Channel Zero continua mais creepy do que pasta

No-End House, segunda temporada da série de Nick Antosca para o SyFy, mantém qualidade da primeira, apesar de deixar a desejar, mas traz um tipo bem sinistro de casa mal-assombrada


Candle Cove, a primeira temporada de Channel Zero, série de antologias baseadas em creepypastas e criada por Nick Antosca para o SyFy, chegou de fininho, sem muito alarde, e cercado de obscuridade se tornou fácil, sem a menor sombra de dúvida, a melhor série do gênero no ano passado.

A expectativa por sua segunda temporada, No-End House, não poderia ser maior. Afinal, além de Antosca, que de lá pra cá provou ser um sujeito confiável e digno de esquecer outras tranqueiras que já havia escrito para o cinema (tipo Floresta Maldita), o televisivo também tem em seu time de produtores executivos Don Mancini, o pai do Chucky, e Max Landis, filho do diretor John Landis. A lenda urbana da Internet da vez a ser adaptada foi a pasta “Casa Sem Fim”.

Creditado a Brian Russell, “NoEnd House”, em seus 5.273 caracteres, narra em primeira pessoa a história de um sujeito que entra na tal casa sem fim, um imóvel mal-assombrado repleto de quartos, um mais assustador que o outro, e no final, chegamos a possível conclusão que ele nunca saiu de lá. Para falar a verdade, de assustador, essa curta história não tem nada.

Agora, o que Antosca e cia limitada fizeram – mais uma vez, diga-se de passagem – é impressionante. Com a direção dos seis episódios na conta de Steven Piet (mantendo a fórmula mega acertada da temporada anterior, onde apenas um diretor foi responsável por todos os episódios e conseguiu imprimir unidade e narrativa estética), No-End House pegou apenas os pilares de sustentação da creepypasta e transformou em uma viagem metafísica pra lá de sinistra e hermética sobre uma casa que manipula o espaço e tempo, um tipo de portal para uma dimensão paralela, em um ciclo perpétuo em busca de vítimas para devorar as lembranças das pessoas que ali entram e assim se manter viva. E para isso ela produz doppelgangers!

O que mais impressiona em Channel Zero é que tanto em sua primeira temporada, quanto nesta, a sua intenção de ser mainstream é igual a ZERO. Enquanto séries e mais séries por aí apostam em fórmulas fáceis, roteiros batidos, um sem número de clichês e qualquer tipo de cliffhanger, mortes de personagens ou reviravoltas para segurar a audiência média e dar exatamente o que eles querem, aqui, somos testemunhas de um produto quase que experimental, que tem em sua maior preocupação a trama – sempre deveras complexa e recheada de suspensão da descrença – desenvolver os personagens, construir um ritmo mais lento (e absurdamente sentimental neste caso) e abusar de uma imagética sinistra para criar a atmosfera de desconforto.

Era uma casa nada engraçada…

A temporada em seu arco completo traz um grupo de quatro jovens que entra na “Casa Sem Fim”, exatamente uma lenda online sobre uma casa com seis cômodos que aparece uma vez por ano em um específico ponto aleatório do planeta –  não tem absolutamente nenhuma explicação sobre isso, o que é louvável, e na real, nem precisa – sendo que ninguém consegue chegar no sexto quarto, de tão assustador, e claro, os que conseguiram, reza a lenda que nunca saíram de lá.

A personagem principal deste grupo é Margot (vivida por Amy Forsyth), que tenta superar o suicídio de seu pai (o conhecido rosto de John Carrol Lynch, ótimo no papel) e o seguinte abandono de sua melhor amiga, Jules (Aisha Dee) que foi fazer faculdade. Pois bem, ao conseguirem sair do local, as duas amigas voltam para casa e Margot descobre que seu pai está vivo e benzão na cozinha, e é aí que todo o WTF do seriado começa e segue até seu último minuto envolto em uma aura tétrica, enquanto uma estranha sensação etérea acompanha personagens e espectador em cada episódio.

E ao melhor estilo horror psicológico do bom, aquele que a gente gosta, a “Casa Sem Fim” se mostra genuinamente assustadora não pelos subterfúgios mais básicos do subgênero, mas sim por se alimentar de medos palatáveis e manipular a mente dos que ali se encontram, criando situações de conforto ou de fuga da realidade, para deixá-los vulneráveis e presos no local, e enquanto isso, literalmente devorando suas lembranças. Quem não gostaria de viver num looping ad infinitum de algo bom que aconteceu na sua vida, uma segunda chance, poder conviver novamente com um ente querido que se foi, ao invés de encarar a realidade e seguir em frente, mesmo que ali seja irreal, mas contanto que traga conforto? E a forma como ela se alimenta dessas memórias, definitivamente já entrou pro time das coisas mais bizarras já feitas na história da televisão, acredite.

Mas, No-End House não é tão foda quanto Candle Cove, sofre de algumas barrigas, se arrasta demais e demora um pouco para convencer – digamos que a partir do quarto episódio que a série realmente pega no breu – mas ainda assim, é de uma qualidade narrativa e de roteiro ímpar, completamente diferente do que estamos acostumados a ver em um monte de enlatados por aí. Mostra que Antosca está no caminho certo e conseguiu manter o nível, entregando mais um produto acima da média, e para poucos.

A terceira temporada, já está confirmadíssima, e intitulada Butcher’s Block, que será dirigida por Arkasha Stevenson, baseada na pasta “Search and Rescue Woods”, de Kerry Hammond. O enredo? Duas irmãs que descobrem uma estranha escada que está conectada  ao desaparecimento de seus vizinhos. Só pela sinopse, podemos esperar mais um festival de bizarrice e atmosfera creepy, já marca registrada de Channel Zero.

Ocupação artística


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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