Bibliofobia #46 – Enterre Seus Mortos

Uma mistura de western macabro com novela policial.


Ao começar um novo livro, a primeira conexão que fazemos com a história é justamente com o protagonista da trama. A ligação que temos com ele, de imediato, é o que vai ditar boa parte da maneira como vamos encarar essa leitura. Se não existe um elo de ligação entre o leitor e aquela pessoa fictícia, o interesse pela história pode dar uma diminuída. Por outro lado, quando bate aquela identificação instantânea, você simplesmente quer devorar a história de uma vez só.

Eu, particularmente, gosto de personagens densos, ricos, profundos. E essa complexidade que tanto busco, no entanto, é algo bem subjetivo e, na maioria das vezes, eu a encontro na simplicidade. Foi assim que, de cara, me encantei com Edgar Wilson, o cara que acompanhamos no livro Enterre Seus Mortos. Contudo, ele não é exatamente o mocinho, mas também está bem longe de ser um vilão. E essa dualidade toda presente na história é que faz dessa uma leitura tão rica.

Sétimo livro da escritora e roteirista carioca Ana Paula Maia, publicada esse ano pela editora Companhia das Letras, Enterre Seus Mortos é uma mistura de western macabro com novela policial e nos mostra o cotidiano do já supracitado Wilson, um homem comum que trabalha em um órgão responsável por recolher os animais que morrem nas estradas, levando-os para um depósito, onde são triturados em um grande moedor.

Ao contrário de seu colega de trabalho, o padre excomungado Tomás, que se preocupa com as pessoas que os cercam (vive distribuindo extrema-unção para as vítimas de acidentes de trânsito que encontram pelo caminho), Edgar Wilson é um sujeito simples que apenas executa suas tarefas de maneira prática e eficiente. Moradores de uma pequena cidade, abandonada pelo tempo e esquecida pela gestão pública, a dupla passa o dia todo perambulando pelas estradas, recolhendo os bichos, uma tarefa que parece interminável.

Só que as coisas começam a sair da rotina quando Edgar Wilson se depara com o corpo de uma mulher enforcada, numa mata. Já sabendo que a polícia da cidade não irá recolher o cadáver com tanta urgência, pois sofre com a falta de recursos, assim como todo o restante da população, o nosso intrépido personagem decide ele mesmo livrar a moça morta de virar comida de abutres, levando-a escondido para o depósito, e escondendo-a num freezer até que os policiais decidam o que fazer com o corpo.

No entanto, a cidade não conta com um IML, e o rabecão responsável por levar os defuntos até o legista mais próximo, que fica em outra cidade, está quebrado há dias. Pra piorar a situação os rapazes encontram mais um cadáver, dessa vez um homem, mais uma vítima das estradas perigosas da região, que prontamente também vai para o freezer até a situação se resolver.

O protagonista, no entanto, está obstinado a dar um descanso honrado para os dois corpos. Lutando contra toda a precariedade dos órgãos públicos, e o descaso das pessoas envolvidas, ele se vê em situações cada vez mais inóspitas, tudo para tentar dar um descanso para aquelas duas pessoas, já que se recusa a tratá-los como os bichos que recolhe o tempo todo. Como o título diz, se as pessoas enterrassem, de fato, seus mortos, ele não teria tantos aborrecimentos com a situação.

Edgar Wilson é um homem embrutecido pela aspereza da vida, e pelos percalços que enfrentou ao longo dela. Calado, taciturno, demonstra uma frieza em relação aos comportamentos humanos que chega a nos intrigar. No entanto, ao mesmo tempo notamos um código de conduta todo peculiar, que mostra que, por trás de toda aquela dureza, ele é um homem de princípios e muito caráter.

De certa forma, ele me lembra aquele que é meu personagem favorito do cinema de terror: Francesco Dellamorte, do italiano Pelo Amor e Pela Morte. Assim como o coveiro de Buffalora, Edgar Wilson convive muito mais com os mortos que com os vivos, graças ao seu trabalho, o que gera aquela permanente sensação de indiferença e sua conformidade em relação às intempéries da existência faz com que ele seja apenas um homem que faz o que é preciso. Tomás, no entanto, é o oposto: sempre solícito e sensível, se preocupando com tentar salvar a alma das pessoas que encontra, enquanto seu parceiro apenas se preocupa com o que sobra delas: suas carcaças.

A obra traz a volta do protagonista, que já é uma figura recorrente nos livros de Ana Paula Maia. A narrativa da autora é direta e extremamente enxuta, pois o livro apesar de bem curto, tem um história bem amarrada, sem deixar pontas soltas ou indagações. Além de conter um forte teor de crítica social, como o abuso de poder, o descaso do governo e a precariedade da saúde pública, a história também nos permite olhar para condições humanas que geralmente ignoramos em nossa vida cotidiana, como vida e morte, perda e solidão, empatia e descaso, tudo isso de maneira seca e direta, sem firulas ou rodeios, assim como a própria realidade e assim como nosso protagonista.

Como já havia adiantado no primeiro parágrafo, alguns personagens realmente fazem a narrativa fluir de uma maneira muito mais leve, mesmo que o tema central da história seja um tanto indigesto. De um modo geral, Edgar Wilson cumpriu seu papel sendo o típico protagonista que eu costumo me identificar: simples e rústico em sua essência, mas carregado de complexidade; e me acompanhando ao longo dessa jornada, fez com que Enterre Seus Mortos se tornasse, para mim, uma leitura repleta de simbolismos e questionamentos.

 

Ficha técnica:

Ana Paula Maia  – Enterre Seus Mortos

Lançamento  – 2018

Editora Companhia das Letras


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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