FAQ #1 – Júlia Câmara

Entrevista exclusiva com a roteirista de Ocupantes, que tem exibição única neste sábado (07) no Rock Horror in Rio Film Festival


Estreamos nossa nova seção FAQ com uma entrevista exclusiva com a Júlia Câmara (Área Q), roteirista de Ocupantes, filme sci-fi found footage dirigido por Russ Emanuel, realizado nos EUA, que tem sido sucesso de público e crítica, recebendo 42 prêmios e mais 33 indicações em eventos internacionais como Maverick Movie Awards, Idyllwild International Festival of Cinema, Los Angeles Cinema Festival of Hollywood, Berlin Sci-Fi FilmFest, International New York Film Festival, The European Independent Film Award eShriekfest Horror Film Festival.

Câmara contou sobre suas influências, a carreira do filme internacionalmente e as dificuldades de se fazer cinema independente, tanto no Brasil como 0utras partes do mundo.

No sábado (07), Ocupantes será exibido no Rock Horror in Rio Film Festival como um dos favoritos na competição “Melhor Longa de Terror”, seguido de bate papo com a roteirista. O evento acontece no Reserva Cultural Niterói, no Rio de Janeiro, vai até dia 08 de abril e reunindo música e cinema – serão exibidos 35 filmes inéditos, de 17 países, com muito terror e rock’n’roll.

101 Horror Movies – Ocupantes é sua segunda incursão no sci-fi com elementos de terror. Como nasceu seu interesse em escrever sobre o gênero?

Júlia Câmara – Desde adolescente eu tinha uma fascinação com o gênero de terror, suspense e sci-fi. Talvez porque eu tenha crescido nos anos 90 em que os filmes de suspense e mistério eram boa parte do passava nos cinemas. Os anos 90 foram a época dos thrillers como Silencio dos Inocentes e Instinto Selvagem. Eu fui descobrir o sci-fi com Além da Imaginação, Tales From The Crypt (Contos da Cripta) e A Quinta Dimensão. Quando me mudei para os EUA eu comecei a assistir Star Trek: Voyager e o meu interesse cresceu muito por este gênero. O fato dessa ser a única série de Star Trek com uma mulher na cadeira de capitão fez com que eu me identificasse muito com a série. Poder trabalhar com o Robert Picardo foi muito especial para mim.

101HM – O filme utiliza elementos de dimensões paralelas, realidades alternativas e dopplegangers. Como surgiu a ideia do roteiro e quais foram suas pesquisas e fontes para chegar na história final?

JC – Eu tinha muita vontade de escrever um roteiro no gênero de found footage. Então eu comecei a bolar a história ao contrário. Dois personagens em um local. Aí tive que pensar na razão das câmeras e em quem eram os personagens. A princípio, eu imaginei só um casal que aparentemente tinha um casamento feliz, mas que as câmeras revelariam não ser o caso. Quanto mais eu desenvolvi a história, mas eu achava que a plateia odiaria este casal que faz coisas terríveis um com o outro. Então achei que seria interessante se fossem dois casais idênticos, porém com diferenças chaves de escolhas de vida e de dinâmica entre eles.

101HM – Por que um mockumentary? Foi uma escolha narrativa ou estética por conta de questões de orçamento? 

JC – A princípio foi uma escolha por questões de orçamento. Mais o gênero de found footage ou mockumentary era algo que eu tinha vontade de criar. Eu assisti vários filmes do gênero, e apesar de já existirem vários filmes similares, eu senti que a pitada de sci-fi traria algo novo para o gênero.  Eu na verdade planejava filmar o roteiro na minha casa com a ajuda de alguns amigos. Quando eu finalizei o roteiro, comecei a achar que ele tinha um potencial maior do que o meu plano original. E neste meio tempo veio o contato com o Howard Nash, nosso produtor. Ele se apaixonou pelo roteiro no ato.

101HM – Tem um momento no começo do filme, onde Neil diz que o doc de Annie basicamente é uma espécie de Super-Size Me às avessas, mas que a cineasta fala que é um projeto dela, mas se alguns outros trabalhos surgirem naturalmente, ela não vai se afastar. No caso de Ocupantes, Atividade Paranormal é um desses trabalhos, certo? E quais outros projetos também serviram de inspiração?

JC – Mais até que Atividade Paranormal, eu diria que A Bruxa de Blair foi um filme que me marcou na época da faculdade. Acho que o Atividade Paranormal fez o gênero de found footage relevante de novo. Principalmente por causa do sucesso das sequencias do filme original. Algo que a sequencia de A Bruxa de Blair não conseguiu.

101HM – Ocupantes tem feito uma carreira elogiada e premiada nos festivais mundo afora. São 42 prêmios e 33 indicações, certo? Você tem acompanhado esses festivais? E como tem sido a reação do público e como você vê essa repercussão toda?

JC – A oportunidade de ir a todos estes festivais, e eu fui em muitos, mas não todos, tem sido algo especial para mim. A reação do publico é sempre positiva, sempre ouço comentários e perguntas diferentes ao conversar com o público após o filme. O filme tem causado curiosidade e estimulado muito o pensamento do público. Isso me deixa muito feliz. O filme, além de levantar questões sobre universos paralelos e escolhas de vida, também acaba abordando questões sobre relacionamentos estáveis. Eu não esperava que o filme fosse tão longe quanto foi. Acho que grande parte do sucesso é graças ao diretor, Russ Emanuel, que sempre acreditou que o filme poderia ir longe.

101HM – Chover no molhado falar sobre as dificuldades de se fazer cinema independente. Quais os truques para tentar emplacar um roteiro? Morar e trabalhar em LA, para o mercado americano, é um caminho mais “fácil” do que tentar fazer cinema de gênero no Brasil?

JC – Algo que eu aprendi na época da faculdade produzindo e escrevendo curtas foi como escrever material que não precisa de grande orçamento para ser produzido. Até mesmo o Angie que acabou tendo um orçamento muito maior do que eu esperava quando o produtor Uri Singer entrou no projeto, o atrativo inicial era que o filme seria fácil e relativamente barato de se produzir. Acho que a história vem sempre em primeiro lugar, não importando o orçamento. Se a história é boa, você já tem meio caminho andado. Mas algo que precise de muita computação gráfica e efeitos especiais já cria uma complicação. Outro passo para conseguir emplacar um roteiro é achar parceria com produtores que acreditem tanto no seu projeto como você. Para falar a verdade não sei qual o mercado é mais fácil. Acho que é difícil em qualquer lugar do mundo. Mas eu torço para que o Brasil estabeleça uma tradição de cinema de gênero em breve. Algumas conversas que tive aqui no Brasil com produtores e outras pessoas do mercado de cinema, eu senti que muitos tem uma certa resistência a querer investir no cinema de gênero, achando sempre que não existe valor artístico em filmes de terror. A única maneira de lutar contra esta resistência, é fazendo.

101HM – E falando nisso, como você vê o cinema fantástico atualmente no Brasil? 

JC – Eu espero que ele cresça muito. Acho que existe todo uma plateia que adoraria ter a chance de ver este gênero nas telonas, e não só as grandes comedias e filmes sobre politica que tem feito grande sucesso de bilheteria no Brasil. Os artistas brasileiros são supercriativos, o folclore e mitologia do Brasil é muito rico, acho que precisamos apenas apostar neste gênero e acreditar que o público terá interesse me ir assistir.

101HM – Qual sua expectativa para a primeira exibição do filme aqui no país? E quais os próximos passos do longa? Rodará por mais festivais? Há perspectiva de distribuição para os cinemas, direct to video ou mesmo algum serviço de streaming?

JC – Ocupantes passará em mais alguns festivais nos EUA, em Nova York, Oklahoma, Mississippi e Novo México. No Brasil, o filme será distribuído comercialmente pela A2 Filmes.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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