ESPECIAL Semana Horror Nacional #04 – O Silêncio do Céu

Um filme pesado que trará reflexões à uma triste realidade


Uma pergunta que sempre se repete acerca dos filmes é: o cinema representa a realidade ou a sétima arte influencia a vida fora das telas? Na maioria das vezes, o que se vê são os longas representando uma determinada “era” ou situação sociopolítica cultural de algum país, ou até mundial.

Infelizmente certas situações cotidianas são tão amargas que só a lamentação não se faz suficiente para expressar tamanha indignação. Ver estes casos na tela só aumenta o pesa a ponto que um mix de sentimentos venham à tona e filmes que conseguem esta proeza são louváveis. Este é o caso de O Silêncio do Céu.

Baseado na obra Era El Cielo (ou “Era o Céu”, em tradução literal) do autor argentino Sergio Bizzio, que também assina o roteiro, a história segue do casal Diana (Carolina Dieckmann) e Mário (Leonardo Sbaraglia) que recentemente reataram seu casamento.  Porém, numa determinada tarde, o marido presencia o estupro de sua mulher em sua própria casa por dois homens. Incapaz de agir por temer pela vida de Diana seguida pela rápida fuga dos meliantes, Mário decide aguardar que Diana conte o ocorrido enquanto ele finge não saber de nada.

Por si só é uma história bem intrigante e interessante, principalmente pelo tema delicado. A cultura do estupro no Brasil é cada vez mais evidente e com a mesma proporção de que lamentavelmente essa violência aumenta, o tabu e o silêncio também. Com certeza, o diretor Marco Dutra sabia que estava pisando em ovos frágeis ao lidar e abordar o tema, porém com maestria, guiou seu longa de modo com que não só levantasse questões importantes e relevantes ao tema, mas também reflexões necessárias.

Bah, bora tomar um chimarrão tchê?

É chover no molhado enaltecer as qualidades técnicas já conhecidas há tempos do diretor. Os enquadramentos, trilha sonora, a criação de um ambiente aflito que só aumenta cena após cena, enfim… Mas como um filme não só se faz pela beleza e estética, o roteiro e atuações são importantíssimas e adivinhe são ótimos também!

O casal vivido por Dieckmann e Sbaraglia, numa produção Brasil-Uruguai, possuem uma química e presença forte em cena, onde uma troca de olhares já diz tudo, ao mesmo tempo que nada. As atuações de ambos, além dos coadjuvantes, como o promissor Chino Darín, seguindo os passos de seu já famoso pai Ricardo, ou da veterana atriz uruguaia Mirella Pascual, só aumentam o peso e brilho do filme, dando ainda um ar mais frio para todo o filme.

O roteiro, como já pincelado, é escrito por oito mãos mas o grande trunfo é que o autor da novela também participa do longa. Sergio Bizzio já havia abordado um tema até mais polêmico no filme XXY, por coincidência com Ricardo Darín no elenco, sobre um jovem hermafrodita que sofre preconceitos e tenta lidar e entender a sua sexualidade. Em O Silêncio do Céu,, além da abordagem sobre o estupro, também pincela as dificuldade de se constituir uma família ou retoma-la, a confiança, a cumplicidade de um casal em crise e os desafios, aflições e coação de uma pessoa em viver e se abrir num país desconhecido com outros costumes. Todas estas críticas em meio a um Uruguai que flutua entre o convidativo e belo lugar, e apático e individualista cenário cinza e sépia.

O desfecho e, assim como seus segredos mais obscuros causa pânico, tristeza, repulsa e desprezo bem como alívio e satisfação com o destino de certos personagens, numa cena entre Diana e Mário que, certamente ficará guardada em sua memória por longos e distantes dias.

Ganhador do prêmio do júri no festival de Gramado em 2016 e disponível atualmente na Netflix, O Silêncio do Céu e aborda a infeliz realidade de muitas mulheres no Brasil e definitivamente põe o dedo na ferida que incomoda há tempos, mas por muitas vezes é ignorada.

4,5 violentações para O Silêncio do Céu

Se aconchegue junto a mim…


Guilherme Lopes
Guilherme Lopes
Mineiro de nascimento e paulista de criação, vê nos filmes de terror e afins a diversão e bode expiatório para não cometer atrocidades na vida real. Não se engane com sua carinha de anjinho: ele não rebobinava as fitas antes de devolver à locadora.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: