Bibliofobia #44 – A Incendiária

Apesar do título, a trama é morna e custa a esquentar!


Já tem algum tempo que a Companhia das Letras é a responsável por publicar os infindáveis livros do autor americano Stephen King aqui no Brasil, mais precisamente pela Suma (ex Suma de Letras, que mudou de nome recentemente), um dos selos da editora que é totalmente dedicado ao terror, ficção científica e fantasia.

Essas publicações são sempre bastante atraentes, e o selo preza por sempre trazer novidades para os fãs desse tipo de literatura, como quando lançaram aquele box magnífico com todos os livros da saga A Torre Negra (que eu ainda não li, shame on me) ou quando criaram a “Biblioteca Stephen King”, uma coleção para trazer aos leitores fiéis aqueles livros do rei que estavam esgotados no Brasil. O primeiro dessa coleção foi Cujo, seguido de A Hora do Lobisomem, depois por O Iluminado e, por fim, neste ano tivemos A Incendiária

Eu já devo ter comentado aqui no 101HM o quanto eu acho a “Biblioteca Stephen King” uma sacada genial, mas agora volto a tecer elogios, porque posso, enfim, preencher algumas lacunas na minha coleção dos livros do mestre, pois A Incendiária estava há anos esgotada no Brasil, estando presente na minha estante apenas uma edição em inglês, presente de uma amiga querida. Além disso, os exemplares dessa coleção são diferentes do restante dos livros da Suma em sua diagramação, com um tamanho um pouco maior, além da capa dura com detalhes em baixo relevo, que faz com o livro seja extremamente bonito e ganhe muitos likes em fotos do Instagram (só não se esquece de ler também, beleza?)

A Incendiária narra a história de uma menina de oito anos chamada Charlie McGee que está tentando, juntamente com seu pai, Andy, salvar sua própria vida, após ter a mãe assassinada por uma organização escusa do governo, conhecida como A Oficina. Essa organização está no encalço da família McGee pois, anos antes, os pais da garotinha participaram de um experimento científico onde foram cobaias de testes com uma droga chamada Lote 6, cujos princípios ativos estimularam a glândula pituitária de alguns dos participantes do experimento, fazendo com que ambos desenvolvessem telecinesia e telepatia. Obviamente, a droga também culminou numa alteração dos cromossomos da pobre criança, nascendo detentora de fortes poderes pirocinéticos, ou seja, gerando e controlando fogo apenas com o poder da mente.

Obviamente, a Oficina tem interesses um tanto quanto questionáveis. Chefiada por Capitão Hollister, a organização quer explorar a condição da garota, em benefício do país, visando um possível potencial bélico em seus poderes, ao contrário do Dr. Wanless, médico responsável pelo Lote 6, que exige que a pobre criança seja exterminada o quanto antes, pois a considera um risco grande para a população, a medida em que ela for crescendo e adquirindo maior controle sobre seus poderes.

Após inúmeras tentativas de conseguir prender pai e filha, o capitão decide, por fim, contratar um matador frio e calculista, descendente de indígenas e com uma aparência grotesca, para dar cabo da missão. É aí que tudo começa a piorar pois o assassino, John Rainbird, desenvolve pela garota uma curiosidade que vai se transformando em grave obsessão, colocando em risco ainda mais (se é que isso é possível) a vida de Charlie e de seu progenitor.

Apesar de a trama ser interessante, o livro é um daqueles que os leitores fiéis do escritor chamam de “King menor”. Em alguns pontos a narrativa se torna um tanto arrastada, atingindo seu ponto forte mesmo lá no fim do livro, e ainda assim de forma muito rápida. Vale lembrar, no entanto, que King o escreveu em 1980, durante aquele período conturbado de sua carreira, onde o uso exagerado de drogas e bebidas ditavam as escritas. Talvez, por conta disso, a temática das histórias da época nunca era, de fato, o horror, focando mais nos dramas vivenciados pelas personagens. O livro conta com uma péssima adaptação para os cinemas, batizado por aqui de Chamas da Vingança, lançado em 1984, contando com uma pequena Drew Barrymore, que, apesar da pouca idade, já enfrentava problemas com bebidas também.

Num geral, A Incendiária é um livro morno (desculpa), com raros e bons momentos em que a coisa realmente esquenta e que a leitura chega a empolgar, mesmo faltando horror e violência. De qualquer modo, a leitura vale como experiência justamente por focar nos monstros humanos, e naqueles horrores pessoais, coisas sempre presentes nos livros do ganhador do Troféu Golden do Hall da Fama.

 

Ficha técnica:

Stephen King – Firestarter – 1980

Tradução: Regiane Winarski

Lançamento no Brasil – 2018

Editora Companhia das Letras – Suma


Niia Silveira
Niia Silveira
Francesco Dellamorte em versão feminina, mas que já leu outros livros além da lista telefônica. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: