Bibliofobia #53 – Deuses Caídos

Hellblazer carioca metido em uma fantasia urbana cheia de mitologia, criaturas e cultura pop


Eu gostaria muito que o Marcos de 15 anos tivesse lido Deuses Caídos. Tenho a completa certeza que ele ficaria apaixonado pela trama, pela narrativa, pelos personagens, pela metralhadora giratória de referência da cultura pop diversas e pela forma como mitos, deuses e mitologias são tratados. Seria um tipo de literatura necessária para aquele jovem mancebo. Quem sabe ele até não tivesse virado escritor?

Isso porque Gabriel Tennyson consegue misturar num gigantesco balaio de gato à brasileira diversos elementos místicos e fantásticos, com um sem número de inspirações em filmes, seriados de TV, música, quadrinhos e outros livros, para contar a epopeia carioca – com todos os devidos maneirismos, gírias e iconografias do Rio de Janeiro –  de Judas Cipriano, padre soldado de uma batalha silenciosa e mística de uma sociedade secreta da Igreja Católica criada para realizar investigações paranormais e contenção de criaturas sobrenaturais e divindades.

A coisa começa a dar ruim, como o próprio Cipriano diria com o sotaque puxado do carioquês, quando um televangelista inescrupuloso é impiedosamente torturado e morto e seu vídeo vai parar na Internet, gerando uma verdadeira “surra de likes”, enquanto a polícia carioca se mancomuna com a Sociedade de São Tomé, sob comando do infame inquisidor Torquemada a mando dos figurões do Vaticano, para tentar resolver o crime que traz um serial killer que se autoproclama Messias e está bolado com a impunidade que a religião trata seu rebanho, perdoando e oferecendo a outra face, ao invés de fazer os falsos profetas pagarem.

Cipriano é então auxiliado pela jovem e cética inspetora da Polícia Civil, Júlia Abdemi, e começa a se embrenhar em uma trama de fantasia urbana populada por um bestiário impressionante e criativo e todo tipo de criatura mitológica presente, de anjos à vampiros, de sacis à gárgulas, de fadas dos dentes à dragões chineses, para tentar identificar e descobrir o assassino.

Aí então que Deuses Caídos impressionaria muito mais o Marcos de 15 anos – ou talvez qualquer outro adolescente ou até mesmo os famigerados young adults, público alvo certeiro para o qual o livro é destinado – do que o Marcos que completa 37 em menos de um mês. Porque o desenvolvimento de história e personagens é um verdadeiro copia-e-cola de uma série de demais produtos midiáticos da cultura pop. Vai dos métodos do assassino que lembram Seven – Os Sete Crimes Capitais, passando pela pegada porralouca, visual rockstar e apreço por travestis de Hellblazer, um poder secreto divino de Cipriano, a Trapaça, tal qual Preacher, e uma caralhada de referências e diálogos sobre X-Men, Star Wars, Arquivo X e todos esses produtos da “mídia geek”.

Deve acertar em cheio o coração desse nicho, mas falta um tanto quanto literatura e peca em não sair de um campo manjadíssimo, apesar da facilidade com que Tennyson desenrola a trama e a transforma em uma leitura fácil e intrigante, não poupando o leitor incauto de detalhes grotescos e sórdidos da cenas de tortura e assassinato, que com certeza são bastante gráficos e explícitos. Isso além de méritos em conseguir criar um universo fantástico tupiniquim, bastante diverso, criativo e facilmente adaptado à nossa realidade, mais ainda se você morar no Rio de Janeiro.

Deuses Caídos, apesar dos deslizes e clichês a mil, faz sua parte como contraparte dos trópicos de Deuses Americanos, o livro e série de Neil Gaiman, e talvez por ser fruto da cultura pop audiovisual, é muito fácil desenvolver os acontecimentos como cenas de um seriado da Netflix ou da HBO na mente do leitor ao virar as páginas.

Falta muito ainda em amadurecimento literário e colocar um pouco mais o pé no adulto para Tennyson, mas acredito em um futuro promissor do escritor e no potencial de um universo em expansão por vir.

 

Ficha Técnica:
Título: Deuses Caídos
Autor: Gabriel Tennyson
Editora: Suma
Ano: 2018
Páginas: 288
ISBN: 978-8556510648

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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