leitura bem pop.

Alguns momentos clássicos da história cinematográfica original, Terror em Amityville, lançado em 1979, estão lá, familiarizando ainda mais o leitor com a sequência de acontecimentos, como a expulsão do padre Callaway ao tentar benzer a casa, o desaparecimento do dinheiro do casamento do irmão de George, os fenômenos de poltergeist e aparições de Jody, ainda mais em sua manifestação como um imenso porco visto pela janela da casa.

Mas sem dúvida nenhuma, o que mais chama a atenção da obra é o eterno debate e controvérsia sobre o tema, uma vez que Anson sempre alegou que o longa era baseado em fatos reais, tendo os Lutzes corroborando o que acontecera durante aquele quase um mês terrível como residentes na fatídica casa do condado de Suffolk. Mas muita gente depois veio a público desmenti-lo.

Inclusive o próprio DeFeo disse em depoimento futuro, que na verdade a história era um embuste inventado por Lutz, Anson e seu advogado no caso, William Weber: “Amityville é uma farsa que Weber e os Lutzes criaram para ganhar dinheiro. Começou quando meu julgamento ainda estava acontecendo”. Bom, vale dizer que mais tarde, da própria boca de Weber, saiu a seguinte frase para a revista People: “Eu sei que esse livro é inventado. Nós criamos essa história de terror com a ajuda de muitas garrafas de vinho”.

Até o padre Percoraro, o sujeito real oficial que supostamente foi visitar à casa, afirmou em depoimento no caso de processo que os Lutzes moveram contra Weber no final dos anos 70, que o único contato que teve com a família foi por telefone, apesar de tempos depois o próprio entrar em contradição em uma entrevista filmada (a única que deu na vida) para o programa  In Search of, apresentado por Leonard Nimoy, no início dos anos 80, no qual aparece com o rosto coberto, tipo aquelas denúncias do Fantástico com câmera oculta.

George Lutz, por sua vez, até hoje não arreda o pé de sua história da casa de fato ser mal-assombrada, incluindo aí entrevistas mais recentes, como o documentário The Haunting and Amityville: Horror or Hoax, do History Channel, lançado em 2000, “comemorando” os 25 anos do caso.

E claro, a DarkSide Books, que não é boba nem nada, colocou no material promocional da republicação do livro no ano passado a frase famosa “baseado nas experiências sobrenaturais reportadas pelos Lutz durante o mês de dezembro de 1975”. O lançamento coincidiu com uma nova menção cinematográfica do caso no prólogo de Invocação do Mal 2 e a consequente alta do tema Ed & Lorraine Warren. Aliás, em detrimento do marketing falso – compreensível, já que é usado para vender o livro há quatro décadas e sensacionalismo sempre chama a atenção – o tratamento que a editora carioca deu para o livro é mais uma das amostras da sua preocupação gráfica com seus lançamentos.

Pano para manga para essa história é o que não falta, e só aguça ainda mais a curiosidade sobre o caso e torna Amityville e uma leitura obrigatória do gênero.

Ficha técnica:

Amityville – Jay Anson – 1977

Tradução: Eduardo Alves

Lançamento no Brasil – 2016

Editora DarkSide Books


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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