Bibliofobia #56 – Candyman

Não tema em falar cinco vezes o seu nome em frente ao espelho


Lançado no Brasil pela trevosa DarkSide Books, o conto The Forbidden (“O Proibido” em tradução literal), que compõe a antologia “Livros de Sangue” de Clive Barker, Candyman pode causar a mesma surpresa que causou a mim, acostumado com a adaptação cinematográfica que traz Tony Todd no papel principal lançada em 1992.

Aliás, sei muito bem que “filme é filme, livro é livro” e principalmente a complexidade de transformar um conto de 60 páginas em um longa metragem de 90 minutos de duração. Mas acontece que no caso de Candyman, semelhante ao que ocorreu comigo ao ler Drácula ou Frankenstein (ambos também republicados pela DarkSide em edições de luxo), exemplos que temos deveras enraizados em nossa mente a versão cinematográfica dos personagens ou alguns pontos principais de sua trama, eu não fazia a menor ideia de que muito daquilo que vemos no filme não está na escritura original, mesmo que grande parte dos conceitos e do clima.

Não digo que seja frustrante (como foi ao ler Drácula tempos depois de assistir a versão de Francis Ford Coppola, que se vende como definitiva), mas a palavra que melhor se encaixa aqui foi: curioso, como uma obra praticamente a parte. Principalmente pelo fato de O Mistério de Candyman trazer uma expansão da mitologia de Barker, abordando o passado de Daniel Robitaille e como ele se tornou a lenda urbana do Homem-Doce, as questões dos conflitos raciais e a gentrificação e, principalmente, a marca registrada de Candyman e que assustou pacas na infância (e não estou falando do gancho no lugar da mão): evocá-lo repetindo cinco vezes seu nome na frente do espelho.

O longa de Bernard Rose começa exatamente tratando da lenda urbana, inspirada na Bloody Mary ou na nossa boa e velha Loira do Banheiro, e da forma como é trazido à vida, ocasionando a morte daqueles que profanam seu nome. Logo, passagem marcante do filme. No texto de Barker, isso simplesmente não existe, abordando muito mais a questão psicológica de um causo ou mito perpetuar sua eterna existência enquanto se manter presente, principalmente na tradição oral, e houver pessoas que ainda falam sobre a lenda e sentem medo dela. Isso a mantém viva e impede de cair no esquecimento, além de alimentá-la.

O projeto de Cabrini-Green em Chicago dá lugar aos condomínios habitacionais de Spector Street na Londres dos anos 80, e o estudo de tese de Helen, ao invés das lendas urbanas, é a pichação e seus efeitos sociológicos. Tirar fotos do local todo grafitado que a faz adentrar no complexo de baixa renda e conhecer a lenda de Candyman, que ataca os pobres e negligenciados moradores, de velhos à mulheres e crianças, com seu gancho no lugar da mão, clamado não pela verbalização de seu nome em frente ao espelho, mas com oferendas de doces.

O visual também em nada lembra o eternizado por Tony Todd, que galgou seu lugar no panteão dos movie maniacs (com a chancela de Barker, produtor executivo da versão cinematográfica). Tire a pele negra (uma vez que aqui não temos o background da escravidão e da questão racial – o que tira algo do impacto da leitura) e o sobretudo marrom de lã, e coloque uma aparência de rosto amarelado, que lembra cera de abelha, lábios finos azulados e uma roupa remendada.

Porém, muitas passagens do livro e do filme se assemelham, no que tange ao próprio diálogo do monstro com Helen, incluindo o fascínio quase hipnótico sexual que ele tem sobre ela, algumas nuances do ambiente universitário e do relacionamento tóxico da moça com seu marido arrogante, Trevor, e claro, as abelhas. Muitas.

Aliás, os apifobistas devem ter cautela, uma vez que a caprichadíssima edição da Caveirinha – mesmo de poucas páginas, uma vez que falamos de um conto transformado em um livro – traz além de fotos closes de enxames de abelhas, desenhos com detalhes sobre sua anatomia. Capa dura, luva de colmeia em todo um trabalho gráfico ímpar de costume da editora carioca para adoçar sua estante.

Candyman é uma rápida e intrigante leitura, daquelas que você mata em uma lida, com Clive Barker em excelente forma, e entretém principalmente nesse “jogo dos 7 erros” do que difere as páginas da película. Recomendo devorar o texto com a trilha sonora de Philip Glass ao fundo e, logo depois, rever (ou assistir pela primeira vez), ao filme.

Ficha Técnica
Título: Candyman
Autor: Clive Barker
Tradução: Eduardo Alves
Editora: DarkSide Books
Ano: 1985
Ano de Publicação no Brasil: 2019
Páginas: 122


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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