Bibliofobia #40 – Trilogia A Passagem

Os livros dos vampiros virais de Justin Cronin transitam entre o sensacional e o medíocre


Um futuro apocalíptico onde a humanidade foi praticamente dizimada por uma raça de vampiros virais, criados a partir da mutação de um patogênico encontrado em morcegos por uma equipe científica em expedição na floresta tropical da Bolívia, no intuito de transformar doze prisioneiros condenados à morte (ou seja, o pior de sua espécie) em cobaias de um experimento que almeja descobrir a vida eterna, mas dá miseravelmente errado.

Essa é a premissa da trilogia A Passagem, escrita pelo autor americano Justin Cronin e publicada no Brasil pela Editora Arqueiro, que consiste na boa e velha batalha pela sobrevivência da humanidade em um mundo distópico, destrinchada em três volumes: A Passagem, Os Doze e A Cidade dos Espelhos.

Misturando elementos de terror, suspense, ação e ficção científica, e dando uma repaginada no conceito de vampiros para se aproximar de uma narrativa mais próxima às hecatombes zumbis que estamos tão acostumados, provavelmente a obra de Cronin é uma das mais bipolares sagas literária que eu já li em toda a minha vida.

Erráticos, os livros mesclam entre ideias, conceitos, desenvolvimento de personagens e momentos sensacionais, com tantos outros medíocres, enfadonhos, soluções faceiras, amontoados de clichês, breguice e tantos e tantos de páginas completamente desinteressantes. Chega a impressionar como o escritor consegue se balançar tanto nessa corda bamba, mas eu acredito que o motivo seja a extensa quantidade de páginas tentando esticar uma história em três livros, nessa época em que trilogias parecem ser uma regra.

O primeiro livro, A Passagem ainda é o melhor de todos, principalmente por trazer o frescor da história e do desenvolver do enredo na cabeça do leitor. Começa com o experimento ultra-secreto chamado “Projeto Noé” sendo realizado nesses doze sujeitos de altíssima periculosidade, condenados à morte, a partir de uma cepa do vírus extraída do único sobrevivente da expedição da Bolívia, o paciente “Zero”, o Professor Tim Fanning, e numa garotinha, Amy Harper Bellafonte, órfã criada em um convento, que viria a desenvolver uma mutação da mutação do vírus, e num futuro distante, se tornaria a única arma contra os virais.

Metade do primeiro livro é dedicado ao presente, na fuga de Amy com o ex-agente do FBI, Brad Wolgast, que outrora era o responsável por levar esses condenados até a instalação militar, e como a humanidade vai rapidamente para o vinagre, com a infecção fora de controle perpetuada pelos Doze, ao escapar do complexo e começar a transformar todos em seus servos, dotados de extrema agilidade, força e violência, além de claro, fotossensibilidade, unidos em uma espécie de link mental com seus criadores, tendo Zero por trás de toda maquinação terrível

Elipse temporal, a segunda metade se passa 93 anos após as infecções, como os EUA virando terra arrasada, e segue uma isolada colônia de sobreviventes auto suficientes vivendo na Califórnia, em uma vilarejo cercado por um muro com potentes lâmpadas que impede a chegada das criaturas durante a noite. Até que Michael, apelidado Circuito, um dos técnicos do local, descobre que cedo ou tarde as baterias irão acabar e eles precisam encontrar recursos para manter as luzes funcionando, o que colocará um grupo de Expedicionários em uma missão de busca, e os fará se deparar com Amy e tretar com um dos vampirões-mor.

Já o segundo livro, Os Doze, é uma completa perda de tempo de leitura. Fraquíssimo, é interessante apenas seu primeiro ato, onde ele volta ao passado e retoma a luta de algumas pessoas tentando sobreviver logo após a pandemia se espalhar, entre elas, a ex-esposa grávida de Wolgast, que irá dar origem a um quiprocó lá no futuro, completamente descartável, em uma trama que desemboca em uma cidade no Texas feita de refém pelos virais, que criam humanos como gado para se alimentarem, em um regime opressor. Ainda há uma subtrama de grupo de rebeldes que deseja organizar um contra-ataque, que traz alguns lampejos interessantes, mas só.

Há uma daquelas batalhas épicas no final do livro, com uma cacetada de consequências – incluindo a destruição dos vilões pelas mãos de um poder meio de Fênix de Amy (exceto por Zero), em um ritual de suposto sacrifício – que irá desembocar no terceiro e último livro, A Cidade dos Espelhos, que se sai narrativamente muito melhor que a segunda parte, e trás nele, sem dúvida alguma, o momento mais brilhante e bem escrito da trilogia: o desenvolvimento do background de Fanning, trazendo a história de seu passado, como ele se meteu naquela expedição da Bolívia e se tornou a criatura vil que arquitetou a destruição de toda a humanidade, tudo por conta, claro, de uma amor perdido. Afinal como ele mesmo diz: toda história de ódio tem uma história de amor por trás.

Com outro salto temporal, agora já são 20 anos depois da destruição dos Doze, a humanidade começa a esquecer os virais, voltar a tentar colonizar os EUA e expandir as colônias, Peter Jaxon, um dos heróis daqueles tempos se torna o Presidente, enquanto Fanning pacientemente espera em uma Nova York desolada, o bote final para destruir a porra toda de uma vez. Enquanto isso, Michael, ele de novo, por meio de uma daquelas coceirinhas no cérebro e a visão premonitória de um amigo, descobre que logo menos as criaturas vampíricas irão voltar e eles precisam restaurar um navio escandinavo e partir para as ilhas do Pacífico, local supostamente seguro e longe das criaturas, tudo naquela famosa corrida contra o tempo enquanto o ataque final se desenrola.

Entre narrativas de idas e vindas temporais, infelizmente A Cidade dos Espelhos termina de forma bem das piegas, quase patética, o confronto final entre humanos x virais bem dos chulos, e ainda dá tempo para outro flash forward para o futuro, 900 anos depois da infecção, com a humanidade reconstruída e em vistas de retornar mais uma vez ao continente americano, misturando aí uma baboseira pseudo-científica e religiosa em quase mais cem arrastadas páginas de onde o livro deveria ter terminado, que deveriam ter ficado na lata do lixo da sala do editor e nos poupar da leitura.

Como destaquei, esses altos e baixos da trilogia A Passagem são fruto de três extensos livros, com muita encheção de linguiça, dramas pessoais canhestros e situações repetitivas, que tornam a leitura uma verdadeira luta pela sobrevivência – tão ferrenha quanto da humanidade contra os virais. Eu, por exemplo, sem maldade, levei quase quatro anos para terminar de lê-los, intercalando entre outras leituras e o lançamento da última edição no Brasil.

Ainda assim, há conceitos muito interessantes nos livros, que acabam no seu entorno, subaproveitados. Mas sempre há uma esperança, e nesse caso, a tão aguardada série baseada na obra de Cronin, que vem há tempos sendo ventilada – primeiro seria uma trilogia de filmes dirigida por Ridley Scott, depois produzida por ele e dirigida por Matt Reeves, e agora, a versão televisiva, que deve funcionar muito melhor.

Com seu piloto já em produção (dirigido por Reeves, detalhe), tomara que consiga filtrar alguns elementos da história, separando o joio do trigo, e poder extrair ao máximo todas as coisas boas e eliminar a patifaria, em outra mídia mais ágil. Mas para ficar no campo do tema “vampiros virais em séries de TV”, rezemos que não seja a BOMBA resultado de outra trilogia da mesma seara, The Strain, baseada nos livros de Guillermo Del Toro e Chuck Hogan, que traz um conteúdo similar.

Aliás, se você estivesse lidando com um apocalipse iminente e tivesse que entre escolher entre apenas uma das duas trilogias literárias para levar consigo para ler, recomendo muito mais a obra de Del Toro e Hogan, em detrimento dos livros de Cronin.

Ficha Técnica:

A Passagem / Os Doze / A Cidade dos Espelhos

Justin Cronin

Editora Arqueiro


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

4 Comentários

  1. Roberto Vasconcelos Eluan disse:

    Eu ainda não li os livros, mas curti a série The Strain. Dá umas barrigadas lá da 3a temporada em diante, mas entregou um final redondo.

  2. justasiamcowboychurch disse:

    Como o golpe dos corruptos do bem,antarelos(antas+amarelos,segundo Wellington Calsans),manifestoches da escola campeã do carnaval de 2018 do Rj,o golpe deu erradíssimo graças a Deus,nós do campo democrático,que temos orgulho de sermos sulamericanos,nacionalistas,nós estamos muito bem na foto apesar da perseguição covarde dos Estados Unidos e seus ratos aqui no Brazil x Lula. Vamos ganhar as eleições em outubro sem dúvida nenhuma com a chapa Lula/Rui Costa Pimenta. Fora isso,como conheço a querida Manaus muito bem onde morei 11 maravilhosos anos e que na verdade é um entreposto do Rj,Ceará e o Flamengo,Vasco,Botafogo e Fluminense são os donos do pedaço,aposto que Artur Neto,prefeito de Manaus,não queria prévias contra o medíocre Geraldo Alckmin coisa nenhuma.Como ele mesmo disse,não tinha chance nenhuma contra a poderosa máquina oligárquica paulista do PSDB. O que Artur Neto quer é projeção para voltar a ser senador improdutivo como foi no tempo dele,muito provavelmente tentar a última chance pare ser governador do Amazonas coisa que nunca conseguiu vindo de uma família tradicional da política amazonense ou tentar eleger o medíocre filho dele para sucessão dele em 2020. Esse cara só não é mais perigoso que os mega corruptos Serra,Aécio Neves,Geraldo Alckmin,o nefasto FHC e cia,porque a máquina do PSDB corrupto nacional não está na mão dele.

  3. Rejanedrumond disse:

    Valeu Obrigado.

  4. cynik disse:

    Na vida pr ática os medíocres quando alcançam o poder vão ao ponto de levar à frente e destruírem tudo quanto tem valor para garantirem os lugares de poder. Pinto Monteiro foi apanhado pelo grupo de medíocres alapados nas Associações que usaram desse poder para aliciar outros medíocres e jogarem o jogo da tomada de poder por dentro. E aos medíocres, por simpatia de mediocrecidades, juntam-se outros medíocres instalados em altos poleiros como foi o caso notório de Cavaco que além de medíocre era mesquinho, medroso, sonso, vingativo e desconfiado o que o tornava facilmente manipulável. O Palma serviu-se disso para ser recebido em Belém quando queria ou entendia fazer acusações em segredo de colegas por manipulação directa do palerma Cavaco. E quem se opunha regendo-se pela Lei e por princípios democráticos era enterrado vivo na praça pública no tandém entre Associações de magistrados e “cm. Até aqui têm ganho o 1º round mas nada assegura que continuem ganhando ou ganhem mesmo o 2º. Parece, vamos ver, as artimanhas (ver caso Centeno) já por si vão ficando com rabos de fora e o modus operandi é cada vez menos convincente o que faz desconfiar o pagode. E à medida que perdem credibilidade todos os medíocres vão tornar-se mais assanhados. Vamos certamente notar tal nos próximos capítulos da “justiça do MP.

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