EC Comics: a casa dos quadrinhos de horror

Potência máxima dos quadrinhos na década de 50 que inspirou muito mestre do horror por aí


Todo mundo curte quadrinhos, não é? Ainda mais hoje em dia com Marvel e DC dominando o mercado não só dos quadrinhos, mas do cinema também. Mas na década de 50, as duas grandes editoras  eram fichinha perto da lendária EC Comics.

Se você for um fanático como eu, com certeza conhece a editora e sabe muito bem a importância dela pros quadrinhos e cinema de horror, pois muitos mestres do gênero se inspiraram nesses gibis. E se você não conhece, se acomoda aí na cadeira porque agora você está prestes a saber um pouco mais sobre a mesma..

Primórdios

Primeiramente conhecida com Educational Comics, a EC foi fundada por Max Gaines, ex-editor de quadrinhos da All-American Publications. A editora, como sugere o nome, era focada em quadrinhos educacionais e também bíblicos. Em 1944, Gaines adquiriu os direitos da HQ Picture Stories from the Bible e resolveu abrir uma companhia para poder lançá-lo. Nasce então a EC Comics. Ele foi um dos pioneiros do formato comic book graças ao lançamento do livro Funnies on Parade, que é amplamente considerado, pelos historiadores da área, como o primeiro gibi americano. Em 1947, faleceria em um acidente de barco, deixando a EC Comics de herança para seu filho William “Bill” Gaines.

Reformulação de sucesso

Em 1946, Bill Gaines havia saído da Força Áerea e estava decidido a voltar para casa para terminar a faculdade na New York University, planejando exercer a profissão de professor de química. Gaines nunca pensou em seguir o negócio do pai. Depois de reformular a companhia, que agora passaria a se chamar Entertaining Comics, começou uma linha de quadrinhos próprios abordando temas como terror, suspense, ficção científica, ficção militar e ficção criminosa.

Os editores da EC, Al Feldstein e Harvey Kurtzman contataram artistas que vinham ganhando nome, entre eles Jack Davis, Frank Frazetta, Jack Kamen, Wally Wood, Joe Orlando, Johnny Craig e muitos outros. O time de roteirista era formado por Feldstein, Kurtzman e Craig, também contribuindo Carl Wessler, Jack Oleck e Otto Binder mais tarde.

A EC Comics começou a fazer sucesso por também ser a pioneira em interação com o  público por cartas, por meio do National EC Fan-Addict Club, prática que mais tarde seria adotada por Stan Lee nos primórdios da Marvel Comics e que servia como termômetro para seu sucesso e criação de personagens.

A editoria também encorajava os artistas a assinarem seus trabalhos e ainda colocavam biografias de uma página sobre os autores, destacando-se das demais editoras por muitas não darem os créditos aos artistas. Taí Jerry Siegel e Joe Shuster e Bill Finger que não me deixam mentir…

Os quadrinhos da EC começaram a fazer um enorme sucesso, em especial a linha de terror, formada pelos títulos Tales from the Crypt, The Vault of Horror e The Haunt of Fear. Tornaram-se incrivelmente famosos devido ao seu conteúdo de humor negro e alta violência. Além desses, havia uma linha de quadrinhos de guerra com os títulos Frontline Combat e Two-Fisted Tales. O quadrinho bi-mensal Shock SuspenStories tinha uma temática noir e abordava com críticas a temas como racismo, sexo, uso de drogas e o American Way of Life. E por fim, formada pelos títulos Weird Science e Weird Fantasy havia a linha de ficção científica.

 

Outro diferencial dos quadrinhos da EC, especificamente os de terror, é que cada título tinha seu anfitrião. Tales from the Crypt era apresentado pelo “The Crypt Keeper”, o The Vault of Horror tinha o “The Vault Keeper” e a “Old Witch” era a anfitriã de The Haunt of Fear. As criaturas fictícias ficavam encarregados de uma breve apresentação sobre cada história do gibi, além de soltarem comentários lotados de sarcasmo, ironia e humor negro durante seu decorrer, além de quebrar a quarta parede e conversarem com o público muito antes de Deadpool. Essa prática foi usada por muitas vezes em diversos quadrinhos, principalmente nos títulos de antologia.

Graças a seus títulos de sucesso e às inovações, a EC Comics se tornou a potência máxima na indústria dos quadrinhos na década de 50. Muitas das empresas se sentiam ameaçadas, pois a competição era forte. Mas, como tudo que é bom também teu seu lado ruim, logo vieram as críticas oriundas de uma sociedade conservadora. Com o tempo, a EC começou a enfrentar problemas sérios que poderiam ameaçar seu futuro.

Críticas, o Comics Code Authority, “Judgement Day” e o fim da EC

Com a EC fazendo um sucesso estrondoso e virando febre entre a molecada, a empresa começou a ser alvo de críticas devido às suas histórias de terror, que muitos consideravam impróprias para a juventude devido ao conteúdo chocante e violento.

Eis que em 1954, a Comics Magazine Association of America criou o Comics Code Authority (CCA), devido a tremenda pressão pública criada pelo livro A Sedução do Inocente, escrito pelo psiquiatra Fredric Wertham, que não tinha muita louça para lavar na vida, e começou a colocar a culpa nos quadrinhos pela delinquência juvenil, isso durante pleno Macarthismo nos EUA.

Basicamente, o CCA era um órgão no mesmo naipe do MPAA, só que pra gibis. Dentre as várias regras ditadas, estavam a proibição do uso de palavras como “horror”, “terror”, “crime” e “weird” nos títulos. Além disso, estaria banido publicar histórias contendo vampiros, lobisomens, zumbis, violência excessiva, drogas ou qualquer conteúdo de teor adulto nas páginas do gibi.

Bill Gaines foi o único editor a bater de frente com a bancada da CMAA, participar de audiências e debater para que, não só os seus, mas qualquer outro quadrinho fosse censurado ao ser submetido ao CCA. Porém, todas as outras editoras se mostraram a favor do código de censura (muito provavelmente pelo fato de serem totalmente esmagadas pela EC Comics em questões de venda), fazendo com que ele entrasse em vigor.

Inicialmente, Gaines começou a imprimir os gibis da EC sem submetê-los ao Comics Code Authority, porém isso resultou em problemas de vendas, já que os comerciantes se recusavam a vendê-lo sem o selo de aprovação do CCA. Por outro lado, Gaines não poderia submeter nenhum de seus títulos de maior sucesso ao órgão, pois seria proibido e não venderia igualmente.

Resultado: Tales from the Crypt, The Haunt of Fear, The Vault of Horror e Shock SuspenStories foram completamente abandonados. Gaines seguiu publicando revistas de ficção científica que ainda tinham uma boa base de fãs. Mas em 1956 um episódio mudaria totalmente o rumo da EC Comics.

Em fevereiro daquele ano, Gaines submeteu ao CCA a revista Incredible Science Fiction #33, que teve um conto chamado An Eye for an Eye rejeitado. A solução foi republicar um conto de uma revista pré-CCA, a história Judgment Day, em seu lugar. A mesma história havia saído no gibi Weird Fantasy #18 em 1953. O grande problema é que o código também quis omitir essa história do gibi, pelo simples fato do protagonista do conto ser um astronauta negro.

Gaines ficou full pistola com o ocorrido, protestando contra o órgão dizendo que esse era o principal objetivo: ter um protagonista negro. Após uma briga ferrenha com o CCA a história saiu no gibi da forma como foi concebida, mas aquele seria o último lançado pela EC. Resolveu mudar o foco da editora e começou a produzir light novels, mas esse projeto experimental acabou custando muito dinheiro e durou apenas duas edições. Infelizmente, a EC Comics veio á falência e Gaines deixou todos os títulos que havia criado, mantendo apenas a revista MAD.

Legado

Além do êxito retumbante que a EC Comics atingiu durante os anos 50, essas histórias se tornaram altamente cultuadas, principalmente depois que muitos dos artistas que trabalharam com a editora cresceram absurdamente no meio, tornando-se mestres das HQs.

Além disso, muitos nomes que hoje trabalham com terror foram influenciados pelos quadrinhos da editora e houveram altas adaptações cinematográficas baseadas nos gibis. Em 1972, a inglesa Amicus Productions – rival da Hammer – lançou, como parte de sua série de antologias de horror, o filme Contos do Além, baseado em Tales from the Crypt. Em 1973, também pela Amicus, foi lançado o filme A Cripta dos Sonhos, dessa vez baseado em The Vault of Horror.

Porém, o mais conhecido pelos fãs do horror é o suprassumo das antologias Creepshow, idealizado por Stephen King e George Romero em 1982. O pai dos zumbis e o escritor do Maine se juntaram e decidiram fazer uma homenagem aos quadrinhos que foram sua principal fonte de inspiração na infância. King escreveu cinco contos e chamou Romero para dirigir e Tom Savini para cuidar da maquiagem. Como se não fosse suficiente, a dupla resolveu também produzir um gibi para vender juntamente com o filme, afinal, quer jeito melhor do que esse de homenagear uma editora do naipe da EC? Com isso, King contatou Bernie Wrightson e Jack Kamen para a produção da versão em quadrinhos de Creepshow.

O filme arrebatou público e crítica justamente por conseguir captar todo o clima de terror e humor negro dos quadrinhos e em 1987 foi lançado Creepshow 2, dessa vez dirigido por Michael Gornick e com roteiro de George Romero, baseado em histórias de King.

Além disso, o produto mais famoso inspirado pela EC foi a série de TV Contos da Cripta, produzida pelo canal HBO. Famosa pelas suas histórias independentes de horror e humor negro e principalmente pelo apresentador, o Guardião da Cripta ou Coveiro, que foi eternizado com a voz de John Kassir. A série fez um sucesso gigantesco também, durando por 7 temporadas em um total de 93 episódios e escola/laboratório para diversos roteiristas e diretores. Não só isso, mas acabou também rendendo três longas-metragem: Demônios da Noite, Bordel de Sangue e Ritual.

A EC Comics sem dúvida é uma das editoras mais importantes para a história dos quadrinhos em geral por causa das inúmeras inovações de narrativa, formato de antologia e de contato com o público que trouxe na época. Não só isso, mas também por ter inspirado editoras, cineastas, quadrinistas e escritores. Hoje em dia, você pode encontrar os quadrinhos da EC compilados em diferentes livros, separados por artistas em alguns box que foram lançados pela Fantagraphics Books, que também compilou todos os volumes lançados de Tales from the Crypt em cinco livros de capa dura.

Infelizmente essas obras ainda não foram lançadas aqui no Brasil, mas, quem sabe o Guardião da Cripta não atende nossas preces?


Angelus Burkert
Angelus Burkert
Psicopata em formação. Pegou gosto pelo cinema de horror após ir até a sessão de VHS de terror na locadora e olhar todas as capas de filmes possíveis. Fã confesso de música e games, provável que não mude nada com o passar dos anos, exceto o amor pela carnificina.

1 Comentário

  1. Leandro 2112 disse:

    Muito boa matéria. Não sei se pode, mas hoje mesmo saiu um vídeo do canal Formiga na Tela analisando a EC, ficou muito bom.

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