ESPECIAL Semana Horror Nacional #01 – Mal Nosso

Se a esperança falha, o destino não!


Muito tem se falado na ascensão do cinema fantástico, em especial do gênero horror, aqui em nosso querido Brasil. Mesmo com todas as dificuldades que conhecemos, a escalada crescente deste nicho só demonstra que, qualidade e coragem para criar nós temos, o que falta ainda é espaço.

Cineastas como Marco Dutra e Rodrigo Aragão são vistos hoje com outros olhos, mesmo que seus filmes trilhem caminhos diferentes. Enquanto um é conhecido por trabalhos inseridos no circuito nacional e em algumas salas ao redor do Brasil, o outro é mais conhecido pela opção dos festivais, mostras e eventos realizados aqui ou ali. E ainda há diretores de primeira mão que conseguem encontrar o caminho “comercial” como J.C. Feyer e seu climático O Rastro, e Samuel Galli que rodou o mundo com o elogiadíssimo Mal Nosso, fruto deste review, inaugurando nosso especial da Semana Horror Nacional.

Natural de Ribeirão Preto e fã da escola oitentista do horror americano, Galli entrega uma obra competente, forte, amarga e reflexiva, que dificilmente o fará esquecer de todo o seu conteúdo posto à discussão. Na trama, acompanhamos a vida de duas pessoas distintas: Arthur e Charles. Enquanto Arthur é uma introspectivo e esconde em seu olhar soturno terríveis segredos, Charles é seu antônimo: um sádico matador de aluguel que não possui nenhum escrúpulo e não faz questão de acobertar seu sentimento de que odeia pessoas. Na chamada deep web, Arthur faz contato com o matador e solicita um serviço especial com ordens específicas. Confiando que o fará, os dois se encontram numa boate e ali fecham o acordo. A partir daí, as motivações, bem como as ligações que Charles e Arthur possuem, são reveladas pouco a pouco.

Ao passar dos minutos, Galli demonstra total controle e confiança em direção, que ligeiramente flutua sobre o drama sem deixar o clima tenso cair. Um ar pesado que evoca thrillers como Seven – Os Sete Crimes Capitais e o primeiro Jogos Mortais, só para citar duas influências. Estas, presentíssimas no longa descobertas pouco a pouco: A Hora do Pesadelo, O Sexto Sentido, O Exorcista, o cinema setentista italiano com seus azuis e vermelhos, a trilha sonora composta por sintetizadores à lá John Carpenter… Aliás, a trilha sonora é espetacular, podendo dizer até que é uma personagem.

Escalpo raiz!

A trama, passeia pelo passado, presente e até futuro. Representações encarnadas do bem e do mal são vistas em tela como alguém que trás alegria a outrem e o mais puro medo e ódio. Este último, bem como todo o trabalho maestral de maquiagem fica à cargo de Rodrigo Aragão. Um show à parte, pois quem conhece seu cinema de guerrilha e o resultado incrível que alcança com o orçamento disponível, aqui não se deixa por menos e o gore, pontual e sem excessos, consegue dar toques sutis dos torture porns que nos são familiares. Ele não é nosso “Tom Savini brasileiro”, e sim o nosso Rodrigo Aragão!

A fotografia e trabalho de câmera também são impecáveis. Se em alguns momentos acompanhamos de perto o caminhar de seus personagens, em outros a steady-cam posicionada estrategicamente faz com que o desespero bata forte pela nossa impotência, a exemplo da cena com a “festinha a três”. O take da casa de Charles, onde a câmera estática o segue pelos cômodos sem sair do lugar, é fantástica, mesmo que não aconteça nada.

Mal Nosso consegue ainda trazer a reflexão e o embate do bem e do mal. Como defendido por muitos historiadores, diretores e escritores especializados do gênero, o horror para ser considerado como tal, precisa que exista um monstro. Ele pode ser real ou não, sobrenatural, uma criatura de fato ou alguém com más intenções. Aqui ele consegue estar presente em todos estes âmbitos: quartos, olhares, ruídos, ambientes, representado pelo demônio em carne ou pressupondo-o que o mesmo está ali. Enquanto estiver suportando os seus rápidos 1h20 de filme, o espectador estará propício a sentir-se mal e incomodado, sempre.

O longa rodou o mundo para finalmente chegar ao Brasil no festival Fantaspoa, o maior da América Latina. Com grandes menções e reviews positivos obtidas em Cannes e Frightfest, Mal Nosso é carregado de emoções e sentimentos, sejam estes bons ou ruins. Todo o mal é punido e a esperança pode falhar, mas o destino não.

5 demônios para Mal Nosso

Quando dizem que no Brasil não se fazem filmes de terror bons!


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

1 Comentário

  1. Renan disse:

    Eu estou gostando muito dessa Semana especial do Horror nacional, parabéns! gostaria de ver mais posts assim

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