Bibliofobia #49 – Celular

Celulares transformam pessoas em zumbis: dessa vez, na ficção!


Pra mim, uma das melhores coisas sobre envelhecer é poder enxergar tudo sob uma nova ótica. A passagem dos anos, na maioria das vezes, faz com que a gente amadureça nossas ideias, nossos gostos e nossa percepção das coisas que nos rodeiam.

Passando pelos temas mais sérios ou banais, sempre vamos expandir nossos horizontes, dessa forma aprimorando o gosto pelas coisas que consumimos. Quantas vezes não mudamos nossa opinião sobre determinado assunto? Ás vezes vemos um filme que amávamos quando criança, já adultos, e odiamos fortemente. Ou então maratonamos a filmografia de determinado diretor que temos ranço (eu não pensei no Rob Zombie, juro!) e acabamos gostando de uma ou outra obra.

Como tudo nessa vida é muito mutável, estamos sempre mudando nossa opinião, positiva ou negativamente.

Digo isso porque tenho o hábito de sempre rever  meus filmes favoritos ou reler os livros que mais gosto. Muita gente faz isso, é verdade, mas eu acabo ultrapassando os limites do aceitável. Para exemplificar: se você viu nosso TRASH MODERNIZADO sobre Stephen King (se não viu, faça o favor de ver) já sabe que reli A Coisa sete vezes.

O mais interessante disso tudo é perceber que em nenhuma dessas vezes a obra caiu no meu conceito. Ao contrário, cada vez que eu releio, vejo mais pontos positivos presentes na história, e isso é algo incomum. Acontece também de você acaba percebendo algo que havia passado batido antes, ou ainda, na melhor das hipóteses, acaba gostando de algum aspecto que havia desgostado anteriormente. Foi exatamente que aconteceu quando reli Celular.

Lançado pela segunda vez aqui no Brasil em agosto, pela Suma, o livro de Stephen King tem como pano de fundo um cenário pós-apocalíptico, causado por um pulso transmitido via linhas telefônicas. Quando eu o li pela primeira vez em 2007, na época de sua publicação, quando as pessoas ainda usavam o celular para fazer ligações, eu não era grande entusiasta do tema, então a leitura foi concebida a fórceps, mas apesar disso, havia gostado num modo geral.

No entanto, hoje, mais madura em relação aos meus gostos, sou ávida devoradora de livros e filmes onde a sociedade é dizimada, seja por eventos catastróficos ou seres inumanos. E reler Celular onze anos depois foi uma experiência muito enriquecedora porque pude enfim perceber que ele é, de fato, um puta livro. Diria até que é um dos mais sangrentos do King publicado nos últimos tempos, e que tem aquele nível de dramaticidade que sempre faz sucesso em sua bibliografia, o que faz com que a leitura não se torne densa ou indigesta demais.

O personagem central, o ilustrador Clayton Riddell, está em Boston para uma reunião de negócios, na qual conseguiu a venda de sua primeira graphic novel. No meio do caminho para o hotel, ainda saboreando a sensação de vitória, ele é surpreendido pelo evento que, depois, seria chamado de “o Pulso”, que fez com que todas as pessoas que estivessem usando um telefone celular naquele exato momento fossem transformadas em zumbis. No meio daquele caos generalizado, ele acaba conhecendo Tom e, logo depois, Alice, uma adolescente, que está totalmente fragilizada após ter sido atacada por sua mãe, que estava numa ligação na hora do fenômeno. Clayton quer a todo custo voltar para o norte do país, onde sua ex esposa e filho moram, na tentativa de reencontrar sua família, já que uma preocupação gritante sempre o faz se sentir culpado por ter dado um celular para o infante.

Juntos, o trio se une e vai começando a encaixar as peças para entender o que de fato aconteceu, enquanto vão tentando sobreviver a ataques violentos dos “fonéticos”, como eles chamam as pessoas que foram atingidas pelo Pulso. Ataques esses, vale dizer, que causam momentos extremamente sangrentos e desconfortáveis ao longo da leitura. A medida que o tempo vai passando, os fonéticos vão se mostrando organizados, vivendo em hordas com consciência coletiva, o que mostra ao trio de sobreviventes que a situação horrenda pela qual estão passando esconde muito mais do que eles pensam.

Na época da minha primeira leitura, eu torci o nariz para aquele final aberto e interpretativo pra cacete mas, como já sou habitué nas obras de Rei do Maine, sei que ele nem sempre acerta a mão nos desfechos. Nesse caso, no entanto, o próprio King deu uma entrevista dizendo que tinha detestado o final deste livro. Quando Tod Williams (diretor de Atividade Paranormal 2) decidiu adaptá-lo pras telonas, o escritor viu ali a oportunidade de mexer no roteiro e, enfim, consertar o que havia feito de errado.

Só que o tiro saiu pela culatra e o final (ou finais, né) de Conexão Mortal, acabou sendo muito, mas MUITO pior do que aquele apresentado no livro. Além disso, vários outros fatores contribuíram para que o filme fosse um fiasco gigantesco, apesar do elenco excelente e do potencial da história. Quem ficou esperando um filmão pós apocalíptico, foda e sangrento a altura do livro, se decepcionou fortemente.

No entanto, aqui no 101HM batemos na tecla de que livro é livro, e filme é filme; além do quê, Stephen King é um escritor, e precisa ter seu trabalhado analisado como tal. E como Leitora Fiel®, afirmo categoricamente que nesse livro ele estava inspirado demais. A leitura flui de maneira muito rápida, com sequências daquelas que não te fazem desgrudar os olhos das páginas e que tiram o fôlego, além de passagens bem tristes, como quando um dos personagens tem seu fatídico e injusto fim.

Celular é um daqueles livros obrigatórios para os fãs de terror, não só por ser uma obra do ganhador do Troféu Golden do Hall da Fama, mas sim, por conta de sua história bem escrita e por apresentar um novo tipo de zumbis. Afinal, apesar de vivermos hoje numa era onde o Wi-Fi e o 4G fizeram as ligações se tornarem algo obsoleto, pessoas sendo controladas por um sinal telefônico é algo relativamente raro na ficção, fazendo hoje em dia, paralelos com pessoas controladas por notícias falsas no WhatsApp.

Por isso, enquanto lemos o livro, percebemos a crítica social escancarada de King contra a necessidade das pessoas se manterem conectadas o tempo todo, o que nos faz analisar as pessoas cada vez mais obcecadas pela telinha do smartphone hoje em dia, vivendo o cotidiano de modo apático como vemos por aí, e nos faz pensar que talvez o Pulso já aconteceu aqui, na vida real e a gente nem se deu conta. Provavelmente, porque somos fonéticos também…

 

Ficha técnica:

Stephen King – Cell – 2007

Tradução: Fabiano Morais

Lançamento no Brasil – 2018

Editora – Suma

 

 


Niia Silveira
Niia Silveira
Francesco Dellamorte em versão feminina, mas que já leu outros livros além da lista telefônica. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

3 Comentários

  1. José disse:

    Me desculpe por desviar do foco do assunto , mais Já que você tem o hábito de rever os seus filmes favoritos fiquei curioso em saber qual é o seu TOP 10 ?

    • Niia Silveira disse:

      Oi, José, tudo bem? Você quer saber sobre os filmes de terror ou num geral? Meio que se complementam, na verdade. De qualquer modo, vou fazer um Tope Nove rapidinho aqui: 9- Halloween 8- Profondo Rosso 7- Father’s Day 6- Phantasm 5- The Texas Chainsaw Massacre 4- November 3- Hellraiser 2- The Omen 1- Dellamorte Dellamore

      • José disse:

        Oi Niia , tudo bem sim !
        Era só os filmes de Horror mesmo , e olha , me chamou atenção o fodástico ” Father’s Day ” (2011) que fugiu do convencional e infelizmente poucos fãs de Horror conhecem .
        Esse filme é um dos muitos que tenho orgulho de ter na coleção pois é o DVD importado !

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