Bibliofobia #41 – Narrativas do Medo

Antologias de horror à brasileira


Organizada pelo autor e jornalista carioca, Vitor Abdala (mesmo de Tânatos e Macabra Mente), Narrativas do Medo reúne 18 contos paridos por algumas das mais efervescentes e criativas mentes do terror moderno nacional, dando um baita orgulho de mais um produto de respeito da literatura de horror brazuca.

A miscelânea entre os autores é o que engrossa o caldo da compilação, uma vez que entre os escritores, temos desde autores já consagrados, como o próprio Abdala, Marcos DeBrito, Rô Mierling, Marcus Barcelo e Cesar Bravo, à cineastas, como Petter Baiestorf, quadrinistas, como Rodrigo Ramos, e até famosos no YouTube, como Daniel Pires, do Lenda Urbana e Alexandre Callari, do Pipoca e Nanquim.

Passeando do mais puro horror gráfico, pelo sobrenatural, gótico, fantástico, humor negro e até pelo lírico, Narrativas… expõe as vísceras do medo com diversidade, mas claro, como em toda antologia, existe certa irregularidade entre seus contos, trazendo algumas das mais incríveis histórias curtas nacionais que já tive o prazer de ler, e outras fracas e menos inspiradas, até descartáveis.

Mas tudo dentro do conforme, afinal, seria praticamente impossível aglutinar 18 contos em que todos eles fossem obras primas e capaz de agradar o gosto de todos os leitores.

O mais interessante de Narrativas no Medo, é você conseguir pescar todas as referências que os autores apresentaram para desenvolver suas curtas e esquemáticas pequenas obras pautadas na arte de amedrontar o público e lhe garantir o deleite do susto final. Essa miscigenação cultural, oriunda de escribas espalhados pelos quatro cantos do país, dão aquele tempero único para o volume, retratando o horror em suas diversas formas e diferentes realidades.

Não faltam alusões aos grandes nomes da literatura fantástica, como os poemas de Edgar Allan Poe no conto “Soturno”, de Marcos DeBrito; o horror cósmico de H.P. Lovecraft em “Necrochorume”, de Duda Falcão; a paródia ao Stephen King em “Malditos Palhaços”, de Alexandre Callari; ou mesmo, uma quase versão brasileira de Cormac McCarthy em “Sobreviventes”, de Melvin Menoviks; ou a luxúria e o sadomasoquismo sexual de Clive Barker em “As Moscas Dormem de Madrugada” de Flavio Karras.

Mas também é interessante perceber nítidas influências cinematográficas no texto, como o excelente conto “Yaoguai”, de Geraldo de Fraga e sua pegada à la John Carpenter; o cinema zumbi travestido de crítica social à truculência policial em “Gás Lacrimogênio” de Abdala; e o trash escrachado e nonsense ao melhor estilo Troma de “Mundo em Fúria”, de Baiestorf.

E fora, algumas pitadas de causos, lendas urbanas, folclores e religiosidade tipicamente brasileiros, o que sempre é um alento por exatamente transpor nossas mazelas, temores e ansiedades às páginas. Destaco o pacto com o diabo feito por um violeiro sertanejo em “Sete Cordas”, de Márcio Benjamin; a violência do sistema penitenciário e a tentativa de absolvição pela falha fé evangélica, no MELHOR conto do livro, o brutal “Agouro” de César Bravo; ou a crise de culpa da pedofilia católica, em “Penitência”, de Rodrigo Ramos.

De leitura rápida e fácil – eu mesmo devorei em apenas dois dias de leitura – Narrativas do Medo te convida a essa jornada assustadora por múltiplos pontos de vista de autores nacionais com ideias em ebulição, que a cada ponto final, sua motivação é lhe deixar receoso ao apagar a luz antes de dormir. Aguardando ansioso pelo segundo volume!

 

Ficha técnica:

Narrativas do Medo

Ano de lançamento: 2017

Autores: Vários

Editora: Autografia


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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