Era uma casa muito desgraçada…

A Maldição da Residência Hill eleva o trabalho de Mike Flanagan, o nível da Netflix, e atualiza a casa-mal assombrada, no melhor produto do gênero para a televisão no ano


Esse texto demorou um pouco para ser feito, desde que A Maldição da Residência Hill chegou a grade da Netflix, mas não pude passar batido, mesmo depois de toda a bajulação -, com razão – que a série já recebeu de público, crítica, e nas famigeradas redes sociais.

Isso por um detalhe que quero pontuar, mais importante que todos os outros, pelo menos na humilde opinião desse que vos escreve: a maturidade e a evolução técnica de Mike Flanagan como diretor, para mim, o ponto alto (de tantos pontos altos) da produção livremente (e coloque livremente nisso) baseada no livro de Shirley Jackson, o clássico A Assombração na Casa da Colina.

É chover no molhado dizer o quanto Hill House (vou chamar assim para economizar caracteres e pontas dos dedos digitando) é uma obra madura, entorpecente de tristeza, com um misé-en-scene incrível, poderosas atuações tanto do núcleo infantil quanto do núcleo adulto, excelente na construção da atmosfera do terror e, ao meu ver, atualizar o subgênero de casa mal-assombrada com louvor (abusando de inúmeras referências).

Também impossível passar incólume ao pungente dramalhão familiar que amaldiçoa os Crain ao se mudarem para a malfadada residência que outrora pertenceu a não menos amaldiçoada família Hill. Um verdadeiro soco no estômago, capaz de ativar um sem número de gatilhos nos espectadores, de como os verdadeiros fantasmas, não aquelas figuras tétricas espectrais, são os problemas familiares de nossas vidas, os traumas de infância, o desgraçamento mental, a decadência dos relacionamentos que pode consumir todo o resto de nossa existência e traçar nossos destinos, conduzindo-nos à ruína pessoal, social, comportamental e de relações interpessoais.

Sente o drama

Mas, acima de tudo isso, apesar do ótimo texto, como disse o mais marcante é ver a habilidade de Flanagan atrás das câmeras atingir seu potencial completo. Sempre houve ali um ou outro lampejo de qualidade do diretor americano desde seus primeiros trabalhos, assim como uma perícia nata em se valer de conflitos familiares, perda e luto em seus trabalhos autorais de terror. Foi assim em Absentia, em O Espelho e O Sono da Morte, e mais tardar, quando finalmente encontrou no serviço de streaming de Los Gatos seu porto seguro criativo, adaptando Jogo Perigoso do texto de Stephen King.

Hill House é de uma direção de cenas, atores e fotografia fantásticas. Ele vai te envolvendo aos poucos, em uma composição arrastada e de slow burning, oscilando entre o amor e o desprezo fraterno, a depressão e o desespero, a dubiedade de ações dos personagens e suas inversões de caráter, a dor do afastamento, os gritos por socorro e o horror sobrenatural, evocando o que há de melhor (ou talvez, pior) no efeito nocivo das casas mal-assombradas às pessoas.

A cartilha de Os Inocentes, A Casa da Noite Eterna, A Mansão Macabra e principalmente, Desafio do Além (mais icônica adaptação do texto de Jackson aos cinemas e o filme mais assustador de todos os tempos segundo Martin Scorsese), está ali aberta para consulta e Flanagan bebeu na fonte com gosto, numa capacidade de agradar gregos e troianos da mesma forma, desde o fã de terror, ao do drama existencialista e que gostam de se debulhar em lágirmas de tristeza. É como meter This is Us em uma casa assolada por fantasmas.

De impressionar são as nuances por todo o decorrer dos dez episódios, como múltiplas cenas gravadas em belíssima grande angular com espíritos e entidades sobrenaturais em segundo plano, de mãos, rostos, sombras nos cantos e até figuras inteiras e uma série de foreshadowings brilhantemente jogados durante os episódios iniciais que você vai ligando os pontos conforme a narrativa avança. A Mulher de Pescoço Quebrado é o exemplo mais gritante, dentre vários.

Procurando Nell

Mas toda essa verborragia apenas para chegar em um ponto que eu preciso explanar, que o faço todas as vezes que converso dessa série com alguém. Hill House não me pegou no começo por arrastar demais e parecer que não vai levar a lugar nenhum. Mas, conforme os episódios vão sendo substituídos pelo próximo, dei o braço a torcer de que além de ser o melhor produto de horror para televisão em 2018 (que já tivemos coisas de altíssimo nível, como The Terror e Channel Zero: Butcher’s Block), possui uma das aulas de cinema mais espetaculares que já vi na telinha nos últimos anos e quiçá, melhor episódio de uma série já feita para TV, podendo soar bem leviano.

Falo do tal episódio 6, “Two Storms” e a nada menos que brilhante forma que é construído. São mais de 15 minutos iniciais em plano sequência, quase um esquete teatral, sem edição e sem cortes falsos. Logo depois, são nada menos que outros CINCO takes longos (o episódio todo é construído dessa forma), de até 17 minutos, abusando de travelings pela funerária e depois pela residência Hill, planos e contraplanos e corte falsos, tudo milimetricamente ensaiado, pensado e executado, até a arrepiante e comovente cena final.

Desbunde talvez seja a melhor palavra que define! E uma produção televisiva que tenha essa preocupação, entregando um produto equilibrado entre o comercial e o artístico, o horror psicológico em sua melhor forma, mas com doses de jumpscare na medida (quem aqui não pulou com a cena da aparição do carro?), merece esta mais alta estima. Mesmo podendo ter uns dois episódios a menos ou de menor duração, e cortar quase todo aquele solilóquio piegas de dez minutos de desfecho. Mas isso, para meu gosto pessoal.

E só para constar e finalizar o texto e não perder o costume de espezinhar: Mike Flanagan > James Wan.

O contador de histórias


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: