Channel Zero: uma terceira temporada mais tétrica do que nunca

Butcher’s Block é perturbador, bizarro, incômodo, gore e tem Rutger Hauher. Quer mais o quê?


Já elogiei anteriormente aqui no 101HM a série Channel Zero, antologia de horror baseada em famosos creepypastas, criada por Nick Antosca para o SyFy. A primeira temporada, Candle Cove foi a melhor série do gênero exibida nas telinhas em 2016, enquanto a segunda, No-End House, apesar de uma queda de qualidade com relação a antecessora, manteve o nível de bizarrice e originalidade lá em cima.

Exibida do começo de fevereiro até semana passada, a terceira temporada (esta vez estreando mais cedo que o costumeiro mês de Halloween), Butcher’s Block, é quase um pesadelo tétrico de seis horas, onde Antosca invoca David Lynch às últimas consequências e conseguiu elevar ainda mais as expectativas em uma produção completamente perturbadora, desconcertante, provocadora e insólita, mandando às favas – novamente – qualquer padrão convencional para uma série de terror e prezando somente pela experiência, não importa o quão surreal ela seja. E acredite, ela é surreal até o talo.

Tenho repetido esses adjetivos em quase todas as resenhas das temporadas anteriores, mas realmente eles se fazem necessários, mesmo que às vezes, Antosca até exagere na dose, querendo ser muito bizarro e fora da casinha, o que pode até soar enfadonho vez ou outra. Mas a estranheza e ojeriza que assistir Butcher’s Block causa, além da constante sensação de desconforto, principalmente com uma boa dose de cenas de gore, nojeira, canibalismo, autoflagelação e toques doentios humor negro, é digno de nota pela ousadia.

Dessa vez, a fonte de inspiração foi a creepypastaSearch and Rescue Woods”, publicada no Reddit por Kerry Hammond, sob o pseudônimo de searchandrescuewoods em 2015. A história segue as experiências do narrador, um funcionário da polícia florestal, que se depara com situações sobrenaturais em uma floresta nacional que envolve estranhos desaparecimentos e uma misteriosa escadaria que aparece no meio da mata.

Stairway to heaven… SQN!

O que dá um caldo perfeito para Antosca, por meio da direção de Arkasha Stevenson, contar a história das irmãs Alice (Olivia Luccardi – de Corrente do Mal) e Zoe (Holland Roden), que se mudam para a cidadezinha de Garrett para se afastar de sua mãe, internada em uma instituição psiquiátrica. Alice arruma um emprego como Assistente Social, quando uma mãe e sua filha pequena desaparecem na região da cidade conhecida como Butcher’s Block, ou em livre tradução, O Quarteirão do Açougueiro.

Aquele esquecido local representa a parte pobre e subdesenvolvida do município, culpa da crise econômica após o abatedouro que sustentava financeiramente a comunidade ter sido fechado após o desaparecimento da família que controlava o negócio, os Peaches, comandadas pelo patriarca Joseph Peach, personagem do veteraníssimo Rutger Hauer, que encara seu papel da forma mais sinistra possível.

O local sempre foi conhecido por estranhos desaparecimentos sem solução, valendo da vista grossa das autoridades, e reza a lenda urbana que os Peaches eram praticantes do ocultismo e veneravam uma deidade cósmica, oferecendo-a sacrifícios humanos. Bom, a partir daí temos muito pano pra manga para seis episódios que vão da perversão ao delirante, do terror atmosférico ao surrealismo pavoroso, que misturam desde o horror cósmico lovecraftiano, a crianças deformadas que parecem ter saído de Filhos do Medo de Cronenberg, antropofagia, um boneco com enorme rostos de papel marchê de dar calafrios, uma apavorante personificação da esquizofrenia, um divindade pagã com rosto de crânio de veado, a tal escadaria no meio da floresta que leva a um portal dimensional, até uma estranhíssima criatura sem pele com a carne e músculos expostos que faz juz ao melhor de Clive Barker.

Pois é, Butcher’s Block reúne todas as experimentações malucas e doentias anteriores de Channel Zero, e Antosca – dessa vez sem a parceria de Don Mancini e Max Landis na produção executiva – sobe um degrau na desconstrução plena do horror grotesco, colocando em tela a conjuntura das piores imagens de um pesadelo febril, misturados com uma dose de beleza onírica (o campo dimensional de flores amarelas é um exemplo disso) e depressiva, sem deixar de lado uma história sinistra, personagens afetados e situações inimagináveis em qualquer obra convencional, dosando com maestria violência gráfica e sequências nauseabundas.

Channel Zero – Butcher’s Block é uma obra visual inigualável e dotada de uma imagética poderosa, poucas vezes vista no gênero, tanto no cinema quanto na TV. Que Antosca, e vejam só, o SyFy, continuem jogando combustível inflamável nesses corajosos pesadelos bizarros e nos presenteado com essas verdadeiras gemas televisivas, mesmo que sem o buzz e reconhecimento que deveriam.

Com escamagris e gengivite!


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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