Eu quero mentir: o comeback do comeback de Arquivo X

Ainda dá para acreditar nas conspirações que Mulder e Scully têm de desmascarar nessa décima primeira temporada?


Fã de Arquivo X sempre quer acreditar. Essa frase, que estampa o pôster mais famoso da televisão, guiou durante anos à fio aqueles que acompanharam a cruzada de Fox Mulder, ao lado de sua intrépida parceira, Dana Scully, em busca da verdade que está lá fora, desmascarando intrincadas tramas conspiratórias do governo, que insistiam em esconder a existência de vida alienígena, e suas maquinações de colonização e destruição em escala global.

Depois de um hiato de 14 anos (sem contar o segundo longa metragem que chegou aos cinemas em 2008), a série retomou com apenas seis episódios no início de 2016, trazendo os agentes do FBI de volta à ativa, mirando o saudosismo e nostalgia dos eXcers, mas também engatilhando uma nova conspiração em um mundo cada vez mais paranóico, polarizado, com medo, vigiado, refém da tecnologia e das redes sociais, elevando a um novo patamar todas as teorias de extinção da humanidade que a série de Chris Carter já jogou aí pelos quatro ventos durante muito tempo.

Com um final aberto e uma audiência respeitável, o desejo por mais episódios – e casos paralelos – tornou-se necessário, até para concluir a lebre levantada em sua décima temporada e a resposta para pergunta que não quer calar há anos: o que raios aconteceu com William, filho de Mulder e Scully, largamente ignorado nesse retorno efêmero?

Pois bem, demorou dois anos para que o comeback do comeback de Arquivo X chegasse às telas, dando continuidade (pero no mucho) à suposta pandemia do vírus espartano liberado no último episódio da temporada anterior e a aparição de uma nave alienígena, e saciar novamente os fãs ávidos em ver sua dupla de agentes federais preferidos com seus sobretudos, crachás e lanternas.

E de verdade a gente quis acreditar. Mas Chris Carter e sua turma, quiseram mentir.

A terceira parte de “Minha Luta”, responsável por dar luz a nova trama conspiratória dessa versão 2.0 de Arquivo X, já chega como um rinoceronte numa loja de cristal, pronto para remexer o status quo da série, mandar às favas conceitos pré-estabelecidos sobre o Canceroso, Mulder, Scully e a paternidade de William, digno de um novelão mexicano com um roteiro raso como um pires, que tenta enxertar um monte de revelações bombásticas e definir o destino dos personagens em um corrido episódio de apenas 42 minutos, tudo em toque de urgência, nada inspirado, repleto de ideias confusas, direção burocrática, David Duchovny e Gillian Anderson completamente no automático, e um desnecessário abuso de narrações em off.

E aí, bora pra mais uma caçada pela verdade?

O que deveria ser construído durante toooooda uma nova temporada com dez episódios, que vá lá, sempre foi a receita de bolo do sucesso do televisivo: misturar os “Monstros da Semana” com a conspiração eminente, é jogado em nossa cara de forma completamente descoordenada, com toques de drama pessoal canhestro, empatia zero, muita falácia, e seus personagens, até onde me parecem, bem descaracterizados e nada à vontade, sem exceção. Nem o Skinner escapou dessa!

Tipo visitar os velhos amigos de colégio ou faculdade que estudaram com você, mas eles não são mais os mesmos das lembranças de anos atrás e estão desconfortáveis nessa reunião…

E o mais frustrante é que, a colagem de cenas narradas pelo interessante solilóquio do Canceroso no prelúdio do episódio, antes da famosíssima abertura com a música de Mark Snow dar as caras, deixa aquela expectativa boa no ar do que esperar dos sempre febris roteiristas da série, para em seguida, ser ignorado completamente, dando lugar a mais um “puxadinho” de toda aquela ladainha noventista de conspiração de homens escusos no poder fazendo joguinhos, focando na maldade dúbia e manipulação do Canceroso. Ao invés de aproveitar cenário dos mais promissores para a série, mais ainda que há dois anos: os EUA pós-eleição de Donald Trump, com sua política brucutu em fazer a “América grande novamente” e o medo da destruição de toda a humanidade por malucos que querem provar quem tem o botão maior.

Alienígenas, vírus mutantes e esquemas de dominação do mundo formulados por velhacos sentados em poltronas em uma sala fechada são fichinha perto disso…

Há muita coisa a ser revelada ainda e vários caminhos tortuosos pelos quais esse arco conspiratório pode enveredar, pautado por muita verdade que se tornará mentira, e vice-versa. Não dá para julgar ainda, mas a coisa não começou bem. O foco deverá ser na busca por William, agora um adolescente híbrido humano e alienígena com superpoderes, chave para a suposta salvação da humanidade, segundo a visão e as dores de cabeça de Scully. A gente só espera que a tramóia seja melhor escrita e desenvolvida que esse primeiro episódio, e com um pouquinho mais de entrega dos atores e realizadores.

E apostamos as fichas nos “Monstros da Semana”, que tragam histórias inteligentes, interessantes, metáforas de temas atuais sobre política, sociedade, tecnologia e ciência, com aquela dose marota de suspense, terror, procedural e sci-fi, que arrebataram os fãs durante tantos anos e transformaram Arquivo X no objeto de culto que é hoje.

Vai lá, Chris Carter, cê sabe fazer. Só o saudosismo de ver Mulder e Scully na telinha, não basta não. E a gente ainda quer acreditar!

Dá pra acreditar?


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

2 Comentários

  1. Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos disse:

    Rapaz! Fecho com tudo o que você disse aí. Arquivo X é uma série fruto de um determinado recorte cronológico. Tudo o que vimos naquela época fazia sentido. Havia uma paranoia no ar com o fim da Guerra Fria, Bill Clinton, Iraque… E hoje em dia vivemos em tempos muito mais conturbados, cheio de medo, desconfiança do próximo, isolamento, internet… E os caras ainda querem falar de vírus alienígena? Fecha essa gaveta de ideias velhas e vamos criar coisas novas! Caramba! A galera que saiu do Arquivo X lá nos anos 90 criaram coisas como Breaking Bad! Sério que essa conspiração novelesca e arrastada, mesmo que corrida, é tudo no que conseguiram pensar? Vou acompanhar os seus próximos comentários pra decidir se assisto os demais episódios. Por enquanto, decidi deixar tudo na lembrança mesmo.

  2. Victor disse:

    Eu não quero mais acreditar faz tempo! Para mim o Arquivo-X “de verdade” acabou lá atrás, no episódio “The End,” onde Mulder chegou perto demais de ter alguma prova e acabaram de vez com ele, queimaram seu escritório, encerraram os Arquivos X. Depois disso já veio aquele filme nada a ver, com alienígenas monstrões plagiando Alien… Mas beleza, seguimos em frente. Aí a série terminou de novo, de um jeito digno, no duplo “Two Fathers” / “One Son.” Daí pra frente foi só tristeza! Billy Miles voltando como “Super Soldado,” Scully dando à luz ao seu filho híbrido com direito ao “OVNI de Belém” indicando o local do parto e a cereja do bolo — Samantha ter sido levada da base militar por espíritos benfazejos que transformam crianças em “matéria espiritual!” Fechando com chave de ouro, o Canceroso foi aniquilado por um MÍSSIL, e viemos seu corpo se desfazer em chamas no melhor estilo Matrix. Aí trouxeram ele de volta… XD

    Arquivo-X terminou assim que a produção saiu de Vancouver.

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