ESPECIAL Semana Horror Nacional #02 – Trabalhar Cansa

E se os maiores medos da sociedade contemporânea e classe média fossem expostos?


É de praxe filmes do gênero fantástico apresentarem algum tipo de realidade social, política ou cultural. Como na maioria dos filmes de terror há algum tipo de crítica ou metáfora que aborde um destes três pilares (ou ainda todos de uma vez). Talvez rever filmes realizados há anos pode trazer um gosto amargo à boca.

Trabalhar Cansa, primeiro longa metragem da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, abordam as dificuldades e desafios que Helena (Helena Albergaria) tem em conseguir abrir seu próprio negócio, um mercadinho de bairro, em meio ao desemprego de seu marido, Otávio (Marat Descartes), e os problemas que pouco a pouco começam a aparecer. Seria mais um drama nacional, se não fosse pelo terror mais inerente ao ser humano: a realidade do viver.

O grande trunfo é transmitir uma sensação de empatia para com seu público. Muitos filmes em vários aspectos tentam às vezes “americanizar”  seu caminhar para que seja amplo seu entendimento e não seja menosprezado. Certa vez acompanhei um debate no saudoso CineSesc e o que se foi falado, eu concordo plenamente: precisamos nos reeducar culturalmente para que assimilemos mais os filmes nacionais. Aqui, Trabalhar Cansa não sofre deste mal e consegue passar com clareza os problemas sociais que afetam a todos nós.

O medo do novo, do desemprego, da velhice, do desconhecido e das dificuldades de ser mãe estão muito presentes. Helena, além da responsabilidade de gerir o orçamento de sua casa e seu novo comércio, tem de lidar com seu marido que se julga incapaz, com o medo de que sua empregada se torne mais importante na vida de sua filha, com sua mãe e alguns eventos inexplicáveis que começam a acontecer em sua pequena quitanda. Até o ápice da pressão.

Compras noturnas

Mesmo que todos nós tenhamos estes problemas, a dificuldade que encontramos na árdua tarefa de viver dá a impressão de que por vezes falhamos. A descoberta de Helena seguida de sua atitude e o expurgo final de seu marido Otávio são cenas que propõem ao público longas discussões e reflexões. A tensão é forte a ponto de que se pergunte o que está acontecendo em tela, mas ao final suspeite de muitas teses e entenda a proposta.

Ao desenrolar, uma característica do filme é a ausência da trilha sonora. Creio que para exemplificar bem o horror e a preocupação de Helena em lidar com tudo ao mesmo tempo, a inexistência de sons dá um ar meio claustrofóbico e o espectador fica incomodado com aquelas situações. Como se o silêncio de uma mente sobrecarregada transbordasse em tela.

A fotografia é muito bem feita e as cenas, tanto internas quanto externas, são geralmente em planos amplos e convidativos, o qual faz com que por mais uma vez o espectador se sinta confortável em traçar um paralelo com o cotidiano. A cenografia é bem típica daqueles mercadinhos de bairro simplórios ou da casa da família paulistana. A evolução – ou retrocesso – dos ambientes, tanto quanto das personagens, é algo feito com sutileza mas que ao final, entende-se o porquê.

Pode parecer chato para algumas pessoas, mas por se tratar de temas recorrentes da sociedade brasileira há anos, o filme propõe uma série de abordagens e críticas que nos remetem à reflexão de nosso dia-a-dia além de propor uma conexão com nossos semelhantes. Isso pode ser incômodo para quem busca fugir da realidade e apenas se entreter.

Por fim, Trabalhar Cansa é uma explosão de questionamentos que, por vezes, evitamos a enfrentar, mas que suas consequências podem ser trágicas a ponto de que o mal, a pressão, o descontentamento e a amargura, se tornem algo tangível.

4 marretadas para Trabalhar Cansa

Contas, contas e mais contas…


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

1 Comentário

  1. Silvania Lopes disse:

    Gostei muito do comentário aqui feito. É uma reflexão do dia a dia que vivemos e do que mais cedo ou mais tarde vamos passar por isso…. A morte e seus/nossos medos . Batalhas do dia a dia ,brigas internas conosco mesmo. Indecisões, inseguranças… Parabéns Guilherme

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: