Bibliofobia #55 – Narrativas do Medo 2

Sabe aquela máxima que a sequência nunca é melhor que o original? Então…


É com um pesar no coração que escrevo essa resenha de Narrativas do Medo 2, ainda mais tendo gostado TANTO da primeira edição da antologia de contos de horror nacional indie, compilada por Vitor Abdala e publicados em 2017. Porque confesso que foi bastante difícil terminar a leitura deste aqui, infelizmente.

Com aquela pecha de uma continuação tentar sempre ser maior e mais ousada que o original, a sequência literária, dessa vez publicada pelo selo Neblina Negra, da Copa Books, e contando com as excelentes ilustrações de Marcel Bartholo, se perde por completo em uma maior quantidade de contos, autores e também do tamanho das pequenas histórias.

Aquela leitura rápida, intrigante, faceira do primeiro volume, aqui fica no caminho devido a uma quantidade sem número de contos, muitos deles dispensáveis, chatos, clichês, formulaicos e alguns bem longos. A impressão que dá é que um imenso potencial literário se perdeu no meio do caminho, ainda mais tendo em vista comparado lado a lado com o que fora apresentado em Narrativas do Medo e o que conhecemos do trabalho da maioria dos envolvidos.

Pecando pelo excesso, são 29 contos (número exagerado por si só) em longuíssimas 380 páginas (são quase 200 páginas a mais que o primeiro), mais uma vez organizado por Abdala e dessa vez editado por Paul Richard Ugo – inclusive responsável pelo mais extenso dos contos, uma história de época deveras interessante e, até cinematográfica, sobre D. Pedro II e uma múmia, mas que poderia ser mais enxuta dada a proposta.

Aí fica aquela sinuca de bico, onde ao mesmo tempo em que é louvável abrir espaço para novos autores e novos nomes da literatura fantástica nacional independente, ampliando o leque de possibilidade e incentivando ainda mais escritores do gênero, acaba por evidenciar a queda vertiginosa da qualidade, dando ao leitor a indigesta impressão de muito conteúdo estar lá apenas para cumprir tabela, ou contendo aspectos muito pessoais dos escritores que se perdem na tradução para o público, e que ao fechamento da entrega dos textos, nem todo mundo conseguiu dar seu melhor e bem, teria de ser publicado no final das contas.

Toda antologia é irregular por regra, até dos maiores escritores e compilações do mundo, mas Narrativas do Medo 2 compromete e muito o resultado final, tornando-se uma literatura massante e não envolvendo o leitor. Eu mesmo demorei uma eternidade para conseguir concluir a leitura, e isso nunca é um bom sinal para um livro.

Salvo alguns pouco contos, e que valem muito a pena o destaque, como Cartas Marcadas de César Bravo, Chuta que é Macumba de Flávio Karras (o meu preferido), Maligna de Soraya Abuchaim, Súcubo de Alexandre Callari, Mr. Orange de Geraldo de Fraga, Iara – A Sereia do Pantanal de Petter Baiestorf e Os Crimes de Dez para as Duas de Duda Falcão.

Fica aqui a esperança que na próxima, se houver um novo Narrativas, volte a sua melhor forma, abandone a máxima de que “quanto maior, melhor”, principalmente com relação a quantidade de contos e a extensão de alguns textos, e volte a prezar um bocadinho mais pela qualidade literária em detrimento do número de páginas e tantos autores, com um maior carinho na escolha final do material que sai impresso, sabendo que infelizmente não dá para abraçar o mundo.

E por mais chavão que pareça, às vezes menos, é mais, de fato.

Ficha Técnica
Título: Narrativas do medo 2
Autor: Vários
Editora: Copa Books
Ano: 2018
Páginas: 380


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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