Bibliofobia #46 – Outsider

King volta para mais um thriller policial com um tiquinho de sobrenatural.


Uma das coisas mais incríveis da literatura, quando acompanhamos um autor ou autora com bastante assiduidade, é poder perceber as fases literárias em que eles se encontram, e como as escritas deles publicadas durante essas fases são muito semelhantes em alguns aspectos. No meu caso, Leitora Fiel® dos livros do Stephen King que sou, acho muito interessante notar as mais variadas fases da vida do escritor e como isso refletiu em suas obras.

Por exemplo, em sua fase junkie, que durou de 1979 a 1987, o uso excessivo de drogas e alcoolismo fizeram com que King ultrapassasse seus próprios limites da criação, indo além e publicando histórias homéricas e aterrorizantes, como A Coisa, O Iluminado e Cujo, sendo que o próprio já afirmou que nem ao menos se lembra de ter escrito esse último, tamanha loucuragem que o cara estava vivendo.

É claro que é extremamente doloroso perceber que seu escritor favorito teve seu auge literário numa das épocas mais danosas de sua vida, mas é vital para entendermos como funcionam essas fases do rei do horror. Aqui podemos observar o horror em suas mais variadas formas e em mais pura essência, e alguns dos personagens criados nessa época enfrentam o mesmo problema com bebidas.

Outra fase interessante que foi delimitada por problemas pessoais se iniciou em 1999 quando King, durante uma de suas caminhadas diárias, foi atropelado por um motorista relapso. A gravidade do acidente foi grande e crucial para que ele, depois de se recuperar dos ferimentos , pudesse voltar a escrever, mas de maneira mais contida, uma vez que as dores eram absurdas e os remédios para contê-las, cada vez mais fortes. Indiretamente, Steve colocou o trauma do ocorrido em alguns de seus livros da época, como em O Apanhador de Sonhos e Duma Key, onde alguns dos personagens sofreram algum tipo de acidente e amargam uma recuperação dolorosa.

Mais recentemente, sua aposta tem sido os thrillers policiais. Após o encerramento da trilogia Bill Hodges, composta por Mr. Mercedes, Achados e Perdidos e O Último Turno, confesso que me perguntei se o ganhador dos troféus Golden no Hall da Fama iria deixar esse teor investigativo de lado, pois é um segmento em que ele tem acertado a mão nos últimos anos. Por sorte, tão logo soube da sinopse de Outsider, lá no começo desse ano, meu coração já ficou aliviado. Não só King voltaria com esse tipo de trama no livro como também traria uma personagem chave presente na trilogia, além de inserir pitadas de sobrenatural no meio disso tudo. E o resultado foi, de certa maneira, muito satisfatório.

Outsider já começa daquele jeito que o velho Rei do Maine gosta: com desgraça e muito sangue. Sem poupar o leitor, que de pronto já se depara com o assassinato de um menino de onze anos que, além de ter o pescoço dilacerado por várias mordidas, foi estuprado com um galho de uma árvore. Sabemos que King quase nunca poupa suas crianças fictícias, mas a riqueza de detalhes do acontecido é de embrulhar o estômago. O principal suspeito é o professor de inglês e treinador de baseball da Liga Infantil da cidade, Terry Maitland.

Após interrogar inúmeras testemunhas, que alegam terem visto Terry com a vítima minutos antes do crime, e confirmar a presença de seu DNA e impressões digitais no corpo, o detetive Ralph Anderson decide prender o treinador, de maneira arbitrária e humilhante, durante um importante jogo da Liga Infantil, na frente de 1.200 pessoas da cidade, entre elas a esposa e duas filhas do acusado. No entanto, o treinador alega inocência, e em sua defesa apresenta provas concretas de que não estava na cidade no dia do crime.

E é justamente essa dualidade na balança, pendendo para ambos os lados com tanta veracidade, uma vez que Terry apresenta provas irrefutáveis de sua estadia longe dali no momento do assassinato, que faz com que as coisas comecem a ficar cada vez mais confusas. Será possível que uma pessoa conseguisse estar em dois lugares ao mesmo tempo? Ou o crime foi obra de um doppelgänger, um ser fantástico que consegue reproduzir uma cópia idêntica de alguém?

São essas e outras várias perguntas que, no caminho para a resposta, vão esbarrando cada vez mais com o sobrenatural, fazendo com que Holly Gibney, a sócia neurotípica de Bill Hodges, ajude os investigadores a entender o caso, uma vez que ela tem uma experiência bem grande em casos impossíveis de serem solucionados.

A história toda é muito bem contada num ritmo bem intenso, e numa riqueza de detalhes que fazem com que você não consiga se desgrudar das páginas até desvendar o caso. Ainda rolam aquelas referências incríveis para fãs do cinema, já que Holly é uma cinéfila inveterada, responsável inclusive por um diálogo que nada mais nos mostra King alfinetando a adaptação de O Iluminado, dirigida por Stanley Kubrick (que ele odeia com afinco e não engoliu, mesmo quarenta anos depois), além de citações ao cinema mexicano e Edgar Allan Poe.

Uma única ressalva que preciso fazer, no entanto, é em relação ao clímax final, do embate com o verdadeiro assassino, que tem um desfecho extremamente apressado e preguiçoso. Muitas perguntas são deixadas em aberto e, ao menos que King tenha planos de escrever uma sequência em que elas sejam respondidas, me frustraram bastante. É claro que sabemos que o cara tem aquela certa dificuldade em acertar nos finais de seus livros, mas esse foi, de longe, o que mais me incomodou. De qualquer modo, esse contraponto não tira o brilho da história de um modo geral.

Essa fase mais recente de King, calcada nas investigações policiais, talvez não tenha motivações tão pessoais como as anteriores, até porque hoje em dia, um senhor prestes a completar 71 anos, Stephen King não faz uso abusivo de nenhuma droga a não ser o Twitter. Nos últimos quatro anos, entre raras flertadas com o fantástico, o Rei tem se dedicado, mesmo que inconscientemente, a escrever ficção policial. E tem feito isso de maneira tão magistral e certeira que, ao lado das outras que já citei no começo desse review, essa seja pra mim uma de suas melhores fases.

 

Ficha técnica:

Stephen King – The Outsider – 2018

Tradução: Regiane Winarski

Lançamento no Brasil – 2018

Editora – Suma

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Niia Silveira
Niia Silveira
Francesco Dellamorte em versão feminina, mas que já leu outros livros além da lista telefônica. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

2 Comentários

  1. Italo Lobo disse:

    preciso ler algum dele antes de começar esse outsider?

    • Niia Silveira disse:

      Italo, tudo bem? Outsider tem uma história bem independente, você pode apenas o ler porque a trama não fica comprometida. É claro que se você já tiver lido a trilogia Bill Hodgens a sua experiência será mais completa (até porque pode ter um outro spoiler da trilogia lá em Outsider), mas aí é como você achar melhor 🙂

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