Bibliofobia #39 – O Escravo de Capela

Às vezes, a morte é melhor, já diria o poeta


Que o folclore brasileiro é muito vasto e cheio de histórias assustadoras a gente já sabe. Que essas histórias rendem pano para manga e foram pouquíssimas vezes exploradas pelo gênero em nossa literatura e/ou cinema, a gente também já sabe.

Por isso, acima de tudo, é louvável o trabalho de Marcos Debrito em O Escravo de Capela, novo livro do autor de Condado Macabro, lançado pela Faro Editorial.

Esqueça Monteiro Lobato e afins, pois aqui Debrito pega a lenda do Saci – aproximando-se da tradição oral contada por nossos avós e bisavós interioranos – e traveste de uma violência ímpar, colocando a criatura de uma perna só chegada numa traquinagem no papel de um escravo brutalmente assassinado e mutilado que ressurge do além-túmulo por meio da feitiçaria africana em busca de vingança regada a muito sangue.

Porém, como uma boa história de terror, O Escravo de Capela mostra horrores muito maiores que o sobrenatural e as cenas narradas de forma gráfica, sendo um retrato cruel de um dos períodos mais infames do Brasil Colônia: a escravidão.

O pano de fundo, que mete muito mais medo que qualquer assombração – ainda em tempos de recentes relatos chocantes do tráfico de escravos na Líbia – traz a maldade humana em primeiro plano, quando negros eram colocados em grilhões e forçados a trabalhar sob a ameaça da chibata no canavial da Fazenda Capela, dos execráveis Cunha Vasconcelos.

Liberdade roubada, tortura, condições insalubres de existência, trabalho impiedoso e doutrinação forçada para esquecer seus “hábitos e religiões selvagens”, são algumas das barbáries sofridas pelos escravos que residiam apinhados naquela senzala e passavam o dia sob o sol escaldante colhendo cana.

A chegada de Sabola Citiwala irá causar uma reviravolta em Capela, quando em uma tentativa de fuga, auxiliado pelo velho Akili – brutalmente aleijado em uma frustrada fuga anos atrás –  é capturado, torturado, tem uma perna amputada e é morto com um sudário de sangue cobrindo sua face, substituindo o pueril gorro vermelho, marca registrada do Pererê. O cadáver putrefato retorna dos mortos para uma terrível vingança contra os capatazes e o Senhor de Engenho responsáveis pelo seu assassinato, cavalgando em uma versão torpe e zumbificada da Mula Sem Cabeça.

Em paralelo, Debrito prende a atenção do espectador com um escândalo familiar mantido em segredo entre os Cunha Vasconcelos, a cisma entre os irmãos Antônio e Inácio – um, sanguinário feitor que espuma maldade e desprezo pelos negros, enquanto o outro, formado em medicina em Portugal, possui ideias abolicionistas – e uma paixão secreta entre esse último e a bela escrava Damiana.

Todo esse emaranhado faz o espectador devorar as páginas do livro, construído quase de maneira cinematográfica onde as imagens de um filme vão se projetando na cabeça do leitor – experiência que Debrito traz como diretor e roteirista, por isso a facilidade da transição narrativa – para chegar a um tremendo plot twist em seus momentos finais, mostrando que a vingança é muito mais insidiosa e maquiavélica do que se parece de princípio.

Talvez esse seja o único ponto fraco do livro, o quanto, até por Debrito ser familiarizado com essa veia cinematográfica, os últimos capítulos tornam-se desnecessariamente didáticos, quase ao estilo de um vilão de James Bond contando todo seu plano mirabolante de forma mobral, quando muito poderia se deixar subentendido, afinal seu próprio desenrolar já deixa as peças no lugar de forma óbvia, sem a necessidade de julgar tanto a capacidade reflexiva do leitor. Mas ao mesmo tempo, o álibi do escritor é exatamente o fato de ultimamente, o cinema e a literatura de gênero terem sido entregues à preguiça do público mediano que o consome.

Mas, nada que atrapalhe a leitura, e sendo assim, O Escravo de Capela é um livro fluido, envolvente, que não tem medo de pegar pesado, meticulosamente escrito, mostrando uma preocupação do autor aos costumes, crenças, linguagens e trejeitos do Brasil do Século XVIII, e que não só pede, mas IMPLORA por uma adaptação cinematográfica, unindo assim duas mídias em constante crescimento de qualidade: o cinema e a literatura de terror tupiniquins.

Ficha técnica:

O Escravo de Capela – Marcos Debrito

Lançamento no Brasil – 2017

Editora – Faro Editorial


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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