Cadê o engajamento do fã do horror?

Por que é mais fácil reclamar do que apoiar o gênero que gostamos tanto?

O recente cancelamento da série Ash vs. Evil Dead pelo canal Starz deixou a Internet em polvorosa. De repente, as redes sociais foram tomadas pela frustração furiosa de uma legião de fãs do seriado capitaneado pelo queridíssimo Bruce Campbell que clamavam por mais uma chance de acompanhar as aventuras de Ashley J. Williams em sua cruzada contra os deadties. Mas onde estavam estes fãs quando o Starz estava fazendo as contas? Pra onde foram os quase cem mil espectadores que a série perdeu em apenas sete episódios da sua terceira temporada?

Provavelmente baixando o seriado…

Não vamos negar que houve sim uma queda na qualidade da série desde a sua primeira temporada. Nem vamos ser hipócritas dizendo que não baixamos algumas séries, filmes, livros e quadrinhos. Principalmente se estivermos falando de um fã brasileiro, cuja distância entre a exibição da série lá fora e aqui nos deixa a mercê de babacas nas redes que não conseguem conter um spoiler e de canais por assinatura que não dão muita bola para o terror e suas vertentes. Neste caso, muitas vezes somos obrigados a recorrer ao tal do torrent, esta ferramenta tão querida e odiada.

Conferindo aqui o abaixo assinado pra Ash vs. Evil Dead voltar.

Mas vamos voltar à questão principal, e aqui vou generalizar mesmo: fã de horror, principalmente o brasileiro, não apoia o gênero como devia. Lá fora temos convenções gigantescas onde atores conseguem dar uma sobrevida em suas carreiras apenas vendendo autógrafos e tirando fotos com os fãs, canais especializados no gênero, museus, exibições e uma produção  de cinema de gênero que só cresce. Mas aqui, o cara não vai ao cinema, não compra livros, não compra gibis,não assiste a série na TV e mal frequenta esses encontros e festivais. O cara tem até a pachorra de não ver o filme na Netflix!

E, mesmo assim, TODA vez que cancelam uma série, ou deixam de exibir um filme aguardado nos cinemas, ele tá lá reclamando nas redes sociais. Mas na hora de dar o apoio e reconhecer o trabalho de dezenas de pessoas envolvidas naquela obra que ele tanto gosta, aí ele prefere fazer o download.

Quando o filme sai em DVD ou Blu-Ray, ele reclama, e com razão, que veio pelado, sem extras e com uma capinha porca, mas quando sai caprichado em box com conteúdo inédito, bonitinho, ele não compra porque tá caro. Está caro mesmo, infelizmente ser colecionador no Brasil é uma tarefa pra poucos, principalmente com nosso dinheiro que não vale nada, salário mínimo vergonhoso e a crise econômica, não vamos entrar aqui no mérito dos preços e custos do entretenimento no país, pois como disse lá em cima, estou generalizando mesmo, mas pelo menos selecione algumas de suas obras favoritas e compre a mídia física. Vá ao cinema, assista na TV, ou na Netflix, mesmo quando já viu online, mas não em uma conta hackeada ou do amiguinho.

Eu apoio meu escritor preferido.

Mas também não importa, se rolar um festival gratuito em algum centro cultural da cidade do fã, ele também não vai. Mas quando o evento acabar, ele vai estar lá comentando nos festivais de outras cidades que é uma pena que não aconteça nada do tipo onde ele mora. Cansei de frequentar festivais gratuitos em São Paulo com aquela meia dúzia de gatos pingados de sempre. Festivais que acabaram morrendo por falta de público para continuarem acontecendo. Festivais que são umas das poucas oportunidades de se acompanhar a produção nacional e até algumas coisas inéditas que chegam da gringa.

Aí chegamos a outro ponto curioso: fã de horror vive reclamando que “no Brasil não se faz filme de terror decente”. O que, por si só, já é uma bobagem sem tamanho que só demonstra, ou falta de conhecimento ou preconceito, mas ao mesmo tempo em que não vai ao cinema ver um horror nacional por achar que é “porcaria”, lota as salas pra ver um Annabelle qualquer da vida. Quantidade gera qualidade e só quando os produtores nacionais perceberem que terror brasileiro dá retorno é que teremos mais e melhores produções chegando aos multiplex brasucas.

E a falta de engajamento não para por aí. Certa vez, um grande cineasta brasileiro do gênero estava divulgando seu filme novo. O fã do horror não pensou duas vezes, já foi logo perguntando para o próprio realizador que investiu tempo dinheiro e muito suor naquele filme, onde é que ele poderia baixar o filme para ver. O fã de terror brasileiro não vai ao cinema numa quarta-feira ver um filme em promoção, mas gasta dez reais no camelô para comprar um DVD vagabundo. Mais vagabundo do que aqueles da Continental, que adoram criticar. E nem vou entrar na questão do financiamento do crime organizado. Ou você acha que é o tiozinho da barraquinha que autora, grava e imprime as capinhas dos DVDs piratas?

Cancelaram minha série! Vou fazer um textão!

Mas como resolver este problema? Como engajar o fã brasileiro do horror para que o gênero continue crescendo no país?

A solução mais simples e imediata é: APOIE A CENA NACIONAL!  Vá ao cinema, compre o DVD, o Blu-Ray, vá aos festivais, leia o livro, como diria Tim Maia, e dê seu feedback, curta e compartilhe. Mas o buraco parece ser mais embaixo. O entretenimento no país é caro. Se levarmos em conta a renda per capta do brasileiro, vamos chegar à conclusão de que ele tem outras prioridades onde gastar o seu dinheiro. Mas estamos falando de um gênero que é o nicho do nicho da cultura de nicho, mesmo que os números apontem seu crescimento.

Procure sessões promocionais nos cinemas de sua cidade. Em alguns lugares os cinemas costumam dar ótimos descontos nas sessões de segunda-feira. Vá até o gerente do cinema e pergunte sobre o mais novo lançamento de terror que ainda não pensaram em exibir. Mostre que o gênero tem fãs e que temos dinheiro para gastar com obras do gênero assim como os nerds que investem em peso em filmes de super-heróis e todas suas memorabílias e colecionáveis. Faça a voz do fã do horror ser ouvida como apreciador e consumidor e não só mimimi nas redes sociais.

Ele falou que horror nacional não presta!

E agora o 101 Horror Movies abre o espaço para o debate. Como você acha que podemos colaborar com o horror no Brasil? Deixe sua opinião e ideias nos comentários.


Rodrigo Ramos
Rodrigo Ramos
Designer, roteirista da HQ Carniça, coautor dos livros Medo de Palhaço e Narrativas do Medo. Fã e pesquisador de quadrinhos e cinema de horror. Tem mais gibis em casa do que espaço pra guardar e tempo pra ler, mas quem nunca?

8 Comentários

  1. Leander Moura disse:

    Concordo contigo, Rodrigo, em gênero e grau. Infelizmente é uma realidade lamentável. Como quadrinista independente sinto a mesma falta de ”cooperação” do leitores/compradores em eventos ou lançamentos de obras deste gênero tão amado ou odiado. Fazer terror no Brasil não é pra todo mundo (seja na literatura, quadrinho ou cinema, teatro e etc). Requer um esforço colossal uma vez que, o gênero ainda é subvalorizado e até mesmo ”ignorado” em categorias de certas premiações. Como fã do gênero acredito que o melhor apoio é consumir os produtos mesmo. É correr atrás, conhecer mais autores, festivais, e incentivar a produção.

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos disse:

      Nem me fale, meu caro! Como parceiro de quadrinhos de terror, comecei a sentir na pele as dificuldades de quem faz quadrinhos de terror por aqui. Um gênero extremamente popular nas HQs por volta dos anos 60 e 70 e que hoje não consegue ter uma categoria própria na maior premiação nacional do meio. Mas é isso, quem faz, faz por amor (e dinheiro) e faz por gostar mesmo. Senão já tinha desistido faz tempo!

  2. Anderson disse:

    Quando visitei as lojas Bloodbuster e a Profondo Rosso na Itália pensei nessa situação, como brasileiro não dá nenhum valor nem ao gênero nem ao produto nacional. Lá eles parecem ter muita paixão pelo tema e um grande orgulho dos produtos e produtores locais. Lugares como esses no Brasil não durariam alguns anos.

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos disse:

      Pois é… O gênero lá fora tem mais espaço, mas aqui já não temos tanto espaço. Mas até aí, somos um povo que vai pouco ao cinema e também lê muito pouco. Quando se dilui aí no meio dos que vão ao cinema pra ver filmes de horror e compram livros de terror, aí a coisa se complica mais ainda!

  3. Jason Wolf disse:

    O texto é do Rodrigo Ramos é? hahahah ta respondido o pq dessa síndrome de cachorro vira-lata.

    O Evil Dead é um dos melhores filmes de terror de todos os tempos, esse seriado por outro lado era fraquíssimo, apelava pras homenagens aos filmes pra sobreviver roteiro 0. Até que aguentou bastante, por isso que a audiência caiu tanto na terceira, começaram a se perder muito.

    Agora, no texto, ele meio que quer culpar os fãs por baixarem o seriado? Principalmente os brasileiros? A única opção que a gente tem pra ver o seriado é pelo Fox Premium, ou seja, só pra quem é assinante de tv a cabo.

    Ele redigiu um texto pra meter o pau no fã nacional de terror sim, pq se não desse dinheiro lá fora, a galera lá não tinha tanta cons promovendo a galera de terror, o Kane Hodder não faria vídeo agradecendo a falta de agenda pro restante do ano de tantos eventos que ele foi convidado (e bem pago) pra aparecer.

    Daí ele vai e cita os lançamentos em home vídeo aqui. O Blu-ray está bombando lá fora, o 4K também está se mostrando forte. O que o Brasil faz? Decide quase parar com os lançamentos em BD aqui. Os estúdios não lançam material complementar e enfiam a faca justamente pq é um filme do gênero. É só comparar, Versátil, Obras-Primas do Cinema, etc. É só o lançamento ser um filme de terror que eles dobram o preço. 79,90 no dvd pelado lançado pela Califórnia Filmes do Massacre no Texas (Leatherface 2017)? Quem lança filmes mais “baratos” como a Vynix e suas “afiliadas” lança com a matriz bugada e todas as cópias saem com defeitos, quem compra tem que ficar entrando em contado com eles pra ficar trocando mídias, etc.

    Você trabalhando, tem que pagar tv a cabo, netflix, cada ida ao cinema, você gasta no minimo 50,00… Ahh por falar nisso, e os títulos que só saem dublados pq a maioria pede? Quem quer ver o filme no áudio original tem que pegar a ultima sessão (quando é que tem) e acaba saindo tarde? Quando lança alguma edição legal, tem que desembolsar 60, 70, 80 reais por cada edição e nem vou entrar no campo editorial com os livros custando cada vez mais… 70,00 a Coisa do Stephen King? A pessoa tem que ganhar muito bem pra conseguir acompanhar tudo isso, ou ganhar uma boa mesada do papai e da mamãe. Desculpe mas você não está generalizando, está sendo infeliz nos teus comentários.

    O brasileiro (no geral) nunca foi fã pra abraçar um gênero e sair acompanhando tudo que dele sai. Sou colecionador desde os 10 anos de idade, trabalhei em videolocadoras por mais 15 anos, to com 32 anos agora. Existe a diferença entre os que curtem e os que amam. Os que curtem vão ao cinema ver o dublado, assistem qualquer coisa na netflix, baixam o pdf do livro, baixam o filme ou o seriado. Quem ama não, ele compra, ele discute, ele apoia e esses são cada vez mais raros hj em dia. Não adianta ficar cobrando a presença de todo mundo em feiras aqui pq eles não vão aparecer, isso é ficar esperando por algo que jamais vai acontecer, a geral vive de oba oba, se empolgam com o que aparece no momento. A onda passou, acaba a empolgação, sempre foi assim e sempre será.

    Antigamente, tinha sessões de filmes como o Cine Mistério (Anos 70/80), Cine Trash, Tv Terror, cine sinistro, estes dois últimos foram extinguidos ainda no começo dos anos 2000. Passavam filmes de terror no cinema em casa, na sessão da tarde… Hj em dia, quais são as opções para cinema de terror na tv aberta? o Cine Alta Tensão da Rede Brasil que passa todas às sexta-feiras às 02:30 da manhã? A mídia abre espaço pra todos os outros gêneros, mas na hora do terror, é impróprio, é ofensivo, é opressivo. Estou cansado de ouvir isso. Já participei de abaixo assinado pra enviar pra Band pra voltar uma sessão de terror com centenas de assinaturas e eles nem se deram ao trabalho de responder.

    A coisa é bem mais em baixo do que está dito ai…

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos disse:

      Boa noite meu caro!

      Rapaz, você falou bastante, mas acabei não entendendo. Você concorda ou não com o meu texto?

      Lá em cima eu falo que vou generalizar mesmo no texto, pra facilitar a linha de raciocínio, simplificando e direcionando melhor os argumentos. Também falo que sei o quanto as coisas são caras por aqui e como ganhamos mal pra encaixar tanta coisa que gostamos e que, no fundo são supérfluas mesmo. Também falei que sei que o horror é um gênero que é o nicho do nicho, por isso temos dificuldades de ganhar espaço, mas este espaço tem sido conquistado lá fora. Procura no IMDB o número de produções de horror por décadas e veja como o número só cresce.

      Aliás, você leu com atenção?

      Abraço!

    • Marcelo disse:

      Concordo totalmente. Parabéns pelo comentário.
      Apoio sempre . Podendo ou não, compro tudo de terror de versátil e obras primas do cinema. Vinyx nunca. Além de nada funcionar e o atendimento ser péssimo. Prefiro viver dos meus vhs.
      Quem ama mesmo abraça a causa. Coleciona desde o álbum do freddy e do Jason até bonecos ou dvds da Magnus opus!
      Tudo no Brasil é difícil, e como disse o amigo ai, ser colecionador hoje é para poucos.
      Nós que vivemos o auge do vhs, terror na tv aberta era tudo melhor. Hoje o filme mais de gênero fantástico que passa na tv aberta é shrek

  4. Italo Lobo disse:

    Vamos lá.

    Não sei se foi impressão minha ou não, mas em diversos pontos do texto parece que o download/torrent (pirataria, se assim preferir chamar) utilizado por muitos de nós é tratado como uma espécie de vilão. Ora, grande parte da bagagem de quem vai a fundo no gênero terror é explorar um mundo de filmes que só se acham por esses meios. Diga-me onde mais eu teria achado Intruder, de 1989, ou, pensando em algo menos desconhecido, Bênção Mortal de Craven, pra quem não consegue ver filmes em inglês sem legenda e de nada adiantaria importar um BluRay?

    No caso de ver o filme pelo cinema, netflix, comprar a mídia, ler, etc. Quais as diversificações dos mais variados terrores que a gente acha nesses meios? A Netflix mesmo, qualquer um percebe que seu catálogo de filmes é paupérrimo. O que passa nos cinemas então?

    Ou seja, ninguém tem culpa da porca distribuição cultural para o terror que nosso país possui. É ruim a pirataria? Pois sem ela, seríamos como essa geração que só consome se estiver disponível na Netflix ou Spotify.

    Eu adoraria que houvesse festivais como esse Fantaspoa do RS, mas o pouco que se tem aqui em SP são em horários fora de mão pra mim (trabalho muitos dias à noite) e, infelizmente, em escassas oportunidades.

    Quanto aos reclamões, isso infelizmente é produto da inclusão digital. Se por um lado a internet é maravilhosa, por outro gera pessoas acomodadas que só reclamam mesmo.

    O que precisaria, e isso você cita e eu concordo, é tentar reunir mais gente como nós para dar voz ao gênero do Brasil. Eu tento fazer minha parte compartilhando coisas e até escrevo alguns textos sobre filmes, a maioria sobre terror. Mas como pessoa sem um pingo de popularidade, infelizmente não sou eu que contribuiria para tal mobilização hahahaha.

    Mas enfim, por mais que enxerguei uma ou outra contradição no seu texto, sempre são boas análises desse porte.

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