Descanse em paz, Penny Dreadful

Série chega ao fim colocando um ponto final na sofrência de Vanessa Ives, mas deixando em seu lugar um monte de fãs órfãos de uma das melhores séries de terror dos últimos tempos


Na semana passada, o espanhol Paco Cabezas, diretor de quatro dos nove episódios da terceira temporada de Penny Dreadful, deu uma entrevista para o podcast Destino Wonderland dizendo que o “Twitter iria pegar fogo quando o último episódio fosse ao ar”. Só que nem de longe alguém imaginava os verdadeiros motivos, tanto pelo desenrolar do season finale quanto pela bomba de que aquele era o FINAL DA SÉRIE!

Depois de pegar todo mundo de sopetão, o próprio criador, John Logan, em um entrevista exibida no programa TV Line do Showtime, canal onde a série originalmente é exibida nos EUA, explicou que a ideia do encerramento já havia sido tomada há algum tempo, pois a história de Vanessa Ives (interpretada de forma estupenda por Eva Green <3) tinha de chegar ao fim. E explicou que essa terceira temporada não foi promovida como sendo a última por ter uma base de fãs muito apaixonada e que isso poderia “emocioná-los”. Vide o que aconteceu com também efêmera Hannibal.

Bom, seu Logan tava certo, porque foi um verdadeiro soco no estômago quando “The Blessed Dark”, o último episódio de Penny Dreadful (incluir aqui soluços e lágrimas), foi ao ar no domingo passado, seguido do tradicional THE END ao final. Ainda mais por se tratar, sem nenhum medo de cometer alguma leviandade, da melhor série de terror dos últimos sei lá quantos anos.

Fica triste não, Miss Ives... Tdos nós estamos também

Fica assim não, Miss Ives… Tdos nós estamos tristes!

A terceira temporada conseguiu manter a qualidade crescente que conquistou público e crítica desde sua estreia, tanto pela sua história inteligente, que por meio de infinitas liberdades poéticas trouxe personagens famosos da literatura fantástica e gótica para uma trama aventureira e de horror sem soar nada caricata, quanto pelos diálogos incríveis. Foram dramas existenciais e amores impossíveis misturados com sangue, suor e trevas; ambientação de época, design de produção e figurino de uma Londres vitoriana do Século XIX impecáveis; e atuações de alto nível, puxadas por Green, que não sei por que cargas d’água nunca levou um Emmy ou Globo de Ouro por dar vida a uma personagem tão complexa e visceral como a Miss Ives.

O plot central completou o ciclo apresentado lá no primeiro ano, escancarado com um cliffhanger acachapante logo no início dessa temporada, quando finalmente a figura de Drácula, nome já sussurrado na primeira temporada, se apresenta como o mal da vez a ser enfrentado. O senhor dos vampiros embarcou em sua busca pelo amor de Vanessa para que juntos, segundo uma antiga profecia, eles pudessem desencadear uma Era das Trevas e com ela soltar todas as criaturas da noite sobre o mundo, tal qual seu irmão, Lúcifer – na mitologia da série eles têm esse parentesco e ambos foram expulsos do Paraíso – tentou fazer, sem sucesso, na temporada anterior.

Aliás, esse laço de sangue e a obsessão dos dois irmãos pelo rabo de saia da Miss Ives foram trazidos à tona no melhor episódio da temporada, “A Blade of Grass”, que se passa em sua totalidade numa sessão de regressão comandada pela Dra. Seward (sim, o mesmo personagem do livro de Bram Stoker, mas agora personificada por uma mulher, interpretada por Patti LuPone) em uma instituição psiquiátrica. Esse episódio também joga luz no passado de John Clare, a criatura de Frankenstein, e em sua conexão com a personagem principal.

Deixe eles entrarem!

Deixe eles entrarem!

Interessante notar que durante as três temporadas houve pelo menos um episódio completamente focado na personagem de Eva Green, deixando de lado as tramas paralelas e que, indubitavelmente, graças à força de sua interpretação arrebatadora e a entrega física e mental completa ao papel, se tornaram os melhores de cada ano, como aconteceu em “Closer Than Sisters”, na primeira, e “The Nightcomers”, na segunda – esse ainda o melhor de toda série, só para constar.

Também direto do livro de Stoker, quem dá as caras é Renfield, o famoso lacaio comedor de insetos de Drácula, que nas páginas foi o primeiro corretor enviado à Transilvânia para vender propriedades em Londres para o Conde e voltou direto para uma sala de parede acolchoadas. Aqui, interpretado por Samuel Barnett – ótimo, diga-se de passagem – ele é assistente no consultório da Dra. Seward e será o espião do monstro, lhe trazendo informações importantes sobre a moça trevosa, extraídas diretamente das sessões de terapia.

Porém, quem roubou a cena foi – quem diria – Josh Hartnett com seu Ethan Chandler (pronunciar com sotaque inglês carregado) ou Ethan Talbot, se preferir. O arco que se constrói durante a estada do lobisomem no Velho Oeste americano, sendo caçado pela Scotland Yard, pela lei americana, pelos jagunços de seu odiado pai e também pela dupla formad apelo Apache Kaetaenay, com uma ligação intrínseca com Ethan, e Sir Malcom Murray, é dos momentos mais excitantes, ainda por conta das presenças de Hecate Pool (Sarah Greene), uma das criaturas infernais que surgiram na temporada anterior. A cena em que todos eles estão presentes em um jantar na residência do Rancho Talbot é um dos pontos altos da temporada AND da carreira do ator.

O lobo e o apache

O lobo e o apache

Entre as tramas paralelas, temos a aparição do Dr. Henry Jekyll, aqui representado por um mestiço indiano que estudara junto com o Dr. Frankenstein na universidade, mas que infelizmente foi retratado sem sequer arranhar a superfície da dualidade complexa de sua contraparte literária, o Sr. Hyde; e a volta de Dorian Gray com Lily, junto de todo um subtexto de empoderamento feminino, quando em pleno nascimento do movimento sufragista ela resolve montar um exército de prostitutas que sofrem abusos e humilhações diárias – como ela mesma outrora – para se revoltar contra os homens e espalhar sangue e vísceras no patriarcado.

Claro que nem tudo são flores e tivemos cá uns pontos fracos e algumas pontas foram deixadas soltas. Mais uma vez, como no final das duas temporadas anteriores, o grupo precisa se juntar para enfrentar o mal e invadir algum covil para resgatar Vanessa, um tanto previsível. E não dá pra deixar de mencionar a figura de Drácula, numa inócua representação do ator Christian Camargo. O cara não compromete como o Dr. Alexander Sweet, seu alter ego curador do Museu de História Natural de Londres, mas não convenceu e ficou muito aquém da imponência do déspota da Ordem do Dragão. Em compensação, a representação visual e os trejeitos dos vampiros estão dentre os melhores já construídos para as criaturas notívagas sanguessugas.

Terminando em alto nível, como toda série deveria acabar, ao invés de ficar se arrastando ano após ano numa descendente interminável, Penny Dreadful chegou ao fim de forma arrasadora, carregada de uma tristeza pulsante. Para Vanessa, talvez menos, já que significa o fim de sua sofrência. Mas muito mais para todos nós, que agora sabemos que não tem uma quarta temporada nos esperando ali, em alguma quebrada das trevas.

Originalmente publicado no Judão
O doce veneno do escorpião

O doce veneno do escorpião


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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