Bibliofobia #51 – Os Imperiais de Gran Abuelo

Os outros horrores da Guerra do Paraguai


A Guerra do Paraguai foi o maior conflito armado internacional ocorrido na América do Sul. Foi travada entre o Paraguai e a Tríplice Aliança, composta pelo Brasil, Argentina e Uruguai e estendeu-se de dezembro de 1864 a março de 1870. Contabiliza em números estimados, mais de 360 mil mortos, entre brasileiros e paraguaios (a esmagadora maioria) durante o embate. Mas para M.R. Terci, a treva de verdade é que alguns desses mortos não descansaram e foram obrigados a voltar à vida para continuar lutando e atormentando os vivos e Os Imperiais de Gran Abuelo: Crônicas de Pólvora e Sangue.

O novo livro do pai d’O Bairro da Cripta, lançado pela Editora Pandorga, é, como diz o subtítulo, uma crônica de sangue e pólvora onde mais uma vez, mostra-se o desbunde da capacidade literária de Terci em se aproveitar de elementos e fatos tipicamente brasileiros, como fizera com os causos de Tebraria e agora, munido de um sem número de dados históricos da infame guerra, transporta o embate para o mundo do macabro, afinal a Morte sempre está recrutando. Escrito com a devida eloquência numa narrativa daquelas cinematográficas, quase em tom de aventura de horror, que se forma na mente do leitor conforme as páginas da edição são devoradas.

Inclusive, a ideia original do livro era ser um dos contos que integram a antologia dos volumes de O Bairro da Cripta, exatamente o primeiro capítulo do livro, mas com a imaginação febril e irrefreável de Terci, foi ganhando corpo, e de uma história de 18 páginas, se tornou uma novela de 388 laudas.

Com seu talento em escrever e descrever personagens, Terci enfia um grupo de militares, os tais Imperiais que dão nome ao título, pertencentes a infantaria do velho general Manuel Luís Osório, conhecido como “Gran Abuelo”, ou “Vovozão” em português claro, e suas voltas com o sobrenatural, agora sob o comando do sargento Carabinieri, ou “Papá”, em meio ao fatídico conflito no Cone Sul durante o século XIX.

Com sua linguagem, ora rebuscada, ora afiada por conta dos trejeitos dos soldados desmiolados e de pouca instrução, Terci vai retratando modos, costumes, situações e equipamentos de época – parte da sempre hercúlea pesquisa histórica do autor para trazer acurácia e veracidade aos seus textos – nos colocando como membros daquela campanha, íntimos dos combatentes, enquanto traça a trama que passeia pelo fantástico, pela literatura de guerra, aventura e pelo terror.

Começa com uma simples missão dos Imperiais em levar o velho Osório para ser enterrado em Nossa Senhora de Belém de Tebraria (mais uma vez fincando bandeira em um território de um universo expandido em construção que se espalha pelos seus livros como uma epidemia maligna) colocando nossos heróis em contato com uma entidade trevosa que irá persegui-los e guiar as demais descobertas ao passar das páginas, até chegar a um conflito final explosivo e emocionante.

Misturando feitiçaria latina, colocando zumbis na trincheira e acrescentando velhas superstições made in Brazil, além de enfiar personagens reais históricos no meio desse balaio de gato, Os Imperiais de Gran Abuelo também retrata, em meio ao caos e aos horrores, tantos reais quanto supernaturais da guerra: a honra militar, a irmandade de soldados e a politicagem do período Brasil-Império e sua corrupção e descaso dos governantes, já arraigada na cultura de nossa Mãe Pátria desde então.

Até pincela a condução da aliança e o aporte estrangeiro que levaram o Paraguai a uma derrota acachapante (mesmo tentando invocar maledicências do além túmulo para impedir a humilhação no certame), tornando-o um dos países mais atrasados da América do Sul, devido ao seu decréscimo populacional, ocupação militar por quase dez anos, pagamento de pesada indenização de guerra e perda de praticamente 40% do território em litígio para o Brasil e Argentina.

Certamente, algo mais terrível para os derrotados, e mais vergonhoso para os vencedores, que qualquer encosto ou elemento de terror saídos da mente de Terci. A realidade, é sempre pior, vale lembrar.

Com uma narração faceira, com cada página saltando como o frame de uma série televisiva (parece que escrevo isso em toda resenha que faço dos livros de Terci – quem sabe seja uma mensagem subliminar para as produtoras do audiovisual brasileiro), Crônicas de Pólvora e Sangue ainda é ilustrado por uma série de litogravuras escolhidas a dedo pelo escriba, que remetem aos relatos dos desenhistas incubidos das ilustrações de guerra, uma vez que não havia fotógrafos nos conflitos

O final é deveras promissor e um potencial imenso para explorar ainda mais o universo daqueles Sangue-Ruim, em uma continuação, As Crônicas de Negros Céus, que está por vir no primeiro semestre do próximo ano

Afinal, a vigia está firme no Reno.

Ficha técnica:

Os Imperiais de Gran Abuelo: Crônicas de Pólvora e Sangue

M. R. Terci 

Lançamento no Brasil – 2018

Editora Pandorga


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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