Bibliofobia #43 – Assombrada BR

A highway to hell de M.R. Terci


A BR-116, que com seus 4.513km de extensão corta todo o Brasil e liga Fortaleza ao Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai, é conhecida como a Rodovia da Morte. Com um nome inspirador destes e atolado na gana de contar histórias sangrentas sobre a estrada e seu entorno, o incansável escritor M.R. Terci resolveu queimar a borracha do pneu no asfalto e pegou sua caranga, peregrinando por vários pontos da principal rodovia brasileira a fim de buscar inspiração e “causos reais” para escrever Assombrada BR, primeiro livro de sua mais nova trilogia e, talvez, um documentário futuro.

Lançado originalmente como uma série de e-books na Amazon, contando com uma coletânea de contos de diversos autores brasileiros, Terci compilou a parte que lhe cabe nesse latifúndio literário em um único volume, transformando-o em uma novela que é uma verdadeira viagem ao inferno, misturando sobrenatural, lendas urbanas, pactos com o diabo, vampiros, licantropos, assassinatos, chacinas e uma gangue de motoqueiros ao melhor estilo Sons of Anarchy from hell, que confere a Assombrada BR uma narrativa meio Stephen King, meio Quentin Tarantino.

Incansável e dono de uma imaginação febril e uma escrita poderosa, como bem já vimos nos tomos de O Bairro da Cripta, Terci não apenas passou por todos os pontos citados em sua história, como acampou em cada um deles, durante 40 dias e noites pela estrada, e ao melhor estilo Jack Kerouac ou Hunter Thompson – mas com a veia do horror saltada – fez entrevistas com locais, reuniu dados, captou elementos que servissem de inspiração para fortalecer as pequenas histórias interligadas, no intuito de narrar os fatos que geraram as lendas e crendices de cada um dos ditos lugares malditos que são palcos de Assombrada BR.

Ao coligir algumas lendas, tipo o chacal que vaga pela estrada (uma espécie de lobisomem parecido com hiena), o diabo pedindo carona, possantes carros mal-assombrados, uma fenômeno paranormal além-túmulo conhecido como Milha Assombrada que é quase um portal dimensional, ou uma cabine de pedágio que serve de passagem para o mundo dos mortos, ele foi estabelecendo ganchos que ligavam o mesmo enredo para criar não uma antologia, mas uma ficção de narração entrecortada, onde é impossível não visualizar o livro como a primeira temporada de um seriado de televisão.

Fica a dica aí, Netflix BR!

Agora o que dá a verdadeira liga é a mistura frenética de satanismo, vingança e violência gráfica desmedida, misturados com histórias de amor e lealdade, a fim de ressaltar o elemento humano na estrada. E no epicentro de todos esses acontecimentos, que dá agilidade e um toque de ação ao livro, estão os Facas Longas, gangue de motociclistas seguidores do Chavelhudo, criados baseados nos assaltos constantes à caminhoneiros em toda a BR-116.

Aventurando-se pelo mundo fora da lei na estrada, montados em suas Harley envenenadas, vestidos em coletes, tomando uísque e ouvindo rock ‘n’ roll, os motociclistas seguem as liturgias de um profano Livro da Estrada ao fazerem um pacto com o Capiroto (a cena da orgia dos sacrifícios dessa comunhão faz escorrer sangue pelas páginas no colo do leitor) e se deparam com os acontecimentos bizarros e sobrenaturais que vão guiando sua sorte, enquanto seus destinos fazem intersecção com um interessantíssimo rol de personagens da rodovia longitudinal como Benê das Raparigas, um garoto que resolve fugir de casa, um marido que assassinou a esposa e está levando o corpo para desovar em uma velha propriedade da família, um motorista de ônibus que tira a vida da garçonete beira de estrada amor platônico, e um livreiro bipolar (onde em seu segmento, Terci bota no papel toda sua genialidade como autor), entre tantas outras figuras.

Em  seu final, Terci mantém a curiosidade e expectativa do leitor na estratosfera, abrindo terreno para o segundo livro da série, Demoníaca BR, e posteriormente, o fim da trilogia em Monstruosa BR, ambos sem previsão de lançamento, onde o escriba prometeu uma guerra santa e que irá tornar a situação de todos os envolvidos naquela extensa quilometragem de asfalto, acostamentos e guardrails, ainda pior.

Assombrada BR é uma empreitada de sangue, morte, pólvora, lâminas, profanação e piche de tirar o fôlego, não recomendado como leitura da viagem de ônibus pelas autopistas do país.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

2 Comentários

  1. Davidson Silva de Abreu disse:

    Grande Terci. Tive a honra de ser convidado e participar com dois contos de minha autoria.

  2. Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos disse:

    Escrevi um conto pra versão online envolvendo a lenda dos palhaços que roubavam órgãos e rodavam por aí na famosa kombi azul. Foi um prazer!

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