Castle Rock: um rolê assustador pelo universo Stephen King

A nova série original produzida pelo Hulu te apresenta uma das cidades mais assustadoras das obras do rei do terror.


Falar sobre as adaptações das obras do autor americano Stephen King, para mim, é sempre um terreno pantanoso, cujo qual devo pisar com cuidado. Não nego que faço parte daquele time chato de pessoas que bradam aos quatro ventos que “o livro é sempre melhor” porque, pessoalmente, a literatura é uma das artes que mais identifico. Ainda mais porque cresci vendo os livros que eu tenho tanto apreço serem adaptados, em grande maioria, de maneira genérica e descartável, o que justifica aquele pé atrás que eu mantenho sempre que uma nova obra do Rei é anunciada.

Mas ok, entendo que a maior parte das produções lançadas nas década de oitenta e noventa eram mais modestas, em sua maioria feitas diretamente pra TV, com todas as características e defeitos específicos desse tipo de produção.

É claro que ao longo do tempo as coisas foram melhorando, os recursos e produções foram ficando maiores, até chegar num momento que a situação se inverteu de maneira inesperada. Se você tem o hábito de acompanhar meus reviews aqui no 101HM, sabe que o cuspe anda caindo na minha testa porque as últimas adaptações do King, num curto espaço de tempo, foram muito além do que eu, leitora fiel, esperava.

Estamos vivendo uma boa fase, onde os diretores veem que a árvore do escritor é extremamente frutífera, investindo pesado em adaptar essas obras em uma nova roupagem, e que até mesmo a gigante Netflix tem se arriscado ao lançar produções originais baseadas nos livros e contos do cara, como Jogo Perigoso e o excelente 1922, além, é claro, do fato de It: A Coisa, uma adaptação que a princípio se mostrava arriscada e que acabou resultando na maior bilheteria de terror da história do cinema.

Ou seja, Stephen King, mais do que nunca, tá em alta.

“Here There Be Tygers”

Até mesmo se analisarmos as obras que viraram séries televisivas, recentemente, o saldo é majoritariamente positivo. A segunda temporada de Mr. Mercedes, por exemplo, estreia em agosto no canal norte-americano Audience TV, depois de uma primeira temporada bastante fiel a trilogia de livros. Até mesmo 11.22.63, série lançada pelo Hulu e que teve apenas uma temporada, agradou em cheio o público, de tal maneira que o serviço de streaming resolveu investir novamente nesse formato com Castle Rock.

A parceria entre o badalado produtor e diretor, J. J. Abrams, e o escritor ganhador dos Troféus Golden se repete. Depois de trabalharem juntos produzindo 11.22.63, a dupla volta com esse novo projeto, um dos que eu classifico como dos mais ousados. Ambientada na cidade fictícia que dá nome ao título, a história não pode ser considerada, de fato, uma adaptação. Na verdade a ideia do criador da série, Sam Shaw, foi justamente a de usar Castle Rock, uma das cidades malditas presentes nos livros de King, como pano de fundo para contar uma nova história, com novos personagens, mas claro, pincelando aqui e ali referências dos livros em que a vizinhança é citada.

Apesar de Derry ser uma das cidades fictícias mais emblemáticas nos livros do autor (e minha favorita, aliás), palco de histórias como A Coisa, O Apanhador de Sonhos e Insônia, é em Castle Rock que coisas bizarras acontecem com maior frequência. A primeira vez que a cidade foi citada foi no livro A Zona Morta, em 1979, onde conhecemos uma das principais facetas da cidade: a de sediar acontecimentos bizarros, porém comuns, calcando-se muito mais nesse horror cotidiano.

Castle Rock já foi o lugar onde um serial killer matava mulheres inocentes (no já citado A Zona Morta), onde um bando de garotos resolve procurar um corpo de um rapaz morto (no conto “O Corpo”, do livro As Quatro Estações) ou a história famosa daquele são-bernardo raivoso que aterrorizou uma família. Ou seja, um pouco diferente de Derry e Jerusalem’s Lot, logradouros onde o sobrenatural está mais presente.

No entanto, um dos pontos mais importantes na cidade é a penitenciária Shawshank, mostrada ao público num conto chamado “Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank”, que também foi para o cinema, naquela que considero uma das melhores adaptações: Um Sonho de Liberdade. E é justamente em Shawshank, e nas histórias vividas dentro dos muros altos, que a primeira temporada de Castle Rock é focada.

No piloto, que estreou semana passada, conhecemos a história de Henry Deaver, um garoto que se envolveu numa situação obscura na infância, quando foi acusado de matar seu pai adotivo, reverendo da cidade, fato que o fez desenvolver uma amnésia parcial. Já adulto, (interpretado por André Holland) trabalha como advogado defendendo prisioneiros condenados à pena de morte. Um dia, recebe um estranho telefonema, de alguém ligado a Shawshank, pedindo para que venha defender uma determinada pessoa, e ele então decide voltar pra cidade de Castle Rock, onde sua mãe (Sissy Spacek, também conhecida por interpretar Carrie White nos cinemas) ainda vive.

Ninguém vai rir de você, mãe…

Acontece que essa pessoa que Deaver precisa defender não é exatamente um dos prisioneiros da penitenciária. Durante uma expedição a um pavilhão que fora destruído trinta anos atrás, por um incêndio, um dos policiais encontra um rapaz, aparentemente mantido escondido ali, dentro de uma gaiola. O rapaz (o excelente Bill Skarsgård, que também interpreta o novo Pennywise, porém os personagens não tem nenhuma ligação, tá?) parece alheio a sua condição, e não consegue dizer nenhuma informação acerca de si mesmo. A única coisa que consegue balbuciar é o nome de Deaver, pois fora ensinado por Dale Lacy, antigo diretor da prisão que – descobrimos por meio de flashbacks – é a pessoa que manteve o rapaz em cativeiro todo esse tempo.

Acho que o fato de vermos ali uma história completamente nova, não contada anteriormente, é algo que pode decepcionar os desavisados de plantão, que anseiam por algo vindo diretamente de um dos livros de Stephen King. No entanto, todo o clima presente na cidade, bem como as citações que você vai encontrando ao longo do caminho, vão acertar em cheio aqueles leitores obcecados pelo rei do Maine. Ou vai me dizer que você, sendo fã como eu, não teve um ataque de pelanca ao ver o nome do xerife Alan Pangborn, bordado em seu uniforme, logo na sequência de abertura do episódio?

Ou quando você nota que há uma moradora chamada Jackie Torrance? Essas pequenas referências parecem ser o ponto alto da série, pois nos lembram a todo minuto que estamos vendo algo passado dentro desse “universo compartilhado” criado por King. Mas imagino que, até para aqueles que não são familiarizados com a obra do autor, o enredo vai funcionar perfeitamente.

Mesmo porque a ideia original dos criadores e produtores é justamente focar no estilo antologia, um formato que vem fazendo muito sucesso em séries de terror, como American Horror Story e Channel Zero, por exemplo. A linha narrativa irá se renovar, assim como o elenco, em cada nova temporada, ligando vários personagens e situações por meio de uma única linha de condução: a cidade.

Se isso vai realmente dar certo, é cedo pra afirmar. Mas a julgar pelo que vi até o momento, creio que a série tem um excelente potencial que, orquestrado pelas mãos certas e mantendo o foco na ambientação dos livros, tem tudo pra ser a obra definitiva do autor para a TV. Vou continuar acompanhando para saber se estou realmente certa ou se vou quebrar a cara novamente, pois quando se trata de adaptações, tudo é possível, mesmo tendo em mente que o que importa, na verdade, não é apenas o veredito final, saber se Castle Rock é boa ou ruim, e sim o caminho que vou percorrer para descobrir.

E, uma coisa tenho certeza: a jornada feita por essa cidade vai ser assustadora.

Viajante intermunicipal.


Niia Silveira
Niia Silveira
Francesco Dellamorte em versão feminina, mas que já leu outros livros além da lista telefônica. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

2 Comentários

  1. EDUARDO FREDERICO COSTA CORREIA disse:

    A premissa da série são referências ou seria um universo compartilhado ?

    • Niia Silveira disse:

      Eduardo, a ideia original é que a série se passe dentro desse universo compartilhado, então as referências que aparecerem ao longo dos episódios serão em consequência disso.

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