Castlevania: um mundo animado sombrio

Inspirada na já trintona série de jogos de videogame, produção de Warren Ellis para a Netflix peca pela sua curtíssima temporada


Geralmente, antes de escrever sobre algo, gosto de dar uma boa pesquisada no tema, se ele for minimamente interessante. Diria até que um dos meus hobbies favoritos é mergulhar em um universo, buscando conhecê-lo mais a fundo e coisas do tipo. Infelizmente, não foi possível fazer o mesmo com a nova série da Netflix, Castlevania. O motivo? A franquia de jogos existe há mais de trinta anos. Ah, e eu nem sequer tenho videogame… Pois bem, resolvi abraçar essa ignorância (com um tiquinho assim de pesquisa), e escrever essa crítica do ponto de vista de um espectador comum, que nunca jogou nada dessa franquia, mas que adora uma boa história de vampiros.

Chama atenção na série sua curta duração: a primeira temporada inteira não passa dos 100 minutos, divididos entre quatro episódios. O lado bom é que uma segunda temporada já foi encomendada para o ano que vem, contendo o dobro de episódios. Aparentemente, o projeto inicial desenvolvido pelo icônico quadrinista Warren Ellis, que data ainda na década passada, pretendia ser uma série de filmes animados inspirados no jogo Castlevania III, que traz o caçador de monstros Trevor Belmont e seu embate de proporções bíblicas contra o Vampiro dos vampiros, o Conde Vlad “Drácula” Tepes.

Personagens em suas melhores poses de anime

Aqui, irei me referir ao desenho como anime, dada a clara influência artística oriunda das animações sequenciais japonesas. Entendo que alguns podem discordar dessa definição, exatamente por se tratar de uma obra ocidental mas, segue o jogo. Ao contrário do que vemos nos desenhos nipônicos, Castlevania falha em um ponto crucial, chamado: personalidade. Esteticamente, o anime se parece com todos os outros produzidos por companhias americanas, ao passo que, lá do outro lado do mundo, as particularidades dos autores estão sempre em evidência.

Episódio 1: Garrafa da Bruxa

O primeiro episódio nos apresenta Lisa, uma cientista que é atraída ao castelo de Drácula por conta de seus vários avanços tecnológicos. Essa perspectiva de um Conde largamente interessado e investido em artes misteriosas e experimentação é semelhante ao que vemos no seriado Dracula (2013), que infelizmente foi cancelado. A moça conquista o coração morto de Vlad Tepes graças ao seu intelecto e personalidade ousada. Não só ela conquista o vampirão, como ainda amolece seu coração o suficiente para ele pegar leve com a humanidade e encerrar sua atividade favorita de empalamento.

Anos depois, já com o relacionamento dos dois bem estabelecido, Drácula está viajando pelo mundo como um mortal, ampliando seus horizontes. Lisa continuou com suas práticas científicas até que a Igreja Católica tomou nota de sua presença, levando o poder da inquisição até ela. Por sua ciência e atuação como médica, ela foi condenada à fogueira como bruxa. A suposta ligação da moça com o capeta acabou provando-se verdadeira, mesmo que da forma errada, quando um Drácula vingativo se manifesta na forma de um rosto gigante infernal feito de fogo, para ameaçar todo o povo que matou sua amada.

A construção do episódio inicial é inteiramente intencionando a fomentar Drácula como um vilão simpático, cujos motivos não nos pareça vilanesco demais, do tipo “dominação do mundo”. Apesar disso, a introdução de Lisa é apressada, de forma que toda a afinidade que supostamente deveríamos sentir por ela simplesmente não aparece, o que afeta diretamente no resultado almejado. O episódio é cheio de informação e tem um ritmo demasiado acelerado.

É difícil dizer aonde que a história ou o personagem em si se encaixa em relação a mitologia dos jogos, mas aqui temos uma das formas mais overpower do personagem que já vi. É algo como a versão do Dark Universe, ou Drácula: A História Nunca Contada ou até com o Alucard do anime Hellsing (nunca viu, então vá ver agora!). Acredito que quem curte uma versão mais contida do personagem pode não ficar tão feliz com essa versão bombada. Mas os poderes são interessantes o suficiente para nos conquistar.

Episódio 2: Necrópolis

Se o primeiro episódio nos introduziu a um vilão não tão vilanesco, o segundo vai apresentar um herói não tão heróico, Trevor Belmont, dublado por Richard Armitage (o Thorin de O Hobbit e o Dragão Vermelho da série Hannibal), com sua poderosa voz. Trevor é um anti-herói típico, que recusou abertamente seu papel de salvador, depois que sua família, os Belmonts, foram excomungados da Igreja e acusados de heresia, após anos dedicados ao combate de monstros.

O país de Wallachia agora está inteiramente sob as garras do mal, agora que Drácula começou a executar sua vingança pela morte de sua esposa. O Conde libertou sobre aquela terra uma horda de bestas infernais, mas Trevor permanece alheio a tudo isso, vivendo como um bastardo, brigando bêbado em bar e coisas assim. Imediatamente mostra-se como um personagem facilmente relacionável e divertido, com um visual cool.    

Nesse episódio, ainda aparece pela primeira vez um grupo conhecido como Speakers. Eles são uma força de resistência, que acredita na paz, no auto-sacrifício e em ajudar o próximo acima de tudo, sendo motivados puramente por altruísmo. O que parece ser um grupo de velhotes monges é, na verdade, uma ordem antiga que domina vários conhecimentos sobre o mundo e sobre magia. Eles são um elemento chave durante a temporada, especialmente por serem o grande fator motivacional que levará Trevor à combater Drácula.

Episódio 3: Labirinto

Trevor é bem mais explorado para além de seu desprezo pelo mundo e também conhecemos mais a fundo a ordem dos Speakers. Aparentemente, sob Gresit, a cidade em que se encontram, há um soldado adormecido que, de acordo com as lendas, se juntaria na luta contra o Conde. Um dos pontos altos dessa temporada ocorre na busca por esse guerreiro, quando Trevor se vê em combate com um ciclope olho-de-pedra, criatura mítica que emana um raio petrificante de seu único olho. A animação é bem fluída e a ação bem retratada.

Lá, ele conhece Sypha, a única integrante feminina dos Speakers, que também é uma maga poderosa. Aparentemente, a lenda em que o soldado adormecido é mencionado, dizia que ele seria encontrado por uma feiticeira e um caçador. Fica claro nesse ponto que a intenção da primeira temporada é de introduzir os espectadores ao mundo de Castlevania. A aparição de Drácula fica restrita ao primeiro episódio, e vamos conhecendo mais e mais de seu universo, na companhia de Trevor e, agora, de Sypha.  

Episódio 4: Monumento

Besta do Inferno versão Neon

O episódio final me lembrou fortemente do longa Van Helsing, aquele de 2004 estrelado por Hugh Jackman que todo mundo odeia (e eu amo, me julguem). Na cidade de Gresit, incapazes de encontrar o soldado, os Speakers se veem à mercê da população linchadora furiosa, que foi convencida pela igreja dos males causados pelos sábios.

Outro mote fantástico da série é um desprezo notável pela Igreja Católica, colocada aqui como uma entidade corrompida e egoísta, capaz de levar o mundo e a humanidade à ruína. Antes que a fúria da população possa ser colocada em prática, uma hoste de vampiros bestiais e criaturas do inferno atacam o lugar em peso, forçando Trevor a agilizar uma reação imediata. Enquanto improvisa água benta e organiza civis, ele é o primeiro que se põe contra as feras de forma bem sucedida, ganhando o apoio da população, e motivação renovada.

Um dos elementos mais divertidos da série é o excesso de violência. Apesar dos desenhos não serem gráficos no sentido de conter detalhes, há uma boa quantidade de desmembramentos, vários litros de sangue, pedaços humanos, crianças mortas e até um berço vazio cheio de sangue. Palmas para a Netflix pela decisão, a última coisa de que precisávamos é outra obra sobre vampiros sem sangue (Drácula: A História Nunca Contada, estou olhando para você). Esse também é o episódio mais carregado de ação e o clímax da série, que é ridiculamente curta, diga-se de passagem mais uma vez.

Novamente, uma penca de coisas acontecem ao longo dos capítulos, no sentido de resolver pontos da trama que haviam sido estabelecidos até então. A breve temporada realmente terminou de forma bem explosiva. Apesar de empolgante, não há como não se decepcionar com a curta duração, já que temos, basicamente, um filme dividido em quatro partes.

Como mencionado antes, o próprio Drácula aparece bem pouco, de forma que Trevor é o protagonista em tempo integral. Pelo pouco que já ouvi falar dos jogos, essa parece ser uma abordagem fiel.  

É impossível eu dizer aonde o anime se encaixa em meio aos jogos, ou se se mantém fiel. Mas se você é conhecedor da série de videogame, só deixar seu comentário aí embaixo. Não obstante, como uma série própria, ela funciona muito bem, sem depender de nenhum conhecimento prévio. Apesar dos problemas, é um conteúdo que provavelmente agradará a maioria dos fãs de horror ou quem curte uma diversão vampírica. Poderia facilmente ter se aproveitado de um ou dois episódios a mais, para reduzir o ritmo acelerado do começo e nos deixar imergir um pouco mais nesse mundo sombrio e cheio de bestas.

Como isso não aconteceu, fica com o título de série mais maratonável da Netflix e a expectativa pela segunda temporada em 2018.

Dracula ensinando Sedução 101


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

2 Comentários

  1. thiago disse:

    Se eu puder dar uma sugestão, escute os episódios do podcast 99vidas sobre Castelvania, que são uma boa introdução ao universo dos jogos.
    E se puder, mesmo que no emulador, tente jogar pelo menos um pouco de Castelvania Sinfonia da noite, que apresenta diversas explicações sobre s história da série, e tem uma ligação direta com o que é mostrado nela.

    • Daniel Rodriguez Daniel Rodriguez disse:

      Thiago, muito obrigado pelas indicações.Vou procurar com certeza, já que curti muito a série.

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