Bibliofobia #43 – O Assassino do Zodíaco

Distopia astrológica repleta de suspense


Em tempos modernos nos quais vivemos, certas ciências mais antigas acabam sendo vistas com mal olhos, tidas com antiquadas, arcaicas. Apesar de muita gente ainda acreditar na astrologia, uma enorme parcela do mundo vê essa pseudociência de forma jocosa, em tom de brincadeira, como algo que não pode ser levado a sério.

Com a banalização dos horóscopos, onde vemos pessoas que literalmente credita toda sua personalidade aos astros e suas posições, e na enxurrada de memes sobre astrologia, é normal que muita gente tenha adquirido certo ranço do assunto. Afinal, como acreditar em algo que é veiculado por estagiários em jornais por todo o país, sem o menor respaldo científico e vira e mexe vira piada na Internet? Por outro lado não é raro vemos, por exemplo, empregadores buscando funcionários de determinado signo, justamente levando em consideração suas qualidade e defeitos. Apesar do absurdo, não é comum vermos pessoas menosprezando outras, mesmo que na brincadeira, apenas pelo seu signo solar.

Agora imagine viver num mundo onde as pessoas não são apenas julgadas pelo seu signo, como também separadas socialmente? Em O Assassino do Zodíaco (sem ligação com o histórico serial killer que nunca foi pego, ok?) a sociedade é totalmente segregada pelos astros, que ditam onde você deve morar, com quais pessoas se relacionar, qual carreira seguir, baseando-se pela posição do Sol no momento de seu nascimento. Quase uma essência de mistura entre Admirável Mundo Novo, O Conto da Aia com Black Mirror.

Em San Celeste, onde a trama se passa, até mesmo as classes sociais são induzidas pelo horóscopo. Por exemplo, os Capricornianos são detentores de boa parte das fortunas do mundo enquanto os Arianos são marginalizados e forçados a viver na linha da miséria, e é nessa distopia em que um assassino em série começa a fazer suas vítimas.

O detetive Jerome Burton, taurino e teimoso (assim como toda a força policial da cidade) se vê às voltas de um crime bárbaro que resultou no homicídio do chefe do departamento, além do sequestro de uma diarista, única testemunha ocular que pode identificar o assassino. Como o assassinato demonstra ter ligações com o elemento do signo do policial assassinado, Burton decide, apesar de sua incredulidade, solicitar a ajuda de uma astróloga forense, Lindi Childs, que é especialista em traçar perfis criminais baseando-se nos astros.

Paralelo a isso, vemos a história de Daniel, um jovem de família abastada que acaba de descobrir que é pai de uma jovem, fruto de uma relação descompromissada no passado, filha essa que seu pai, empresário milionário, fez questão de encobrir a existência. Decidido a encontrar a jovem, Daniel começa a investigar o último lugar onde ela esteve, um internato chamado Academia Dos Signos Verdadeiros, onde os diretores utilizavam de métodos pouco ortodoxos para estimular as características dos signos dos alunos.

Nesse meio tempo, mais vítimas vão surgindo, sempre com as mortes ligadas com os elementos de cada signo. Burton e Lindi vão entrando cada vez mais num espiral de politicagem, corrupção e violência, até seu desfecho final, com a revelação do serial killer, algo que confesso ter me deixado um tanto surpresa, pois há um lapso temporal muito sutil que nos impede de descobrir a identidade do assassino antes da hora.

O livro é o romance de estreia do escritor britânico Sam Wilson (que não é o Falcão, parceiro do Capitão América), que revela ser um curioso sobre assuntos astrológicos. No entanto, foi por ter vivido boa parte da sua vida na África do Sul é que o autor trouxe todo as fendas culturais apresentadas na obra. Toda a crítica contra o racismo, desigualdade social, pobreza e, sobretudo, preconceitos, está inserida no livro, porém com o viés astrológico, numa ampla metáfora para muitos problemas da sociedade atual.

O Assassino do Zodíaco é um livro com um ritmo muito rápido, e com um desenrolar narrativo que mantém o suspense até as últimas páginas. Em nenhum momento a trama fica maçante e cansativa, ao contrário, a construção da história é muito bem feita, fazendo com que o futuro distópico seja algo tão assustador quanto o serial killer presente na história. Após a leitura, você vai pensar duas vezes antes de chamar aquele seu amigo de Satanáries!

 

Ficha técnica:

Sam Wilson – Zodiac – 2016

Tradução: Gilson César Cardoso de Sousa

Lançamento no Brasil – 2018

Editora Jangada / Pensamento-Cultrix


Niia Silveira
Niia Silveira
Francesco Dellamorte em versão feminina, mas que já leu outros livros além da lista telefônica. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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