Dark: muito mais que um Stranger Things alemão

Atmosfera carregada, clima tétrico, viagens no tempo e mistérios que causam desgraçamento mental permeiam a nova série da Netflix


Desde que o primeiro trailer da série Dark, produção original da Netflix, foi apresentado no final do ano passado, ele frequentemente fora taxado como um Stranger Things alemão, devido a trama que, aparentemente centrada em um estranho desaparecimento de um jovem em uma cidadezinha erma, envolve adolescentes, investigações particulares e experiências relacionadas a uma usina nuclear, tudo envolto numa atmosfera estranha de mistério.

Agora que a produção alemã criada pelo suíço Baran bo Dar finalmente entrou em cartaz no serviço de streaming, mesmo que ainda haja comparações pertinentes a obra televisiva dos irmãos Duffer, elas terminam na página dois. Dark trata os acontecidos de uma forma muito mais adulta, sinistra, sóbria, climática e tem todo um pé na ficção científica graças a uma intrincada e inesperada trama de viagem no tempo e seus paradoxos.

Impossível adentrar muito na análise de Dark sem correr o risco de esbarrar em spoilers, conforme os elementos vão se colocando em cena e dando as cartas em conceitos repletos de física quântica, teoria do caos, dobras no espaço-tempo, buracos de minhoca e a ponte de Einsten-Rosen, em ritmo de filosofia de botequim. Mas sem dúvida, dá para afirmar que é uma das melhores séries do ano, quiçá, a melhor!

Isso não só pela história, ao melhor estilo desgraçamento mental, mas também por todo o clima soturno que permeia a desoladora Winden, uma pequena cidade chuvosa ladeada por uma floresta temperada, com uma caverna misteriosa, ambiente dos mais propícios para a escalada de acontecimentos enigmáticos que vão se estabelecendo em uma narrativa que vai lembrar os melhores momentos das teorias e elucubrações de Lost, deslocamento temporal à lá Fringe, e um sentimento etéreo que remete a Twin Peaks.

Além da concisa atuação dos atores e a excelente construção dos personagens seguindo três linhas de tempo, outro dois fatores são importantíssimos para a criação da tensa atmosfera: a direção de fotografia lúgubre, escura e nublada, de Nikolaus Summerer, e a excelente trilha sonora grave, cavernosa, hipnótica e monocórdia de Ben Frost, daquelas capaz de arrepiar os pêlos da nuca.

Aqui que entra no Mundo Invertido?

Claro que há defeitos em Dark, por tentar construir uma trama tão engenhosa e as consequências dos paradoxos da viagem no tempo, que acaba se perdendo um tanto em buracos no roteiro e algumas boas derrapadas, como, por exemplo, o fato da polícia não realizar sequer um teste de DNA no corpo do garoto encontrado morto com os olhos queimados e tímpanos estourados logo no final do primeiro episódio, no intuito de descobrir sua identidade, ou algumas outras questões relacionadas às idas e vindas temporais e como personagens não se lembram de fisionomias ou de acontecidos de seus próprios passados.

O último episódio funciona como aquele bom e velho mobral, com todo um solilóquio de explicações didáticas para tentar linkar toda a trama e situar o espectador, lhe fornecendo algumas respostas – pois com a mais absoluta certeza, ele ficou deveras intrigado e preso nos nove episódios anteriores quase sem piscar. Mas ainda deixa diversas pontas soltas, perguntas em aberto, inclusive sobre alguns personagens – como o nefasto padre/ pastor Noah, que confere ares sobrenaturais ao enredo – e um cliffhanger que dá pano para manga em uma iminente próxima temporada.

Dark é mais uma das ótimas séries by Netflix lançadas este ano, e dos melhores produtos audiovisuais deste 2017 que entra em sua reta final, ajudando a companhia e Los Gatos a superar um sem número de produções originais sem brilho que tem lançado em seu catálogo ultimamente.

Não tem o mesmo punch para se tornar um fenômeno como Stranger Things, até pelo fato de ter um clima bem mais pesado, narrativa arrastada que vai sendo construída num processo de slow burning, e principalmente, é falado em alemão – o que já irá afastar de cara aqueles que preferem uma obra mais mainstream.

Em contrapartida, uma produção europeia longe do simulacro dos anos 80 dos subúrbios americanos que estamos tão acostumados, como é vendido na série supracitada, traz uma visão cultural bastante diferente da década que nunca morreu em um país que vivia dividido em dois, metade capitalista e metade socialista, com costumes bem diferentes e trazendo a tona toda a discussão que permeou a Alemanha naqueles tempos sobre usinas nucleares e todo um movimento anti-energia atômica, principalmente pós desastre de Chernobyl. Situar-se no velho continente também trouxe um ótimo frescor para a OST, que apesar de clássicos como Tears for Fears, A Flock of Seagulls e Dead or Alive, também traz músicas pop do país teutônico, como Nena.

Dark, dá o que falar e já tem todo potencial de se tornar cult.

Cantinho da disciplina


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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