Channel Zero: A melhor série do ano passado que você talvez não tenha visto

E, por incrível que parece, é um original do SyFy Channel!!!!


Qual é a primeira coisa que lhe vem a cabeça quando você ouve a respeito de alguma produção original do SyFy Channel? Aposto que alguma trasheira demais, de baixíssima qualidade de roteiro, interpretação, direção, dramaturgia, que abusa de efeitos em CGI toscos e associação nefasta com a produtora The Asylum. Estou certo?

Pois bem, e se eu lhe disser que a melhor série do gênero do ano passado é exatamente uma produção do canal? Surpreendente, não? Esqueça Penny Dreadful, Ash vs Evil Dead, American Horror Story, The Walking Dead, Outcast, Stranger Things e similares. Channel Zero: Candle Cove consegue colocá-las no bolso, e sem um terço do hype de todos os televisivos citados acima. Aliás, é uma série bem obscura e pouco conhecida e pode ter passado batido para muita gente, como esse que vos escreve, e que ao final me fez indagar: POR QUE DIABOS EU DEMOREI TANTO PARA ASSISTI-LA?

Fato que só conheci Channel Zero em um bate-papo no começo desse ano com o Makson Lima antes da cabine de imprensa de O Chamado 3 , um dos colaboradores aqui do 101HM, me falando maravilhas da série com brilho nos olhos, pontuando o nome dos envolvidos e me descrevendo a bizarríssima criatura-menino feita toda de dentes.

Pois bem, Channel Zero é uma antologia (aprende aí, AHS) desenvolvida por Nick Antosca (nome a se ficar de olho, viu), o roteirista de Hannibal, Teen Wolf, Floresta Maldita (tá, esse nem conta) e do malfadado projeto descartado do novo Sexta-Feira 13, baseado em populares creepypastas – pequenas lendas de terror, contos ou imagens que são divulgadas pela Internet como reais – sendo que essa primeira temporada de seis episódios que você assiste num binge-watching quase sem piscar, é inspirada na história Candle Cove, criada pelo webcartunista Kris Straus em 2009 e espalhada pelos fóruns da interwebs, centrada em um programa fictício de televisão que só era visível para um pequeno grupo de pessoas, predominantemente crianças.

Na série, Mike Painter (Paul Schneider) é um psicólogo infantil que retorna para sua cidade natal, Iron Hills, em Ohio, quase 30 anos depois de uma série de assassinatos de crianças acontecidos em 1988, incluindo o desaparecimento de seu irmão gêmeo, Eddie. Esses crimes sem solução até então, têm ligação com o tal Candle Cove, um programa infantil de marionetes sobre piratas – que é pra lá de perturbador, diga-se de passagem – transmitido em um sinal pirata de televisão, onde poucas crianças assistiram, e aparentemente, as influenciaram a atitudes suspeitas e assassinas (que me lembrou em vários momentos de Halloween III: A Noite das Bruxas), tendo os irmãos Painter como centro deste mistério.

TV Pirata

TV Pirata

Sabe os nomes dos envolvidos que escrevi lá em cima? Pois bem, a antologia completa é dirigida por Craig William McNeill, o mesmo diretor do sensacional O Garoto Sombrio (ARGH que título em PT-BR ridículo para The Boy), disparadamente um dos melhores filmes de 2015. Esse fato por si só garante uma espécie de unidade narrativa em uma mesma atmosfera durante toda a temporada, que se divide em flashbacks e os acontecimentos atuais. Quem conhece o trabalho de McNeill sabe que ele é bem minimalista, contido, que vai desenvolvendo o clima e os personagens aos poucos, de forma arrastada, e completamente avesso ao jumpscare (não me lembro de absolutamente nenhum em toda a temporada!). Candle Cove tem tudo isso, nunca se mostrando apressado ou preocupado com cliffhangers, bem aos moldes das séries exibidas no Netflix, mesmo nesse caso, sendo episódios semanais.

A construção toda desse clima creepy as hell se deve além da direção e do roteiro intrigante e inteligente de Antosca, à trilha sonora de Jeff Russo, a fotografia de Noah Greenberg, que trabalhara com McNeill em O Garoto Sombrio, e uma série de personagens tétricos e surreais – incluindo as marionetes e suas versões cosplay humanas capaz de transformar fantasias toscas em algo genuinamente assustador –  e um bestiário digno de saído do Silent Hill, como “O Esfolador” e “The Tooth-Child”, o monstro todo feito de dentes que causa uma aflição danada só de olhar e ouvir o barulho agoniante deles raspando um no outro quando se move. UNGH!

Aliás, o supervisor de produção e escritor de alguns episódios é ninguém menos que Don Mancini, o criador do Chucky, dividindo o cargo também com Harley Peyton, produtor de Twin Peaks, e um dos produtores executivos do show é Max Landis, filho de John Landis, roteirista de Poder Sem Limites, Victor Frankenstein e o futuro diretor do remake do grande clássico de seu pai, Um Lobisomem Americano em Londres. É muita gente boa envolvida, ou não é? Ainda mais para os padrões SyFy! O resultado não poderia ser diferente.

A temporada de debute de Channel Zero, que fora exibida em outubro do ano passado na gringa, beira a perfeição, com destaque principalmente para seu season finale e  todo seu design de produção e criaturas, tirando um leve problema de timing/ edição no final e a atuação absolutamente apática de Schneider, mas que acaba nem comprometendo em nada uma série com um argumento tão inovador, que abusa do terror psicológico, elementos fantásticos dark, crianças assassinas influenciadas por um programa de TV e um viés sobrenatural que em nenhum momento apela para o didático e explicações faceiras, algo que o gênero pede com clamor atualmente, onde somos bombardeados cada vez mais de conteúdo audiovisual clichê, pasteurizado, voltado somente para o público young adult, que infelizmente sabemos, não é nem um pouco exigente e gosta de fórmulas prosaicas, e aviso aos navegantes, pode não apreciar a experiência inebriante que é assistir Candle Cove.

A notícia boa é que a série foi renovada por mais três temporadas, e a segunda já está em desenvolvimento para estrear no final do ano (já até está rolando o teaser), que será batizada com o subtítulo de No-End House, baseado na creeypasta de Brian Russell sobre a visita de uma jovem a uma casa mal-assombrada com quartos sinistros, e trará novamente Antosca como produtor executivo, showrunner e escritor, junto com essa turma boa, e direção dos seis novos episódios por Steven Piet (que só tem em seu CV a direção de Uncle John de 2015, mas bom saber que manterá essa fórmua de um único diretor).

Se você, como eu, não viu Channel Zero: Candle Cove, pare tudo que está fazendo e assista agora mesmo, e com certeza também nunca mais falará mal do SyFy. Pelo menos não com tanta veemência…

Nhiaaaar-nhiar-nhiar-nhiar-nhiar!

Nhiaaaar-nhiar-nhiar-nhiar-nhiar!


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

2 Comentários

  1. Douglas disse:

    Realmente terminei no sábado passado é gostei bastante , mas n coloca no bolso stranger Things n dá KKkk aí já exagerou um pouco até demais né

  2. Lisi disse:

    Eu já esperava muito de Stranger Things e superou as expectativas. Mas baixei Channel Zero naquelas de “ver alguma coisinha antes de dormir” e apaixonei pela série. Tem algo a mais na atmosfera dela, talvez a inspiração a partir de uma história de creepy pasta seja esse algo a mais. Curiosíssima com a próxima temporada!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *