Contagem regressiva para It: A Coisa

O que eu, fã assídua do livro do Stephen King, espero ver na nova adaptação para as telas


Hoje chegou aos cinemas A Torre Negra, baseado na obra do ganhador do Troféu Golden, Stephen King, mas o que importa de verdade é que faltam DUAS SEMANAS  para a estreia da primeira parte da nova adaptação de It: A Coisa, e eu mal consigo conter minha empolgação, afinal, é uma nova chance de ver meu livro favorito sendo representado nas telonas, e dessa vez, de uma maneira satisfatória, pelas mãos do diretor Andrés Muschietti.

Mas calma, isso não quer dizer que eu desgoste de It – Uma Obra Prima do Medo, aquela versão lançada como minissérie lá nos anos 90, tampouco quer dizer que eu sou daquelas fãs xiitas que alegam que o livro sempre é uma mídia superior. Só acho que a primeira adaptação deixou um pouco a desejar em alguns pontos, mas isso é compreensível dentro da situação, afinal, espremer um calhamaço de 1.102 páginas e conseguir um resultado de acordo é uma tarefa hercúlea.

O livro A Coisa, publicado em 1986, é arrebatador. Eu simplesmente não consigo pensar em outro adjetivo para a experiência da leitura, e acredito que todo mundo que já teve a oportunidade de ler a obra pensa de forma muito parecida. Stephen King conseguiu, depois de longos quatro anos de trabalho, criar sua obra prima e gravar definitivamente seu nome no Hall da Fama. A maneira como ele esmiúça toda a história, praticamente dissecando seus personagens de maneira tão complexa, faz com que sua atenção seja completamente tomada e lhe falte fôlego.

De certa  forma, tudo o que vemos na primeira adaptação é o resumo da ópera, onde sete crianças se unem ao perceberem que a cidade onde moram esconde algo muito macabro. Elas encontram a Coisa, a enfrentam, mas depois de anos, ela reaparece, recomeçando o ciclo de horror e obrigando os amigos, agora já adultos, a retornarem para derrotá-la.

A falta de recursos e o baixo orçamento, em uma época que o made for TV não era exatamente um Game of Thrones, fizeram com que a narração, tão rica de detalhes, ficasse muito aquém do esperado, isso sem contar seu final abrupto e frustrante. Resolvi então, dividir com vocês, leitores do 101HM que são tão fãs de King quanto eu, todos os pormenores que eu espero ver nas telonas em setembro. Já adianto, também, que o artigo a seguir está repleto de SPOILERS, e caso ainda não tenha lido o livro, leia o texto por sua conta e risco, ok?

Tudo por culpa de um barquinho de papel

A começar por aquele que acredito ser o principal personagem da história: Robert Gray, o palhaço dançarino. Ou simplesmente, Pennywise, se você preferir. O ser que habitou os pesadelos de dez em cada dez coulrofóbicos mundo afora, graças à excelente atuação de Tim Curry e seus trejeitos icônicos que catapultaram o personagem para a lista dos maiores vilões da história do cinema. Mas quem é, ou o que é Pennywise?

Essa é uma das perguntas que eu gostaria que fosse respondida na nova adaptação. A Coisa é uma entidade alienígena que já existia muito antes da criação do universo, que chegou na Terra de carona num asteróide, há milhões de anos, e fez do lugar de sua queda, Derry, uma cidadezinha no estado do Maine (lógico), sua moradia. É lá que ela ficou adormecida, todo esse tempo, acordando de 27 em 27 anos apenas para se alimentar, basicamente, dos terrores e medos dos seres humanos.

A Coisa é, como ela própria se intitula, uma devoradora de mundos. Ela nunca revela sua verdadeira forma, já que essa visão poderia destruir automaticamente a mente de quem a vê, portanto,utiliza de alguns disfarces, algo nomeado como glamour, para se manifestar fisicamente. Vive nos esgotos de Derry, como uma aranha gigantesca se alimentando de suas presas, mas, para alcançar a superfície e as atrair, ela precisa de um disfarce. E desde que o mundo é mundo, a alegoria do palhaço é conhecida por intrigar as pessoas, com suas faces pintadas e roupas bufantes. As crianças se sentem atraídas pela sua figura, mas ao mesmo tempo repelidas, assustadas, e é desse sentimento dúbio que a Coisa de aproveita.

No entanto, a Coisa precisa ser despertada de seu sono, e depois posteriormente, colocada para dormir. Alguns eventos violentos precisam acontecer para que ela sinta que está na hora de se alimentar e, depois que isso ocorre, ela também precisa adormecer novamente, de bucho cheio. Esse é um outro ponto que eu, particularmente, adoraria ver explorado na telona: os rituais que tiram e colocam a Coisa de sua hibernação.

Foi em Derry, mas poderia ser em Charlottesville.

Um deles, ocorrido em 1906, é a explosão de uma indústria siderúrgica que estava fechada no dia e sendo usada para um grande evento de Derry: a caça aos ovos no domingo de Páscoa. As áreas mais perigosas da fábrica foram fechadas para garantir a segurança de cerca de 500 crianças presentes mas, ainda assim, as caldeiras da siderúrgica que estavam desligadas, explodiram misteriosamente, matando cerca de 100 pessoas, quase todas crianças.

Outro acontecimento, já em 1930, foi o incêndio criminoso do Black Spot, um bar construído por militares negros que residiam na cidade e alvo de uma liga de supremacistas brancos, resultando na morte de centenas de jovens, carbonizados. Esse último evento foi deixado de lado desta vindoura primeira parte, devido a problemas com orçamento, mas Muschietti confirmou que ela pode rolar logo no início da segunda, que já está sendo gravada.

Esses eventos têm o contexto necessário para entendermos a conexão entre a Coisa e a cidade de Derry e são extremamente necessários para o andamento da história. Outro ponto a ser levantado é a união e a importância do Clube dos Otários, os personagens principais que irão enfrentar Pennywise ao longo do filme. É claro que, diante dos trailers que já vimos até o momento, a primeira parte estará focada nos acontecimentos envolvendo as crianças naquele verão de 58, então não tem muito mistério. Mas eu queria que fosse mostrado  mais do que uma amizade infantil.

Afinal, quem já viu a primeira versão, ou mesmo leu o livro, já está bem familiarizado com esse núcleo. Bill, Ed, Ben, Richie, Beverly, Stan e Mike são os salvadores da pátria. Cada um deles tendo que lidar com seus próprios problemas, como bullying, racismo, abusos, eles acabam se esbarrando, aos poucos, como que unidos por algo maior. Em algum momento específico, todos eles têm um contato pessoal com a Coisa, seja na pele do próprio Pennywise ou mesmo de alguns de seus glamour, mas o ponto chave é que todos eles sobrevivem, ao contrário das centenas de crianças que morrem ao longo dos anos.

Os sete perdedores

E fica claro que isso tem um motivo: eles não são apenas sete crianças comuns, como pode parecer durante a leitura. São sete seres humanos unidos cosmicamente com um único propósito: dar fim ao reinado da entidade. Em muitas simbologias, o número sete é visto como uma representação da totalidade, a intuição, a perfeição. A união delas é espiritual, e é justamente por isso que eles decidem entrar em comunhão carnal, naquela cena infame de orgia infantil (considerada por muitos desnecessária!). Elas precisam manter uma ligação, e na hora, a perda da inocência de todos parece ser o elo mais lógico. Mas é certeza que essa abordagem ficará de fora da versão cinematográfica, afinal, colocar crianças em uma suruba nas telas, definitivamente não será bem visto.

Em determinado ponto da narrativa, Bill entra em contato com uma outra entidade, denominada Tartaruga, a única oponente à altura da Coisa. A Tartaruga, como ficamos sabendo ao longo da leitura, foi a responsável por criar o Universo na qual vivemos, de uma maneira um tanto quanto inusitada, mas não se opõe à Coisa, numa clara demonstração taoísta de que tudo no mundo precisa de uma dualidade, de um contraponto, o bem e o mal. A Coisa é o Ying, a escuridão, o fim, enquanto a Tartaruga é o Yang, a claridade, o nascimento. Uma precisa da outra para coexistir, e seria realmente incrível se essa ambiguidade também nos fosse apresentada.

Um dos problemas nas adaptações é que, como já citei no começo do artigo, nem sempre a filmagem fica fiel ao original escrito pelo autor. Mas acredito que há casos em que a liberdade criativa deve ser respeitada, como por exemplo na nova estética do palhaço Pennywise. Apesar de destoar completamente da usada por Tim Curry na primeira versão, (mais semelhante á que o personagem usa no livro, inspirada na vestuária usada pelos palhaços da década de 50, como o Bozo e pelo Ronald McDonald) ainda assim é extremamente condizente com a história do personagem. Já que Pennywise foi evoluindo através dos séculos e usando varias fantasias de acordo com a época em que vivia, é perfeitamente possível que em algum ponto de sua existência ele tenha usado as roupas bufantes, iguais às dos palhaços da era vitoriana, usadas pelo ator Bill Skarsgård nesta nova versão.

Raramente eu crio expectativas quando um filme ou série baseado na obra de Stephen King é anunciado. As dezenas de adaptações ruins ou distantes dos textos me deixaram um tanto quanto cética. Porém, me sinto muito aberta em relação a essa nova versão. E até um pouco confiante, posso dizer. Talvez vejamos toda a violência e as cenas gráficas que encontramos no livro, uma vez que o filme foi classificado como +18 nos Estados Unidos, além disso a escalação do elenco infantil (que conta com o ator Finn Wolfhard, o Mike de Stranger Things) também parece ser extremamente acertada e as crianças parecem estar em ótima sintonia.

Agora, é só esperar pela estreia de It: A Coisa, no dia 07 de setembro, para saber se meus palpites e previsões não estão equivocados. Difícil vai ser conter a ansiedade até lá. Ah, vale lembrar também que essa nova versão sai exatamente 27 anos após o lançamento da minissérie. Coincidência? Acho que não…

Você ri da minha roupa, ri do meu cabelo…

 

 

 


Niia Silveira
Niia Silveira
Mentalidade de Jack Torrance num corpinho de Annie Wilkes. Foi criada em locadoras e bibliotecas e se apegou ao universo do horror ainda pequena. Não cresceu muito em estatura de lá pra cá, mas sua paixão por sangue e desgraça aumenta a cada dia.

2 Comentários

  1. Jonas disse:

    Olá, Niia. Gostei muito do que escreveu e agora tbm espero as mesmas coisas em relação ao filme, que estou louco para ver. Li It recentemente, e escrevi uma resenha para um blog sobre livros que participo. Se puder, dá uma olhadinha nela, e me dê sua opinião se fiz jus ao livro que você tanto curte!

    https://alexandriabooks.wordpress.com/2017/05/11/review37-it-a-coisa-de-stephen-king/

    • Niia Silveira disse:

      Excelente sua análise, Jonas! Suas impressões vão muito de encontro com a opinião que tenho com o livro, obrigada por compartilhar conosco. A cada crítica e resenha dessa obra fico ainda mais ansiosa para ver o filme. O lado bom é que falta muito pouco agora; logo estaremos matando nossa curiosidade. Abraços!

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