Bibliofobia #21 – Exorcismo

A história supostamente real que inspirou o maior clássico do terror de todos os tempos!


O ano era 1973 e O Exorcista, dirigido por William Friedkin, chegava aos cinemas. Nunca antes na história do cinema de terror um filme gerou tanta comoção e principalmente, um surto de histeria em massa e medo generalizado coletivo do que a história em que a jovem Regan McNeill, de 12 anos, interpretada por Linda Blair, era possuída por uma entidade demoníaca que teve de ser exorcizada por uma dupla de padres na capital americana. Foi um sucesso de público e crítica, e até hoje, carrega a pecha de “filme mais assustador de todos os tempos”, mesmo que datado para alguns ou cômico para a geração millennial.

O que nem todo mundo sabe é que cinco anos antes, em 1968, o escritor William Peter Blatty, que nos deixou aos 89 anos na última quinta-feira, entrou em contato com seu xará, um tal padre William S. Bowdern, perguntando a respeito de um exorcismo sobre o qual lera num artigo quando ainda era aluno da Georgetown University – uma universidade jesuíta – realizado em um garoto por ele no ano de 1949 em Saint Louis.

Bowdern se recusara de forma educada a dar qualquer informação ao escritor, uma vez que jurara segredo sobre o caso para a Igreja Católica, o desejou sorte e em maio de 1971, o livro que daria origem ao filme fora publicado, entrando direto na lista de best-sellers do The New York Times. Porém seu único pedido ao escriba foi atendido: alterar o sexo do garoto por uma menina para preservar ainda mais sua identidade.

O pároco escreveu um diário detalhado sobre esse exorcismo, que manteve-se durante quatro décadas confinado em segredo nos arquivos católicos. Três cópias em carbono foram feitas: uma guardada pelos jesuítas, outra pela Arquidiocese de Saint Louis e uma terceira, em posse do reitor do hospital católico onde o ritual final de exorcismo fora realizado. Exatamente essa cópia que chegou às mãos do escritor Thomas B. Allen, dada por um dos padres participantes do ritual, Walter Halloran, fonte que serviu como base para o livro Exorcismo, publicado originalmente em 1993 e lançado no Brasil pela DarkSide Books no ano passado.

 

exorcismo-darkside-capa-finalPara os impressionáveis, a leitura é um prato cheio para uma noite escura sob a luz de velas. Conta, de maneira detalhada, o verdadeiro calvário passado pelo garoto batizado de Robbie nas páginas, desde as primeiras manifestações do fenômeno de possessão demoníaca – que teve como gatilho brincadeiras com uma mesa Ouija praticada com sua tia espírita (Capitão Howdy manda lembranças) – até a batalha final entre a Igreja e Satã pela alma do guri.

Todo o expediente vivido ficticiamente por Regan, e ainda pior, estão lá: blasfêmia, flagelo físico, perturbação mental e espiritual, lacerações na pele com inscrições que aparecem do nada, poderosas manifestações telecinéticas, mudança de feições, conhecimento de línguas mortas, força sobrehumana e muita escatologia, como jatos de vômito, cuspe e urina lançados nos padres, entre tantas outras coisas.

Tudo pode parecer muito interessante tanto do ponto de vista religioso como psicológico e filosófico, ou para conhecer o suposto fato real que inspirou Blatty.

Mas conforme você vai virando as páginas, Exorcismo torna-se uma leitura repetitiva e deveras maçante, fazendo que todo esse interesse pela obra seja deixado lá nas primeiras páginas, dando lugar a um relato completamente automático da rotina do garoto possuído, família e padre, linguajar eclesiástico, extensa explicação das doutrinas jesuítas, e por aí vai.

Quase todos os capítulos do livro se resumem a essa mesma estrutura narrativa: o menino acorda bem, durante a noite passa a mostrar um comportamento errático, os padres são chamados, o Ritual Romano é recitado em diversas páginas gastas com rezas em latim e sua tradução – o que cansa o leitor tal qual uma missa dominical – o garoto esbraveja, vocifera, toca o terror até altas horas, por fim cansa, os padres dão a comunhão e tudo acaba para se repetir no dia seguinte, até o final, quando o “poder de Cristo o obriga” e o Coisa-Ruim finalmente vai de retro do rapazola.

Depois da forma mecânica, afastada e fria com que todos aqueles acontecimentos repetidos à exaustão são narrados e nossa leitura finalmente é exorcizada após bastante custo, a DarkSide trouxe como bônus para o leitor o diário original do Pe. Bowdern na íntegra, publicado em fonte typewriter – bastante interessante por sinal – se não fosse o caso de você ler novamente tudo aquilo de novo. Recomendo fortemente que você leia um ou outro, ou então, comece pelo relato tirado das páginas do próprio exorcista jesuíta.

Exorcismo possui a marca registrada de qualidade gráfica impecável da editora da caveira, com suas páginas amareladas, capa dura preta com uma cruz lindíssima, uma réplica do tabuleiro Ouija na contra-guarda, um indicador móvel de papelão para obter as respostas do além e o marca-páginas dourado, mas infelizmente, o que tem no miolo do livro, não é nada envolvente e bastante entediante. Ainda assim, vale a leitura pela curiosidade em conhecer o mais famoso caso de exorcismo moderno ocorrido nos EUA, narrado como verídico, e saber como ele inspirou a produção de um dos livros e filmes mais importantes do gênero, que ainda assusta nego até o dia de hoje.

Ficha técnica:

Thomas B. Allen – Exorcismo

Tradução: Eduardo Alves

Lançamento no Brasil: 2016

Editora DarkSide Books

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

1 Comentário

  1. José Cláudio C. Reis disse:

    O livro é exatamente o que você disse no texto. Levei muito mais tempo do que o normal em função da leitura cansativa, mas valeu a pena pela curiosidade e o acabamento. A Darkside lançou um outro livro sobre os Warren, de leitura bem mais fluente.

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