Em novembro, encarnarei na tua TV

Assisti aos dois primeiros episódios da série sobre vida e obra do cineasta José Mojica Marins, pioneiro e desbravador do cinema fantástico no Brasil – e que você pode chamar de Zé do Caixão


Nesta quinta-feira (29), rola uma première durante a 39ª Mostra Internacional de Cinema de SP, já com ingressos esgotados, dos primeiros episódios da minissérie Zé do Caixão — a primeira produção autoral do canal Space, que estreia dia 13 de Novembro. Mas saiba você, você e tooooooodos você que eu já assisti, antecipando as maldições de Halloween, e recomendo com força, com vontade, com todo o poder das trevas.

Matheus Nachtergaele encarna José Mojica Marins, o cineasta marginal, maldito, gênio, louco, pioneiro e desbravador do cinema fantástico nacional, criador que se confunde com sua criatura. No caso, o coveiro ateu de capa preta, cartola e unhas grandes que se tornou ícone da cultura pop, em sua busca incessante pela mulher que lhe dará um filho, a perpetuação de seu sangue.

Que Nachtergaele é um BAITA ator, isso ninguém tem a menor dúvida. Mas ainda assim é impressionante sua atuação como Mojica. Seus trejeitos, a semelhança física e o sotaque carregado, caricato e com seus erros de português, porém sem a intenção de satirizá-lo (como já fez questão de deixar claro o próprio Matheus). Tudo está assustadoramente fiel, pelo menos à imagem que nós temos da figura, tanto de seus filmes, como de suas aparições televisivas, campanhas políticas e, claro, como apresentador do saudoso Cine Trash da Band, o TERROR DAS TARDE!

Dirigida por Vitor Mafra, a série Zé do Caixão é inspirada pelo livro biográfico Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, de André Barcinski e Ivan Finotti, e pretende em seus seis episódios, com roteiro do próprio Barcinski, em parceria com Mafra e Ricardo Grynszpan, abranger 30 anos da vida e obra de Mojica – começando em 1958, com as filmagens de A Sina do Aventureiro, “primeiro faroeste brasileiro feito no Brasil”, segundo o próprio Mojica.

Ali ó, dois e dois!

Ali ó, dois e dois!

Ali a figura do diretor já começa a ser desvendada para o público. Vemos sua ligação umbilical com sua trupe cinematográfica que lhe seguiria em quase toda sua vida, como um verdadeiro exército de Brancaleone, embarcando nas ideias mais absurdas do cineasta, composta pelo produtor Mário Lima (Felipe Solari), sua secretária, editora e amante, Dirce (Maria Helena Chira) e o diretor de fotografia, Giorgio Attili (Antônio Saboia). Além disso, somos apresentados ao seu famoso jeitão DYI de fazer cinema, como pintar uns PANGARÉS com tinta para parecerem cavalos diferentes em uma cena de perseguição; e às maracutaias para conseguir dinheiro para rodar seus filmes, desde vender cotas de atuação para os alunos de sua escola de atores (segura esta, Kickstarter!) – com mil cruzeiros você poderia ser o galã e com 150 cruzeiros, um defunto – até garantir o papel principal para o irmão da manicure que lhe deu um gordo cheque; e a fama de mulherengo, conquistador e machista de Mojica.

A criação da figura mitológica de Zé do Caixão só acontece no segundo episódio, após o famoso pesadelo em que Mojica se vê arrastado por uma sinistra figura de capa e cartola para seu próprio enterro — aqui, este trecho modificado pela liberdade poética para um espectro de sombra sem rosto, mas o impacto é o mesmo. Obstinado, mesmo desacreditado pelo próprio meio cinematográfico, Mojica faz nascer à fórceps o cinema de terror nacional com À Meia Noite Levarei Sua Alma, lançado em 1963, inspirado pelos monstros clássicos da Era de Ouro da Universal. Surgia ali o primeiro grande personagem midiático das telonas brasileiras, que nas décadas de 1960 e 1970 frequentou não só o cinema mas a televisão, HQs e até lançou uma linha de cosméticos, uma pinga (batizada de Marafo Zé do Caixão) e um disco com marchinhas de carnaval (!).

Nesse meio tempo, também vamos conhecer outros “demônios” de Mojica: seu envolvimento com a bebida, com as drogas e claro, sua impressionante habilidade de perder dinheiro e fazer péssimos negócios, vivendo em uma verdadeira montanha-russa que passou pelo ápice de sua popularidade, a perda da terrível batalha contra a censura, a decadência ao dirigir filmes de sexo explícito com bestialismo e até o quase ostracismo. Ao mesmo tempo, a série jamais deixa de mostrar que este é um sujeito que fazia tudo em nome do cinema, pelo amor puro e incondicional pela Sétima Arte e que celebrava a vida intensamente, apesar de seu personagem máximo ser uma ode à morte.

Dirigindo o diretor

Dirigindo o diretor

Pelo que deu pra sacar neste começo, aliás, a ideia é ir além do personagem, apesar do título. É sair da superfície, do óbvio. É apresentar Mojica também como o cineasta transgressor, cultuado lá fora (COFFIN JOE!) mas desconhecido por toda uma nova geração que só conhece a caricata persona funesta de longas unhas que habita o inconsciente coletivo nacional, vítima de suas próprias escolhas popularescas, animando eventos e participando de programas de auditório.

Tudo isso em um momento em que há uma espécie de revival do Mojica, no qual coincidentemente junto da estreia da minissérie com exibição na Mostra, soma-se a exposição A Meia-Noite Levarei Sua Alma, que entra em cartaz no MIS em São Paulo em pleno sábado de Halloween; o relançamento de Maldito pela editora Darkside (com providenciais 666 páginas, duzentas a mais que o original); e ainda sua codireção em As Fábulas Negras que será exibida pela primeira vez na televisão logo após a estreia da série, no próprio Space.

E que no dia 13 de novembro, às 22h30, não por acaso uma SEXTA-FEIRA 13, quando Zé do Caixão debutar, ele encarne em sua televisão, leve sua alma e faça com que o público conheça os delírios desse gênio, incompreendido e BASTIÃO não apenas do cinema marginal e de terror, mas do cinema nacional como um todo. Caso contrário, que a praga seja das bravas!

Publicado originalmente no Judão

Atores da série Zé do Caixão: Matheus Nachtergaele, Maria Helena Chira e Felipe Solari, dirigida por Vitor Mafra. Casa do Povo, Bom Retiro, São Paulo. 05 de abril de 2015. Foto Ana Ottoni/Divulgação

Vocêêêêêêêêê! Crédito: Ana Ottoni/Divulgação


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] essa Sexta-Feira 13? Ou você fica em casa ligado no Space para assistir a estreia da minissérie Zé do Caixão, ou faz uma maratona dos filmes do Jason Voorhees, ou se é de São Paulo, cola no Caixa Belas […]

  2. […] de terror vem ganhando um grande espaço no país ultimamente (AMÉM). Vide exemplos como a série Zé do Caixão, falando sobre a vida e obra de José Mojica Marins, além do slasher brasileiro Condado Macabro, e […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: