Bibliofobia #38 – As Perguntas

Suspense e ocultismo em pleno centro de São Paulo


Em As Perguntas, o escritor gaúcho Antônio Xerxenesky mescla o tédio da vida cotidiana nas grandes metrópoles com o misterioso lado oculto da vida e morte. O livro de terror, lançado em agosto pela editora Companhia das Letras, é o terceiro romance do autor, que consegue unir, em menos de 200 páginas, alguns dos clichês do gênero, como rituais secretos, ocultismo, e jovens perdidos no meio disso tudo, porém de maneira completamente original e bem construída. Considerado um dos 20 melhores jovens escritores do país em 2012, nos entrega uma história enxuta, porém bem pessoal e realista.

Alina, a personagem principal, é uma moça que leva uma vida como a maioria de nós: Chegando na casa dos trinta, trabalha como editora de vídeos numa agência, emprego que detesta e aguenta apenas para poder pagar os boletos e comprar as brusinha, já que não encontra nada na área em que é formada. Quando criança, tinha certa mediunidade desenvolvida, via vultos e presenças que ninguém mais notava. Talvez por conta disso, mesmo que inconscientemente, tenha se interessado por estudar ocultismo, mas de maneira acadêmica, sendo doutoranda em História das Religiões. Porém com o passar dos anos foi se tornando completamente cética.

Por morar sozinha em São Paulo, longe de sua família e do sul, sua terra natal, sua vida se resume a muitas horas de trabalho e pouco contato com amigos. Vivendo naquele espiral depressivo que acomete tantas pessoas nos dias atuais, ela reúne forças para sobreviver a monotonia cotidiana. Certo dia, recebe a ligação de uma delegada, interessada em seus conhecimentos na área religiosa, uma vez que a polícia investiga uma possível seita que está ligada ao desaparecimento de muitas pessoas na cidade. Mesmo não tendo muitas informações sobre o caso, Alina decide investigar por conta própria, vendo nisso uma chance de sair da rotina e vivenciar de pertinho tudo aquilo que ela só conhecia da teoria.

Apesar do tema central da história ser o ocultismo, o livro é totalmente dramático, mostrando o impacto da sociedade moderna no jovem adulto. A personagem central tem problemas totalmente plausíveis, como a vida financeira desestabilizada graças ao capitalismo, o ambiente urbano carregado e hostil, a correria e comodismo do dia-a-dia, e o abalo psicológico que as cobranças sociais trazem. Além de lidar com a solidão, também carrega consigo os traumas que a perda de um ente querido lhe causou, e a maneira como ela, uma pessoa sem fé, encara isso aumenta ainda mais sua instabilidade emocional, e faz com que busque incessantemente por respostas para suas indagações pessoais sobre a morte e o luto.

Os fãs de horror vão se deliciar com as referências ao universo do cinema, já que Alina é apaixonada por filmes, tendo a obra prima Suspiria, de Dario Argento, como seu favorito. As citações ao cinema de horror europeu são inúmeras, pois a personagem explora a filmografía de Lucio Fulci, Sergio Martino, Jesús Franco e Mario Bava. Esse interesse, aliás, é o que a move em sua graduação a optar por estudar os caminhos tortuosos da bruxaria, do satanismo e oráculos num geral, mas sempre de maneira descrente, totalmente alheia aos episódios de mediunidade da infância, que hoje, já adulta, ela acredita piamente serem problemas de ordem mental.

A linguagem utilizada por Xerxenesky é de fácil entendimento, o que torna a leitura totalmente fluida e rápida, e até mesmo quando, lá pela metade do livro a narração passa a ser contada na primeira pessoa, o ritmo se mantém. O suspense vai crescendo conforme Alina se vê envolvida na seita, porém o livro acaba de uma maneira abrupta, deixando em aberto as possíveis resoluções para o caso.

Como o próprio autor diz, em uma entrevista: “O livro se chama ‘As Perguntas’ e não ‘As respostas’ por um motivo muito óbvio: a protagonista (e o autor) não encontraram respostas para quase nenhuma das perguntas feitas ali sobre vida e morte.” Cabe aos leitores imaginarem e encontrarem suas próprias conclusões para a história e, porque não, para seus próprios questionamentos da vida (e também da morte).

Ficha técnica:

Antônio Xerxenesky – As Perguntas

Lançamento no Brasil – 2017

Editora – Companhia das Letras

 


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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