Bibliofobia #50 – A Pequena Caixa de Gwendy

King contraria a regra de nunca aceitar presente de estranhos – ainda mais se for do Diabo


A crendice popular sempre diz que o Diabo tem várias formas e vários nomes. Analisando num contexto bíblico, tendo como base o Antigo Testamento, o conceito do mal não existe de forma personificada. No entanto, é observando as ruínas das religiões que existiram antes do cristianismo que percebemos a concepção da imagem do Tinhoso. Essa aparência tradicional como conhecemos – vermelho, chifrudo, com patas de bode portando um tridente – nada mais é do que a fusão de várias entidades das mais diferentes culturas e religiões.

Dessa mesma forma, cada pessoa tem sua própria percepção acerca dos demônios, e isso se estende em vários aspectos. Dentro da literatura de horror, por exemplo, cada autor vai ter seu próprio conceito para o Mal, de acordo com suas crenças (ou falta delas) e vários outros aspectos culturais.

Dante Alighieri, em A Divina Comédia, descreve Lúcifer como um gigante alado, com o rosto horrendo, numa imagem que é fielmente retratada nas ilustrações de Gustave Doré. Essa ideia do Satanás como algo grotesco é algo que descende diretamente das mais diversas mitologias. Nesse mesmo patamar de criatura, por exemplo, temos Pazuzu, presente em O Exorcista, que foi da mitologia suméria diretamente para o livro de William Peter Blatty.

Foi com o Fausto de Goethe, no entanto, que o Diabo alcançou uma aparência mais humanizada dentro da literatura. Mefistófeles é bem diferente das visões dantescas, apesar de sua primeira aparição ser na forma de um cachorro. Essa imagem mais próxima do homem é mantida também em O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov, e foi usada em larga escala dentro da literatura moderna de horror, como na personificação do capeta mirim popularizada por David Seltzer em seu livro A Profecia, pra citar um exemplo.

Stephen King, o Rei do Maine, também tem suas visões muito particulares a respeito do Mochila de Criança. Apesar de muitos dos seus livros sempre terem muitos personagens religiosos (retratados sempre de maneira muito negativa, vale ressaltar) o autor não explora muito o lado literal do Pata Rachada, sempre o mostrando sutilmente como um personagem que representa puramente todas as coisas ruins, de maneira que suas reais naturezas e intenções sejam sempre obscuras para o leitor.

Em A Pequena Caixa de Gwendy, livro mais recente do autor escrito em parceria com o Richard Chizmar, topamos com um personagem desses, Richard Farris. No entanto, durante a leitura, King não dá nenhuma pista sobre esse homem ser, de fato, o Diabo, mas eu tenho boas razões para crer nisso e vou explicá-las mais adiante. O livro, na verdade, conta a história da pequena Gwendy Peterson, uma menina que anda sofrendo bullying na escola acerca do seu porte físico, e decide perder um pouco de peso. Gwendy sai todo dia em direção a um parque de Castle Rock (uma das cidades fictícias mais famosas de King), local onde um dos acessos se dá por uma uma escadaria gigante. Em uma dessas corridas, ela encontra um homem, o já citado Richard Ferris, sentando num banco, e ele a aborda.

Aí as coisas começam a ficar estranhas porque, ao contrário do que a menina acredita, Farris não é um pedófilo, muito menos quer machucar a menina. Na verdade ele lhe dá um presente: uma caixa de mogno, com vários botões e uma alavanca. Ele explica pra ela o que cada um daqueles botões representa, e qual o propósito dela ao cuidar da caixa. Tudo parece muito simples e parece que vai dar tudo certo para Gwendy… e realmente dá.

Diferente da Configuração dos Lamentos, artefato criado por Clive Barker no livro Hellraiser, a pequena caixa de Gwendy apesar de ser uma arma poderosíssima, não causa dano algum à menina. Ao contrário, a vida dela e de sua família vai ficando cada vez melhor: a caixa vai dando cada vez mais poder para a garota ao longo dos anos, que vai crescendo e ficando cada vez mais bonita, talentosa e sortuda em tudo que faz. A única coisa que ela precisa fazer é cuidar da caixa com sabedoria, para que não caia em mãos erradas. Esse parece ser o único contraponto desse trabalho: lidar sozinha com o fardo de portar algo tão poderoso em suas mãos.

Não é a primeira vez que King apresenta um demônio nesses moldes mefistofélicos. Em Trocas Macabras, temos Leland Gaunt, um antiquário que chega em Castle Rock (coincidência?) para abrir uma loja onde objetos podem ser trocados por simples atos de violência. Com isso, Gaunt vai dizimando o bom funcionamento e paz da cidade, da mesma maneira que O Diabo no Campanário, de Poe, fez. Já no conto “Extensão Justa”, presente no livro Escuridão Total, Sem Estrelas, George Elvid é um ambulante que fica numa rua de Derry, com sua barraquinha, vendendo todo tipo de coisas, inclusive extensões de vida. Assim, como Leland Gaunt, Elvid (anagrama de Devil, caso você não tenha percebido) faz qualquer tipo de barganha, sendo essas histórias quase um “Chirrin, Chirrión” do Maine, já que também citamos Mefistófoles lá em cima.

Esses dois personagens são, declaradamente, o Diabo. No entanto, talvez o Coisa-Ruim mais conhecido na bibliografia de King seja, indiscutivelmente, Randall Flagg, apesar do escritor nunca ter confirmado a natureza do personagem. Ele apenas disse, em entrevista: “Eu acho que o Diabo é, provavelmente, um cara muito engraçado. Flagg é como o arquétipo de tudo que eu sei sobre o verdadeiro mal…” Flagg apareceu pela primeira vez no livro Dança da Morte e, depois disso, em mais sete novelas, sem contar sua participação como antagonista na série A Torre Negra, claro.

E é justamente por isso que eu, particularmente, acredito que Farris é o Diabo, mesmo que isso fique subentendido na trama, uma vez que ele não causa mal algum à menina. Apenas no último capítulo que me dei conta das iniciais do verdadeiro dono da caixa, o que bate com toda a mitologia de Randall Flagg criada por King, uma vez que ele sempre aparece nas histórias, nunca com o mesmo nome, e sim com nomes que contenham as mesmas iniciais. Richard Fry, Raymond Feigler, Richard Freemantle, Richard Fannin e… Richard Farris! Como eu disse no início do artigo, o diabo tem várias formas e vários nomes.

A Pequena Caixa de Gwendy foi, na verdade, uma grande surpresa. A junção da escrita de King com a criatividade de Richard Chizmar (que é editor, autor, produtor, roteirista e mais uma caralhada de coisas) surtiu um efeito bastante positivo no desenrolar da trama. A impressão que temos é a de que estamos lendo uma história de terror para crianças, mas não de maneira pejorativa; as ilustrações presentes ao longo da história reforçam essa impressão e apesar da história ter algumas passagens mais violentas, a trama é bastante leve.

O livro é extremamente curto, com 167 páginas apenas e, além disso, é muito conciso, direto e, por conta disso, a leitura flui de maneira muito ágil. Pra mim, A Pequena Caixa de Gwendy é justamente como a caixinha de botões que a protagonista protege ao longo da vida: pequena, e à primeira vista pode até parecer inofensiva, mas ao abrirmos, encontramos ali dentro muito mais coisas do que pensávamos.

 

Ficha técnica:

Stephen King / Richard Chizmar – Gwendy’s Button Box – 2017

Tradução: Regiane Winarski

Lançamento no Brasil – 2018

Editora Suma


Niia Silveira
Niia Silveira
Francesco Dellamorte em versão feminina, mas que já leu outros livros além da lista telefônica. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

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